Por um fio


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A Francana completa 94 anos hoje após ser fundada em 12 de outubro de 1912, mas na festa de aniversário não terá velinhas e nem gente para bater palmas após o clube estar próximo ao fundo do poço. A comemoração foi adiada pela diretoria, sem motivo definido, e prometida para acontecer até o fim deste mês. Um clube com história, quase apagada em meio a administrações duvidosas e com memória cada vez mais decadente. A tradição se traduz em números importantes: dezoito anos após Charles Miller importar a “paixão brasileira” para São Paulo, um grupo de dez pessoas criaram a Veterana na casa do professor David Carneiro Ewbank. Era o nascimento de uma equipe que teve sua primeira conquista em 1923 e, em 1977, chegou à 1ª divisão do futebol paulista, caindo em 1982. O troféu da mais importante conquista está em uma sala da sede recreativa, cheia de pó. Entre esses prêmios, somam-se outros 177 títulos menores de futebol e consagrações em diferentes esportes, como o basquete, o truco e a malha. Um dos símbolos do campeonato de 77, o capitão e meia-esquerda Marinho, 54, tem saudade de seu tempo e revela que há pelo menos dez anos não vai ao estádio devido à maneira como antigos dirigentes cuidaram da Esmeraldina. “É um crime uma cidade como aqui não ter um time. Antes, tinha mais amor do que dinheiro e interesses próprios envolvidos”, desabafou. Ele mora em Franca e transformou-se em vendedor de sapato após parar de jogar em 1983 ao estourar o joelho e colocar uma prótese. Diferente dessa época de ouro, a equipe atual não tem nenhum técnico depois da saída de Jordan de Freitas da categoria de base. Seu desejo de assumir o time profissional no Paulista de 2007 foi solenemente ignorado pela diretoria. A receita ainda é pequena, cerca de R$ 12 mil para manter o setor desportivo, quando a previsão de gastos para disputar a Série A-3 no próximo ano varia entre R$ 70 e R$ 80 mil. E por fim, não há previsão de contrato de jogadores para a próxima temporada. O que resta, por enquanto, é a esperança de jovens atletas comprometidos com a Francana até 2007. “Precisamos dar muito valor. O que acho que tem de melhorar é a categoria de base, mas estou na expectativa de montar o time para a A-3 e vou lutar para ser titular”, relatou o lateral-direito Gabriel, autor do último gol marcado pelo time profissional e que quebrou o jejum de cinco jogos sem vitória no Estádio Lanchão. Além dele, mais três atletas estão contratados. Para o restante da equipe, as negociações ainda não começaram. “Não tem nenhuma firma grande disposta a ajudar. Sem recursos, não tem o que fazer”, lamenta o presidente José Lancha Filho. E se não bastasse a escassez dos recursos, o clube ainda lida com uma dívida milionária e pelo menos 34 casos de penhora da sede recreativa. Nesse mandato de José Lancha Filho, a diretoria jurídica conseguiu reduzir a onda de ações judiciais, mas não recebeu respaldo com patrocínio. O maior problema com dívidas está no passado. Isso porque os processos surgem das áreas cíveis, trabalhistas e federais. No caso da primeira esfera, a última sentença condenou a Francana a R$ 350 mil. O veredicto foi dado nesse segundo semestre e como não houve pagamento, foi pedido mais uma penhora. Os autores desta ação, dois empresários residentes em São Paulo, foram ex-parceiros do time. “A Francana está no coração, mas do jeito que a situação está é difícil. O clube é um saco sem fundo”, conclui um antigo torcedor e jogador de categorias de base na década de 60, Helisson José Fernandes, 59, o “Capeta”. E que lembrou: “Meu pai (Emílio Fernandes) e muitos outros torcedores ajudavam até com doação de um salário mínimo. Hoje quem faria isso?”

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