950 milhões de pares de calçados


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Segundo a revista alemã Pro Leder (5/2006), este é o montante de calçados importados pela União Européia da China desde a queda das barreiras em 2.2.2005 até o fim de abril de 2006. Somam-se a este montante mais 120 milhões de pares importados do Vietnã. É muito calçado, sim, quando levamos em conta que toda a produção brasileira por ano representa 700 milhões de pares. Por outro lado, não é tanto assim, quando somente os Estados Unidos importaram sozinhos da China, no ano passado, um bilhão e seiscentos milhões de pares de calçados. Depois do tsunami que varreu da superfície a indústria de calçados italiana, para dar uma satisfação política, a União Européia, a partir do dia 7 de abril de 2006, baixou uma tarifa de proteção, contra importações da China de 19,4% e 16,8 % contra as importações do Vietnã. Com único resultado de encarecer o calçado para o consumidor europeu sem criar nenhum posto de trabalho ou evitar a contínua diminuição de produção das fábricas que ainda existem e resistem. Na Alemanha, na Holanda, na Polônia e República Tcheca. Segundo a revista Pro Leder ainda foram produzidos na Alemanha, em 2005, 30 milhões de pares, ou sejam, uns 130 mil pares por dia, na Alemanha inteira! Até há pouco tempo a Azaléia, uma única produtora de calçados, produzia mais. Por sinal, o primeiro lote dos calçados Azaléia produzidos na China deve desembarcar por estes dias. Quais são os ensinamentos que podemos tirar dos fatos acima apontados? Que, a despeito da concorrência impiedosa, há chances de sobreviver. Quem fará parte deste grupo? 1) Quem tiver produto original, destinado aos nichos do mercado específicos. 2) O maior valor agregado possível, seja em materiais, ou em mão-de-obra. 3) Qualidade do produto indiscutível. 4) Indústria com infra-estrutura mais do que perfeita e econômica, tanto na parte produtiva como na gestão da empresa. 5) Serviços impecáveis, principalmente na entrega e comunicação. 6) Pesquisa de mercado e organização de vendas à altura do desafio. 7) Colaboradores altamente treinados e selecionados. Olhando em torno, quantas indústrias, na situação de hoje poderíamos enquadrar nestas condições? - Bem poucas. Quantos capitães de indústria têm calma suficiente para traçar estratégias que fariam frente ao desafio chinês? Sufoca-dos que estão com os problemas do dia-a-dia criados justamente pela falta dos elementos acima alinhados. Os chineses tiveram dois anos de tempo para preparar a ofensiva que colocou a Europa à mercê deles. Os industriais europeus sabiam da decisão da queda das barreiras, mas ninguém se incomodou, achando, como dizem os baianos, “conosco ninguém pode!” O resultado está aí. Fábricas fechadas para sempre. No Brasil, ainda não sentimos total impacto por uma série de fatores. O principal é o problema da logística. Quem argumenta que o frete da China para o Brasil vai dificultar as vendas dos produtos chineses ou está mal informado ou quer se iludir. O maior problema, hoje, na China, é disponibilidade de contêineres vazios para embarcar tudo o que produzem. O calçado é um produto barato, que não traz tantas divisas como os bens eletrônicos e produtos têxteis. Ou seja, prioridade do embarque para o produto mais caro. No momento que nos portos brasileiros de embarque de comodities e nos navios será solucionada a parte técnica de como aproveitar os navios graneleiros que levam minério de ferro ou soja para China e voltam vazios, só com lastro a situação mudará. Entre voltar vazio ou ganhar pelo menos alguma coisa com frete de retorno, qual será a dúvida? E haja contêiner. A ampulheta do tempo disponível a nosso favor está se esvaziando com rapidez. As providências acima mencionadas deveriam ser estudadas e implantadas com urgência absoluta. Não há mais tempo a perder. Há mais de dois anos que estou avisando sobre o perigo amarelo. Fui chamado de catastrofista. Não me incomodo com isso, se ao menos estes avisos forem levados a sério. Penso na legião dos operários e das suas famílias, que vão pagar pela imprevidência e falta de visão dos dirigentes. Estes que vão se retirar para as suas fazendas, compradas nos tempos quando até a incompetência era vendida com lucro. ZDENEK PRACUCH é consultor de empresas de calçados

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