Sapateiro: De sonho a passado distante


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Domingos Antônio começou a trabalhar em uma fábrica de calçados aos 14 anos. Aos 31 mudou de ramo: Fez curso de modelagem em bolsas e montou seu próprio negócio
Domingos Antônio começou a trabalhar em uma fábrica de calçados aos 14 anos. Aos 31 mudou de ramo: Fez curso de modelagem em bolsas e montou seu próprio negócio
Depois de ser considerada uma profissão de status na década de 90, os sapateiros amargam hoje um dos piores pisos salariais da cidade. Só não perdem para os trabalhadores rurais e empregadas domésticas. Segundo dados do Dieese (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos), em 1994, o piso dos sapateiros equivalia a quase o dobro do salário mínimo vigente no país (veja no quadro ao lado). Passados doze anos, o valor mínimo pago pelos industriais a quem trabalha na fabricação de calçados sofreu uma grande desvalorização. Hoje os quase 15 mil trabalhadores formais das empresas calçadistas têm como piso R$ 460. Valor apenas 31% maior que o salário mínimo (R$ 350). Em pelo menos três categorias pesquisadas pelo Comércio, pertencentes à indústria de transformação, o piso salarial é maior que o do sapateiros. Se o valor pago em 1994 não tivesse sofrido nenhuma desvalorização, hoje a categoria poderia ter um piso em torno de R$ 640,00 (sem correções), bem acima do que é pago pelas indústrias metalúrgicas, curtumeiras e de borracha. Paulo Afonso Ribeiro, presidente do Sindicato dos Sapateiros, não concorda com a conta, mesmo sem correções. Na sua opinião, o salário mínimo, especialmente nos últimos três anos, foi muito valorizado e não daria para acompanhar essa evolução. “O mínimo teve quase 100% de reajuste. Nós (sapateiros) tivemos entre 17% e 20% de reajuste nos últimos anos. Não foi o salário do sapateiro que diminuiu, mas, sim, o salário mínimo que cresceu demais”. Se pode servir de consolo para a categoria, o presidente do Sindicato lembra que existe um acordo entre os Sindicatos da Indústria e dos Sapateiros de que o piso da categoria se mantenha sempre acima de 20% do mínimo vigente. “Isso nós estamos conseguindo”, disse Paulo. Jorge Félix Donadelli, presidente do Sindicato da Indústria de Calçados de Franca, disse que o universo de trabalhadores que recebem apenas o piso é muito pequeno. Segundo ele, a média de salários na indústria varia entre R$ 680 e R$ 720. “É uma minoria que recebe o piso. Praticamente só os iniciantes. Um cortador ganha, em média, R$ 1500. Temos pespontadores que recebem até R$ 900. O piso é apenas um referencial.” Na opinião de Donadelli, a indústria calçadista é o “maior exemplo” de “distribuição de renda” no País, mas é sensível a situação do setor. “Quando o setor vai bem ela distribui melhor. Talvez, em 1994, não me lembro, a indústria estivesse em boa fase”. Vale lembrar que foi justamente em janeiro de 1994 que houve a equiparação do dólar com o real, dando início a uma das maiores crises da indústria calçadista de Franca.

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