Depois de ser considerada uma profissão de status na década de 90, os sapateiros amargam hoje um dos piores pisos salariais da cidade. Só não perdem para os trabalhadores rurais e empregadas domésticas.
Segundo dados do Dieese (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos), em 1994, o piso dos sapateiros equivalia a quase o dobro do salário mínimo vigente no país (veja no quadro ao lado). Passados doze anos, o valor mínimo pago pelos industriais a quem trabalha na fabricação de calçados sofreu uma grande desvalorização. Hoje os quase 15 mil trabalhadores formais das empresas calçadistas têm como piso R$ 460. Valor apenas 31% maior que o salário mínimo (R$ 350).
Em pelo menos três categorias pesquisadas pelo Comércio, pertencentes à indústria de transformação, o piso salarial é maior que o do sapateiros. Se o valor pago em 1994 não tivesse sofrido nenhuma desvalorização, hoje a categoria poderia ter um piso em torno de R$ 640,00 (sem correções), bem acima do que é pago pelas indústrias metalúrgicas, curtumeiras e de borracha.
Paulo Afonso Ribeiro, presidente do Sindicato dos Sapateiros, não concorda com a conta, mesmo sem correções. Na sua opinião, o salário mínimo, especialmente nos últimos três anos, foi muito valorizado e não daria para acompanhar essa evolução. “O mínimo teve quase 100% de reajuste. Nós (sapateiros) tivemos entre 17% e 20% de reajuste nos últimos anos. Não foi o salário do sapateiro que diminuiu, mas, sim, o salário mínimo que cresceu demais”.
Se pode servir de consolo para a categoria, o presidente do Sindicato lembra que existe um acordo entre os Sindicatos da Indústria e dos Sapateiros de que o piso da categoria se mantenha sempre acima de 20% do mínimo vigente. “Isso nós estamos conseguindo”, disse Paulo.
Jorge Félix Donadelli, presidente do Sindicato da Indústria de Calçados de Franca, disse que o universo de trabalhadores que recebem apenas o piso é muito pequeno. Segundo ele, a média de salários na indústria varia entre R$ 680 e R$ 720. “É uma minoria que recebe o piso. Praticamente só os iniciantes. Um cortador ganha, em média, R$ 1500. Temos pespontadores que recebem até R$ 900. O piso é apenas um referencial.”
Na opinião de Donadelli, a indústria calçadista é o “maior exemplo” de “distribuição de renda” no País, mas é sensível a situação do setor. “Quando o setor vai bem ela distribui melhor.
Talvez, em 1994, não me lembro, a indústria estivesse em boa fase”. Vale lembrar que foi justamente em janeiro de 1994 que houve a equiparação do dólar com o real, dando início a uma das maiores crises da indústria calçadista de Franca.
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