<p>O primeiro deputado federal eleito por Franca nos últimos 20 anos sabe da expectativa que a cidade deposita em seu mandato. Marco Aurélio Ubiali (PSB), médico com 57 anos completados ontem, fala com simplicidade sobre a responsabilidade que os 84175 votos recebidos - 68050 somente em Franca - lhe reservam. Para ele, esse será mais um desafio de vida. Em entrevista ao Comércio, a preocupação de não desapontar a população de Franca e região ficou evidente em praticamente todas as respostas. </p>
<p><br />Para isso ele traça planos para a cidade. O principal deles é organizar a bancada calçadista e a das Apaes no Congresso. Para Ubiali, a falta de experiência - é a primeira vez que ele ocupa um cargo eletivo - não será problema na hora de negociar com os demais deputados. “Sou de uma família de nove irmãos. Então essa negociação se aprende desde o berço”, disse. </p>
<p><strong>Comércio da Franca - Como foi quebrar um tabu de 20 anos sem um deputado federal por Franca?<br />Marco Aurélio Ubiali</strong> - Eu acho que foi um trabalho de toda a comunidade. Começou com a campanha Voto Nosso, que levou aos eleitores de Franca, primeiro, a importância de ter um deputado federal e, segundo, que um deputado federal de Franca poderia trazer uma voz, alguma coisa que desse um novo caminho para a cidade. A campanha Voto Nosso nesta eleição quase não existiu, mas o fato dela ter existido reverberou até agora e manteve as pessoas atentas a isso. E, agora, algumas pessoas pediram para votar em candidatos de Franca. Eu mesmo coloquei uma tarja dizendo que era para votar em estadual de Franca. Então, eu acho que isso acabou somando e fez com que o povo se definisse mesmo por um candidato. <br /></p>
<p><strong>Comércio - Nos bastidores o senhor sentia isso?<br />Ubiali</strong> - Não só isso, como as pessoas eram muito claras em dizer: “Dessa vez é você”. Houve uma definição muito antes do dia da campanha de que desta vez seria uma eleição em que eu deveria ser eleito. A gente sentia isso voluntariamente. As pessoas gritavam meu nome na rua. Percebi que era uma campanha diferente das outras duas que eu tinha feito.<br /></p>
<p><strong>Comércio - No dia da eleição, houve uma grande ansiedade. Os votos de Franca não estavam sendo enviados rapidamente ao TSE e o senhor demorou para ocupar as primeiras posições. Como foi o sofrimento com isso?<br />Ubiali</strong> - Cheguei a achar que não ia ganhar. “Infelizmente, Franca se esforçou tanto e não vai dar”, pensei. Naquele momento, cheguei a ficar triste. Não por mim, que sou uma pessoa acostumada a lutar contra adversidades e as supero com muita facilidade. Costumo dizer que fico irritado por algumas horas, um dia no máximo... Eu falei: “Puxa, vai ser uma frustração para o povo de Franca. Mais uma vez, acabou acontecendo o que a gente não queria. Dividiu, estava dividindo com o Belão... Dividiu e não vai eleger ninguém”. Mas quando fiquei sabendo que estava atrasado, pensei: “Talvez eu tenha uma votação até maior. Essa votação que está lá é uma votação que está chegando da região”. E era. Quando entrou Franca, eu saltei e fui lá para cima.<br /></p>
<p><strong>Comércio - Antes de eleito, o senhor sentia muita esperança. E agora, depois de eleito? O que o senhor sente das pessoas?<br />Ubiali</strong> - Eu tenho sentido tanta alegria no povo de Franca que tenho ficado arrepiado diante de algumas pessoas. Elas chegam, me abraçam, felizes. Isso aumenta muito o meu compromisso. Eu já era imbuído de muita boa vontade. Agora, tenho muito mais do que boa vontade. Tenho uma responsabilidade enorme de não decepcionar esse povo. Um povo que estava muito carente. Fizeram festa pela minha eleição em Itirapuã, fizeram festa em Ribeirão Corrente. E não fui eu que promovi não. Foi festa espontânea. Isso aumenta muito a minha responsabilidade com o povo de Franca e da região. Então, se eu tinha uma vontade de trabalhar com muita força, grandemente para a cidade, vou trabalhar muito mais, muito mais. Eu me lembro de quando fui fazer vestibular. Cheguei no cursinho César Lattes em Ribeirão Preto. Saí de Franca, menino simples, de uma escola relativamente frágil. Cheguei em Ribeirão Preto e ganhei uma bolsa de estudos. Uma bolsa completa. Eles, como todo cursinho desde aquela época, ofereceram 50%. Eu falei: “Oh, 50% e nada é a mesma coisa. Ou vocês me dão 100% ou não me dão nada”. Me deram 100%. E eu agradeço muito a isso. Aí, quando fui lá pegar as apostilas, falei: “Gente, mas eu não consigo ler isso aqui em uma semana (risos). Eles falaram: “Toda semana vamos te dar as apostilas”. Eu falei: “Não vou dar conta disso não”. Mas dei. Hoje, essa é a mesma sensação que eu tenho. De repente, bate aquela sensação: “Puxa vida. Que que eu vou fazer para não decepcionar?”.<br /></p>
<p><strong>Comércio - As apostilas são a esperança do povo?<br />Ubiali</strong> - A esperança do povo. E a responsabilidade é infinitamente maior. Antes, era uma esperança minha, da minha família, do meu sucesso pessoal. Agora, é uma esperança de ser o que o povo espera que eu seja. E é o que eu quero. Corresponder.<br /></p>
<p><strong>Comércio - O senhor falou em medicina. Como fica para conciliar a vida em Brasília com a profissão?<br />Ubiali</strong> - Vou tentar conciliar isso de alguma forma. De repente, posso atender em Franca aos sábados, não sei. Se não der, farei algum trabalho filantrópico em Brasília. Mas a prioridade será não decepcionar o povo. </p>
<p><strong>Comércio - Qual será a sua primeira atitude como deputado?<br />Ubiali</strong> - Será organizar duas importantes bancadas. Primeiro, a bancada dos calçadistas, que não é uma bancada organizada. Ela tem alguns deputados do Sul com os mesmos interesses. Eu quero organizar essa bancada. Segundo, a bancada das Apaes. Eu já estive fazendo contato e nós vamos consolidar essa bancada também.<br /></p>
<p><strong>Comércio - O senhor nunca ocupou um cargo público. Como pretende compensar isso na hora de negociar, de fiscalizar, na hora de exercer as funções de um deputado federal?<br />Ubiali</strong> - Eu diria que não tenho a experiência efetiva de mandato eletivo. Mas, ao longo da minha vida, a minha necessidade de negociar e de me adaptar se deu desde o meu nascimento. Sou de uma família de nove irmãos. Então essa negociação se aprende desde o berço. Por outro lado, enquanto presidente da Federação Estadual das Apaes, enquanto membro da diretoria da Federação Nacional das Apaes, enquanto presidente da Apae de Franca, sempre precisei negociar. Além dessa experiência fora do mandato eletivo, tenho amigos com mandato. O Eduardo Barbosa (PSDB) (deputado federal em quarto mandato por Minas Gerais), que é presidente da Federação Nacional das Apaes, já me ligou e se colocou à disposição para me ajudar no que for preciso. Além dele, o senador Flávio Arns (PT), do Paraná, que também já me ligou, me cumprimentou e se prontificou a colocar a experiência dele junto comigo. Então, acredito que vou chegar e rapidamente me adaptar. Para se ter uma idéia do quanto eclética vai ser minha postura, o Eduardo é do PSDB e o Arns é do PT (risos). Além deles, o Duarte Nogueira (PSDB) me telefonou propondo um trabalho conjunto e eu já aceitei. Nós vamos nos encontrar em breve para discutir isso.<br /></p>
<p><strong>Comércio - Um dos trunfos para conseguir se adaptar pode ser ter assessores experientes?<br />Ubiali</strong> - Com certeza. Na verdade, eu tenho um nome, mas ainda não o consultei pessoalmente. Não é de Franca. É de Ribeirão Preto. Ele me ajudou na campanha. Mas eu também vou conversar com esses dois amigos lá de Brasília para ver direito. Em breve, um pessoal meu deve ir para Brasília para ajeitar contatos.<br /></p>
<p><strong>Comércio - Como o senhor fará para chegar a Brasília, como um novato, e se fazer ouvir dentro do próprio partido?<br />Ubiali</strong> - Dada a minha índole e o meu jeito de ser, eu sou dentro do PSB estadual um ponto de equilíbrio, por incrível que pareça, mesmo com o pouco tempo de partido. Considero que eu sou amigo do Márcio França (ex-prefeito de São Vicente e presidente do Diretório Estadual do partido); ele me ajudou, abriu espaço para mim dentro do partido. E há uma divisão no PSB com o grupo da (Luiza) Erundina. E eles me adoram. Já me ligaram e tal. “Graças a Deus que entrou mais um do bem”... Eu até espero, e sou muito crente neste tipo de coisa, que eu ajude numa conciliação melhor da bancada paulista lá em Brasília. Nacionalmente, o meu contato é com o Ciro Gomes, que é, naturalmente, um grande líder dentro do partido. O meu contato com ele é muito superficial, mas o meu cunhado é amigo íntimo dele, de freqüentar a casa dele e ele freqüentar a do meu cunhado. E a nossa proposta é uma aproximação do Ciro muito fortemente. Se o Lula ganhar, ele vai virar um ministro, mas, se ele não virar um ministro, ele será uma liderança. Ele tem visibilidade. Então, a minha posição com isso é muito confortável.<br /></p>
<p><strong>Comércio - Como o senhor pretende se relacionar com o prefeito Sidnei Rocha (PSDB)?<br />Ubiali</strong> - O Sidnei me ligou na segunda-feira, logo de manhã. Na terça, fui ao gabinete dele. Fui muito bem recebido, ele está com muita esperança no trabalho de deputado federal. Senti um clima de otimismo e de esperança. Estou sentindo um clima de grande aproximação com ele.<br /></p>
<p><strong>Comércio - O PSB nacional fechou um apoio ao Lula. Como o senhor fica nisso? Segue a orientação do partido ou apóia o candidato Alckmin, bem mais votado do que o Lula em Franca?<br />Ubiali</strong> - O Diretório Estadual ainda não tomou uma decisão. O Márcio (França) teve que viajar e não estava presente à reunião que tivemos na quarta-feira. O que ficou claro é o seguinte: o partido em São Paulo vai ficar neutro. E se acabar apoiando o Lula, vai se discutir qual será o PT a ser apoiado. É o mesmo que estava lá ou é diferente? É um PT que governará com outros partidos e que está se renovando? Na verdade, o PSB, por um lado, é muito beneficiado pela ascensão do Lula. Essa ascensão levaria o Ciro Gomes para um ministério e até mesmo o Márcio França para outro. Isso seria muito benéfico para Franca, já que o meu nome passaria ser a cogitado para uma vice-liderança ou uma liderança no Congresso. Mas o que interessa mesmo é a população de Franca. E eu vou ficar do lado da população de Franca.<br /></p>
<p><strong>Comércio - Mesmo a dois anos da eleição para prefeito, é inevitável pensar que o PSB, muito mais ainda com a sua eleição, almeja conquistar a Prefeitura de Franca. Quem será o nome do partido na disputa?<br />Ubiali -</strong> Todo partido tem um projeto de ocupar a cadeira de prefeito. E esse também é um projeto do PSB. Mas muitas coisas ainda não estão definidas. Existem alguns nomes dentro do PSB. Vou citar dois: Doutor Joaquim Ribeiro e Théo Maia, que são nomes que já foram candidatos e estão dentro do partido. Poderão vir ainda outros nomes com essa intenção de ser candidato. Conheço pelo menos duas outras pessoas com grandes potencialidades eleitorais que podem vir para o partido. Tenho impressão que essa movimentação vai existir. Agora, não há dúvida de que o partido tem que crescer, o partido tem que ocupar o espaço. Se não formos nós, serão outros.</p>
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