Pensando bem...


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Viver, em resumo, é enfrentar problemas. Ricos, pobres, todos os têm. Há os comuns a todos e os da esfera íntima de cada um. Preocupar com eles é preciso, e lutar para vencê-los ou mesmo para conviver com eles, já que muitos não têm solução ou ela está fora do alcance. Mas, pensando bem, acho que não é necessária tanta preocupação. Fazer a vida menos problemática só depende de nós, e para isso importa como encaramos os problemas. Há os que nos cabe resolver e com que devemos nos preocupar, os insolúveis e aqueles cuja solução não depende de nós. Muitas preocupações que nos consomem são inúteis, e assim é melhor livrarmo-nos delas. Os filhos saem à noite; ficar acordados, esperando-os voltar, agoniados com o que lhes pode acontecer, resolve alguma coisa? Não. Então vamos dormir. Numa viagem de avião, chegar ao destino sem problema não depende de nós, pois não estamos no comando da nave. Então, de que adianta preocupar? Melhor relaxar e tirar um bom cochilo, ler alguma coisa, etc. Quando ingressei no Ministério Público vivia receoso de que me viesse às mãos um caso muito difícil, para o qual eu fosse incapaz de encontrar a solução jurídica. Aos poucos percebi cada caso tem seu grau de complexidade e que nenhum, por mais intrincado, resiste a uma apreciação detida, um estudo minucioso. Portanto nada de sofrer antes da hora. A vida é simples. Nós a complicamos. Vemos problemas que não existem, ou lhes damos mais valor do que merecem. Eu era muito autocrítico, principalmente no trabalho. Um dia me dei conta do quanto sou limitado, falível e incapaz de resolver os males do mundo. Senti-me leve. Foi como tirar um grande peso das costas. Vivo melhor desde então, embora tenha em mente que a falibilidade humana não é desculpa para todas as besteiras que a gente faz. Avaliamos as pessoas pelos defeitos e não pelas virtudes, e isso é um erro, já que não somos a divina perfeição. Eu gostaria de ser risonho, simpático, extrovertido, inteligente, infalível, mas não é possível escolher como a gente vai ser quando nasce, e assim temos de nos contentar com o que somos. Ninguém é perfeito. É mister, porém, reconhecer certos defeitos e tentar vencê-los ou ao menos controlá-los, tentar crescer espiritualmente e melhorar como pessoas. E gostar de nós, senão quem vai gostar? No filme “Encontro Marcado”, numa festa, um homem pergunta a outro: “sua mulher te ama?” Sem relutar, o outro diz que sim. “Como tens certeza?”, replica o primeiro. “Simples”, responde o outro, “ela conhece todos os meus defeitos e não liga”. Gostar das pessoas como elas são e não como queríamos que fossem, é isso. Nada de querer moldá-las. Ninguém é metade nem dono de ninguém. Muitos pais dizem-se tristes ou frustrados porque os filhos não seguiram a profissão indicada ou casaram com quem eles pais não gostariam. Ora, deixemos os filhos fazer o que gostam. A vida é deles. Procuremos ser um bom espelho para eles e depois que sigam o caminho que escolherem. Há que se ter otimismo e alegria, viver o presente, sem preocupação antecipada com fatos que talvez nem ocorram. Sofre-se às vezes sem necessidade. Pensamento ruim atrai coisa ruim. Viver com medo de perder o emprego, por exemplo, é um erro. Deve-se fazer o melhor possível e dar valor ao trabalho, seja qual for, mas ter em mente que perdê-lo não é a morte. A vida continua. Às vezes se perde um trabalho e se acaba conseguindo um melhor. Não se deve deixar dominar pelo desânimo e pelo pessimismo, assim como também não se deve ser estático. É preciso mover-se, aprender coisas novas, qualificar-se. As pessoas procuradas são as otimistas, dinâmicas, que têm iniciativa, autoconfiança, qualificação. Na vida há momentos bons e ruins. Os ruins devem servir de lição. Diz Belchior: “a noite fria me ensinou a amar mais o meu dia, e pela dor eu aprendi o valor da alegria”. O Dr. Adib Jatene diz que para a saúde do coração deve-se evitar a raiva, a inveja, a ambição e a vaidade excessivas, o desmedido apego ao material. Há quem quase enfarta por causa de um risco na pintura do carro! Tem mais amor ao carro que a si mesmo! Às vezes fica-se magoado por ofensas sofridas. Mas, pensando bem, quem deve ficar chateado é quem fez a ofensa, não quem a sofreu. Certos fatos naturais somos incapazes de vencer. Choveu quando queríamos sol? Fazer o quê? A natureza é mais forte. Devemos adequar-nos a ela, não ela a nós. Diz Rita Lee numa música: “a árvore que se curva ante o vento que é mais forte dura mais”. É isso aí. Ante certas ações humanas, todavia, não devemos nos curvar. No início da atual legislatura, uma forte reação popular impediu o aumento abusivo dos salários dos parlamentares federais, da contribuição previdenciária das empresas e do imposto sobre o ganho dos profissionais liberais. E tem muito mais: corrupção, carga extorsiva de tributos, descaso com a educação, tentativa de algemar o Ministério Público e a imprensa, etc. O povo unido pode vencer tudo isso. Em suma: é lutando contra os problemas reais que vamos melhorar nossa vida. Os moinhos de vento, pensando bem, deixemo-los para Dom Quixote. PAULO PEREIRA DA COSTA é promotor de Justiça em Piracicaba

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