Reflexo da sociedade


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Por que reclamamos tanto contra a corrupção e os nossos governantes? Se a resposta não lhe parecer óbvia, é pelo motivo de serem um reflexo da própria sociedade. E, se for óbvia, é porque a corrupção e a má administração são mazelas que devem ser eliminadas. Não que sejamos os agentes ativos e diretos disso, nem que consintamos com a situação, mas convivemos com ela, de uma forma ou de outra, nos meios mais rotineiros. Contudo, há casos em que a “sujeira” e a “espoliação” que se vê é tão grande, que não há outra saída senão condenar e reivindicar em vão, e depois resignar-se. Superfaturamento na compra de ambulâncias, dinheiro vindo não se sabe de onde para compra de dossiês contra outros candidatos; os casos são muitos. Achamos que corrupção só existe no governo, mas, definida como decomposição, putrefação, desmoralização ou depravação, ela é mais corriqueira do que imaginávamos. Despejar irresponsavelmente lixos e entulhos em locais públicos, adulterar combustíveis e placas de automóvel para lucrar mais e fugir de radares, subornar civis e burocracias para abolir multas e reduzir o trâmite de processos, lidar com documentação ilícita para auferir maiores vantagens. Isso se chama corrupção. Então, para que condenar os políticos se a própria sociedade é corrupta? Apenas a oportunidade de delito tida por algum funcionário público ou privado pode-se converter numa atividade corrupta. Desconfiamos da própria sombra. Se o problema estiver na representatividade, então estamos sendo bem representados, pois a tradição da prática de delinqüência foi transmitida fielmente da sociedade para o nível governamental. Talvez falte a autocrítica em alguns centros decisórios do país, dada a inevitabilidade de seu poder econômico ou político. As práticas variam desde políticas de manutenção da pobreza (e não combate) no sertão nordestino aos acordos comerciais no estado de São Paulo que exploram os cidadãos. Além disso, parece que a própria organização institucional e burocrática do governo nos impele a práticas corruptas, sem as quais a sobrevivência neste país não seria, para alguns, nem possível, quanto menos rentável para outros. A sociedade brasileira, com as devidas exceções, é norteada pela “Lei do Gérson”, pela qual se tenta obter vantagens pessoais a qualquer custo, mesmo que outros saiam perdendo. E aí pode haver um apelo a recursos baixos e desonestos. Aliás, alguns candidatos já acusados ou envolvidos em esquemas de corrupção foram eleitos nestas eleições. Se a sociedade é assim, por que seus representantes não podem ser? Afinal, queremos um governo eticamente responsável e plenamente isento de corrupção sem termos este quadro na própria sociedade. E, para que isso aconteça, o trajeto é árduo e longo, pois reclama a aliança de forças e o preparo a seu favor. BRUNO PERON LOUREIRO é estudante de Relações Internacionais na Universidade Estadual Paulista.

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