Quando uma lagartixa atacada por um predador ou pela vassoura da Dona Maria perde seu rabo, ela não precisa se preocupar. Após alguns dias, o rabinho está de volta, inclusive com sua medula espinhal novinha em folha. Feliz lagartixa! Nós, seres humanos, não temos a mesma sorte daquela (para alguns) repugnante criatura. Ao contrário do que ocorre com ela, se nossa medula espinhal for rompida, jamais se reconstituirá.
Se alguém, num acidente de carro, por exemplo, sofrer lesão na espinha, perderá para sempre os movimentos da área rompida para baixo. Por uma razão simples, nossas células nervosas (também chamadas neurônios, presentes no cérebro, na medula espinhal e nos nervos) não se regeneram como ocorre, por exemplo, com as células dos nossos ossos e as de nossa pele.
Mas pesquisas com células-tronco dão às vítimas de lesão medular e de uma série de outros traumas e patologias a esperança de, como as lagartixas, recuperar o irrecuperável e voltar a ter uma vida normal.
Células-tronco (também chamadas de células estaminais ou células não-diferenciadas) são células capazes de se transformar em qualquer um dos mais de 216 tipos de célula dos tecidos do corpo humano, explica Roseli Leite de Freitas, 44, professora de hematologia clínica e citologia nos cursos de Biomedicina e Fisioterapia da Unifran (Universidade de Franca). Essas células poderiam ser implantadas no local da lesão medular de alguém que tivesse ficado paraplégico em um acidente e se transformar em neurônios, religando as duas partes da medula rompida, devolvendo o movimento ao membros inutilizados. Além disso, várias outras doenças poderiam ser curadas com a reconstituição de outros tipos de tecidos.
O problema com as pesquisas de células-tronco humanas é que elas são encontradas, principalmente, nos embriões, isto é, nos fetos em gestação. A Igreja Católica, assim como outras religiões, proíbe o uso de embriões, pois, pelo menos por enquanto, para retirar essas células, o embrião morre, o que equivaleria a um aborto.
“É como matar uma pessoa para salvar outra”, opina o padre Valdomiro José de Souza, 36, vigário da paróquia Santa Rita.
Valdomiro, que está concluindo a faculdade de Biomedicina, é filósofo, professor de ética do Instituto Agostiniano de Filosofia e autor do livro Projeto Genoma Humano; Utopia do homem geneticamente perfeito (Edições Loyola, 2004), explica a visão religiosa do assunto. “Para a Igreja, o início da vida humana se dá no momento da concepção, isto é, da junção do óvulo com o espermatozóide. Nesse momento o embrião já possui a dignidade de filho de Deus, pois a partir desse momento o indivíduo já tem alma, a sacralidade da vida. O embrião tem ainda a dignidade humana, pois não há uma descontinuidade entre o embrião e a pessoa nascida. A pessoa só se desenvolve, mas já é ela. O período em que somos embriões nada mais é que uma fase da vida, assim como a infância ou a velhice. Não se pode hierarquizar o valor da vida pela sua idade. O embrião tem uma carga genética própria, única, já é um indivíduo, com uma seqüência do DNA exclusiva, irrepetível, diferente da do pai e do da mãe”.
O padre cientista explica que existem células-tronco também na medula óssea (“tutano”) e no cordão umbilical dos recém-nascidos. Segundo ele, a Igreja não vê problema na utilização das células-tronco dessas procedências.
“Alguns cientistas afirmam que as células-tronco embrionárias são mais eficazes que as do cordão umbilical ou da medula-óssea, mas ainda há muitas controvérsias sobre o assunto. Na realidade as não-embrionárias têm tido maior êxito nas pesquisas, pois podem ser retiradas do próprio paciente que vai recebê-las. No caso dos pacientes que recebem células embrionárias, verifica-se rejeição por parte do organismo, como ocorre muitas vezes nos transplantes de órgãos. Os medicamentos contra a rejeição podem vir até a ocasionar câncer. As células-tronco não-embrionárias são, portanto, mais éticas e seguras”, opina.
Já Fransérgio Pimenta de Faria, 26, aposentado por invalidez após ter perdido os movimentos do braço esquerdo em um acidente de moto há três anos, é a favor do uso das células de embrião. “As pesquisas com células-tronco trazem esperanças para pessoas como eu, pois podem reconstituir nervos e músculos. Se é para salvar vidas e dar esperança a pessoas que sofrem, não há problema algum em usar células de embriões”.
A professora Roseli Freitas é a favor apenas do uso de células-tronco não-embrionárias, mas ela explica que pesquisas muito recentes apontam para a possibilidade de se extrair células-tronco de um embrião sem que esse seja destruído, como anunciou ter feito o laboratório Advanced Cell Technology, de Massachusetts (EUA), em agosto, em pesquisa publicada pela revista científica Nature. Segundo ela, se isso se confirmar e ficar comprovado que não causa prejuízos ao desenvolvimento do embrião doador, não haveria mais o dilema ético e estaria aberto o caminho para a aceitação das pesquisas com células-tronco embrionárias pelas entidades religiosas.
Em Franca, os hospitais Regional e Unimed recolhem e guardam cordões umbilicais dos bebês que nascem lá se os pais desejarem.
Assim, no futuro, se as crianças precisarem e a tecnologia já permitir, poderão dispor de suas próprias células-tronco de cordão. O preço cobrado dos papais pelo serviço está em torno de R$ 4 mil.
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