<p>Seyed Jaafar Hashemi, embaixador da República Islâmica do Irã no Brasil, esteve no último dia 22 em Franca para participar da 4.ª Semana de Relações Internacionais da Unesp (Universidade Estadual Paulista), organizada pelo Centro Acadêmico de R.I. O representante diplomático de Teerã estava acompanhado do primeiro-secretário da embaixada, Mehdi A. M. Zanjani, que lhe serviu de intérprete.</p>
<p>O Irã, país localizado onde há sete milênios se desenvolveu a civilização persa, é um dos maiores produtores mundiais de petróleo e desde a revolução de 1979, que depôs o xá Reza Pahlavi (aliado dos Estados Unidos), é uma república islâmica, isto é, um Estado guiado estritamente pelos preceitos da religião muçulmana. A lei manda, por exemplo, que sejam amputadas as mãos de quem rouba e os orgãos sexuais de quem comete adultério.</p>
<p><br />O embaixador desse país sempre envolvido em polêmicas falou com exclusividade ao Comércio sobre as relações do Irã com o Brasil, as declarações do papa acerca do Islã, questionou a veracidade do Holocausto e garantiu que seu país quer desenvolver tecnologia nuclear não para criar armas atômicas, mas para preservar o meio ambiente. </p>
<p><strong>Comércio da Franca - Hoje o Iraque está ocupado por tropas dos Estados Unidos, que puseram fim ao regime secular do sunita Saddam Hussein, velho inimigo do Irã. O Iraque está melhor sem Saddam? Os EUA fizeram um bem ao mundo quando tiraram-no do poder?<br />Seyed Jaafar Hashemi</strong> - Durante os últimos meses, várias autoridades iraquianas visitaram nosso país. A nossa relação com o Iraque é antiga, histórica e cultural. Grande parte da população iraquiana é xiita, e por isso tem fortes laços com o Irã. Mesmo no tempo do governo de Saddam, a ligação entre os dois povos era muito forte. Por isso, é natural que qualquer governo que venha a se instalar no Iraque não mude isso. Durante a guerra entre o Irã e o Iraque (1980 - 1988), muitos iraquianos foram para o Irã e receberam abrigo. Já passou muito tempo desde a queda de Saddam (2003), e se tem cada vez mais problemas lá. Estamos convictos de que a maior parte dos episódios de violência praticada no Iraque é cometida pelos próprios americanos, pois dessa maneira eles podem justificar sua presença no país. Nossa posição é de que para haver segurança e estabilidade na região é preciso que os americanos saiam do Iraque. Os EUA já perderam todo seu crédito junto à opinião pública mundial porque já se sabe que as justificativas para a invasão eram mentiras. </p>
<p><strong>Comércio - O presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, diz que o Holocausto durante a Segunda Guerra jamais aconteceu. Segundo ele, isso é uma mentira inventada para justificar a criação do Estado de Israel na Palestina em 1948. Essa é uma opinião pessoal do presidente ou representa a opinião oficial da República Islâmica do Irã?<br />Hashemi</strong> - A primeira coisa que vocês precisam saber é que nós não somos contra os judeus. Em nosso país existe também uma minoria de judeus e há uma convivência pacífica Em segundo lugar, a questão principal não é discutir se existiu ou não o Holocausto. Eu, pessoalmente, visitei na Europa esses lugares que eles dizem ter sido os campos de concentração em muitos países. É inimaginável que nesses espaços tenham sido mortos seis milhões de pessoas. Mas mesmo assim, não vamos discutir se foram mortas tantas pessoas assim ou não. Posso dizer que eles (os judeus sionistas) fizeram essa “propaganda” no mundo inteiro para justificar a criação de um Estado judeu no território palestino. Eles expulsaram pessoas (os árabes palestinos) de suas terras para substituir a população por outro povo, os judeus. Então fizeram uma grande propaganda no mundo inteiro para trazer judeus para aquele território. Nossa pergunta é: se Hitler ou os alemães é que foram responsáveis pela morte daquelas pessoas, por que não concedem eles mesmos uma parte de seu próprio território aos sobreviventes ou descendentes deles para criar um Estado judeu em uma parte da Alemanha? Para vocês entenderem que isso tudo é mentira, eu vou citar outro exemplo. Um dos lemas desses países (ocidentais, aliados de Israel) é “Liberdade”. Por que então esse receio de falar sobre o Holocausto? Eles acham um crime questionar. É porque eles têm medo de que a opinião pública tenha conhecimento do que realmente aconteceu e do que eles fizeram com os palestinos depois para a criação desse Estado. A posição oficial do Irã é de que se vocês (ocidentais) acreditam na democracia, então deixem que os povos dessa região decidam em conjunto sobre o seu destino. A não-aceitação da eleição do Hamas (partido radical palestino que obteve maioria no Parlamento por voto direto em janeiro) por esses países mostra o duplo critério que infelizmente existe no mundo sobre essas questões relativas à democracia. </p>
<p><strong>Comércio - O Irã está retomando seu programa nuclear e enriquecendo urânio. Segundo seu governo, o programa nuclear não tem como objetivo a fabricação de armas. Contudo, tendo o Irã reservas petrolíferas de 89,7 bilhões de barris (uma das maiores do mundo), por que precisaria gerar energia através de fusão ou fissão nuclear?<br />Hashemi</strong> - Você sabe que a energia atômica é uma das energias ecologicamente mais limpas que existem, enquanto a queima de combustíveis fósseis (petróleo, gás e carvão mineral, usados nas termoelétricas) são muito poluentes. Outra questão é que o petróleo do Irã é uma riqueza que queremos preservar o máximo possível para as futuras gerações. Não queremos queimar tudo de uma vez. Outro ponto importante é que o desenvolvimento de tecnologias nucleares não tem aplicações apenas na área de energia. Tem também aplicações nas áreas da saúde, da ciência, da agricultura. O desenvolvimento da tecnologia no nível científico ajuda o desenvolvimento do país. Outra pergunta: Será que os EUA, que usam tecnologia nuclear, também não têm outras fontes de energia? Como todos os outros membros do Tratado de Não-proliferação Nuclear (TNP) e da AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica), nós também temos o direito de desenvolver a tecnologia nuclear com fins pacíficos. O Irã tem uma colaboração ímpar com a AIEA. E os relatórios da Agência mostram que não há nenhum desvio dos objetivos pacíficos do nosso programa nuclear. Vamos continuar a colaborar com a AIEA e a dar garantias de que esclareceremos as dúvidas que existirem. Há dezenas de outros países sobre cujos programas nucleares pairam dúvidas maiores ainda e que não colaboram com a Agência tanto quanto nós. O mundo deveria se preocupar com Israel, que não assinou o TNP e se tornou um verdadeiro armazém desses armamentos. </p>
<p><strong>Comércio - O senhor não acredita que as declarações de Ahmadinejad de que Israel deve ser “varrido do mapa” não justificariam a desconfiança ocidental quanto aos objetivos do programa nuclear de Teerã?<br />Hashemi</strong> - Devo dizer que, em primeiro lugar, a nossa convicção, a nossa religião, o islamismo, não permite que usemos uma arma dessas contra outro povo. Nossa convicção não deixa que façamos isso. Além de nossa religião não permitir, o mundo sabe que não fazemos isso. Durante oito anos de guerra com o Iraque, Saddam lançou armas químicas contra nós, mas nós nunca respondemos com a mesma moeda, nunca usamos armamentos químicos ou qualquer outro material de destruição em massa. E volto a repetir. Nossa religião não permite isso. Não existe essa intenção na nossa doutrina de defesa. Aqueles que colocam essas questões sobre o Irã são justamente os que já usaram armas nucleares. Foram os EUA que jogaram bombas atômicas contra as populações das cidades de Hiroshima e Nagasaki, no Japão.</p>
<p> <strong>Comércio - O governo islâmico do Irã aceitou as explicações do Vaticano sobre as declarações do Papa Bento XVI sobre a Jihad, que enfureceram o mundo islâmico?<br />Hashemi</strong> - Estamos contentes e satisfeitos com as explicações do Vaticano após esses pronunciamentos. Nós acreditamos que tanto o Islã quanto o Cristianismo, enquanto religiões divinas, que têm origens semelhantes e únicas que são as revelações divinas. Nós consideramos aquelas declarações como fora da política real do Vaticano, que defende o diálogo entre as religiões. O espírito do islamismo é esse: o diálogo. E é através do diálogo que nós devemos resolver nossos problemas.</p>
<p><strong> Comércio - De que forma o estreitamento das relações bilaterais entre Brasil e Irã podem ser frutíferas?<br />Hashemi</strong> - As relações diplomáticas entre o nosso país e o vosso datam de há mais de 100 anos. As nossas trocas comerciais são de bilhões de dólares. Na nossa política externa, o Brasil tem um papel muito importante. O Brasil é um dos países mais importantes da América Latina e o Irã é um dos mais importantes países do Oriente Médio, e essa relação pode ser muito frutífera ainda. Para isso, é importante vocês entenderem que nosso país é bem diferente daquilo que eles mostram na televisão. Vocês precisam visitar o Irã.</p>
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