Corrupção. Abro o Aurélio e vejo: “1- Ato ou efeito de corromper; decomposição. 2-Devassidão, depravação. 3- Suborno, peita”. A primeira definição remete mais ao efeito da morte de seres animais ou vegetais. Mortos, deterioram-se, apodrecem. Mas não é, obviamente, isso que vem à mente quando falamos em corrupção no cotidiano, quando o assunto é Política. Muita gente diz que toda a área política é corrupta. Mounier dizia que o poder atrai os corrompidos e corrompe os que atrai. Segundo Lord Acton, “o poder corrompe; o poder absoluto corrompe absolutamente”. Portanto, no uso mais corrente, corrupção é desonestidade, improbidade, ausência de ética. Lembra podridão, deterioração, decomposição, mas da alma, com o corpo humano vivo.
Várias são as formas de corrupção, dentre as quais o recebimento de suborno para deixar de aplicar a lei, como omitir autuação e multa a sonegadores de tributos, receber comissão, porcentagem, em obras cuja licitação foi dirigida a determinada empresa, em verbas liberadas para construção de bens ou realização de serviços públicos, dividir ganhos em obras ou serviços superfaturados, praticar apropriação ou furto de valores pertencentes ao Erário.
A corrupção é o mal maior da Nação. É a nossa danação, nossa expiação. É tanta que pode ser produto de exportação. Possuímo-la nas mais diversas maneiras. Em profusão. É tamanha, é tanto o que consome, que neste país de extensão continental e muito solo fértil pessoas passam fome, enquanto outras mandam dinheiro para paraíso fiscal, em quantidade tal que não gastariam nem vivendo mais de uma geração. A riqueza está concentrada nas mãos de poucos, que têm demais enquanto muitos nada têm. É normal? Claro que não. Por isso há tanta desigualdade social, tanta incivilidade, indigência, tanta criminalidade, violência. O efeito da corrupção é nefasto: enriquecimento ilícito dos corruptos e prejuízos de toda ordem aos destinatários dos bens e/ou serviços públicos que os valores desviados deveriam proporcionar.
É necessário mudar radicalmente. Política de verdade é para pessoas de bem, decentes, que querem servir ao povo em vez de servir-se dele. Para melhorar a Política, hoje associada à corrupção, à fraude, à falta de ética, é necessário mudar os políticos. Não vejo meio de mudar o atual estado de coisas senão com a substituição da maioria dos políticos que aí estão. Não penso que todo político seja corrupto. Conheço muitos que não apresentam o perfil de quem se vende, embora as aparências enganem. Suponho que sejam honestos. Em termos. São honestos porque não se corrompem. Mas nem todos esses aparentemente decentes são briosos o bastante para lutar contra o sistema corrupto que sabem existir. No fundo são coniventes. Não representam ninguém além de si próprios. Fazem apenas o conveniente para manter o “emprego”, que por si só já é muito bem remunerado e cheio de regalias. Só que probidade pela metade não resolve; é como meia verdade. Prostitutas têm mais valor do que políticos corruptos. Elas vendem o corpo; eles, a alma. Elas fazem o que prometem; eles são uma fraude.
É preciso ter caráter. A verdadeira estrutura, a base, o alicerce, da pessoa não são as pernas: é a alma. Se princípios morais e nobreza de espírito são básicos para qualquer pessoa, mais ainda para quem se dispõe a administrar a coisa pública, a fazer leis, a fiscalizar a aplicação da receita dos tributos. Político probo não “dança conforme a música”, não é leniente com o roubo descarado ao Erário; tem o espírito voltado para o altruísmo, luta para uma vida digna para todos os cidadãos, conforme preceitua a Constituição Federal.
Tenho ouvido muita gente dizer que vai anular o voto porque não confia em candidato nenhum. Taí um equívoco. Nunca o País precisou tanto do eleitor. Anular o voto, a meu ver, é duplamente censurável. De um lado, mostra falta de cidadania. De outro lado, revela desamor pelo País e, sobretudo, pelo povo.
Não se pode associar cidadania apenas a direitos. Uma vez que o mundo não se encerra no indivíduo, o verdadeiro cidadão é aquele que participa efetivamente, cumprindo seus deveres com a comunidade. A indecência atingiu um nível intolerável na Política, o País está enlameado e nós precisamos dizer claramente que não compactuamos com isso. O País precisa de comando - administradores e parlamentares - e dentre os que se apresentam algum há que mereça um voto de confiança. Mudar o comando é não só a forma de dizer que se repudia o atual estado de coisas como também de mostrar que se exige decência de quem está no poder. O recado vale para quem sai e para quem entra.
Que legitimidade tem o eleitor para reclamar do País se anula o voto? Votar nulo é dar as costas para o País que é nosso.
Brasileiro, não dê as costas para o Brasil, não anule o voto.
PAULO PEREIRA DA COSTA é promotor de Justiça de Piracicaba
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