O eleitor acordou


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A campanha eleitoral entrou na reta de chegada. Como nas corridas de cavalo, promete uma arrancada final eletrizante. Ninguém tem certeza do que vai acontecer, com exceção dos dois candidatos que polarizam a disputa. Um está convicto de que vencerá no primeiro turno, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O outro, Alckmin, já dá como certo o segundo turno. Ambos não poderiam proceder de outra maneira, para não deixar as respectivas campanhas esmorecerem, mas o fato é que a situação mudou: o eleitor acordou para o debate. Uma das passagens mais interessantes de “O Príncipe”, obra clássica do italiano Nicolau Maquiavel (Editora Martin Claret), é o capítulo em que o florentino fala do poder da sorte sobre os homens e como tratar dessa questão na política. “O mesmo príncipe pode ser um dia bafejado pela boa sorte, e no dia seguinte estar arruinado, sem que aparentemente tenha mudado de caráter, ou qualquer qualidade sua”, destaca. Segundo ele, certas virtudes do príncipe (virtú) podem ser inúteis quando as circunstâncias (fortuna) se alteram profundamente. Ou seja, nem tudo pode depender da sorte, pois esse é o caminho para a ruína. Por isso, Maquiavel afirma que oportunidade (occasione) é a ponte entre a virtú e a fortuna. A volatilidade do momento eleitoral é dada pelo interesse de um contingente de mais de 125 milhões de eleitores, a maioria concentrada nas cidades com mais de 100 mil habitantes, que agora começa a acompanhar o debate eleitoral. O ponto de desequilíbrio é o escândalo protagonizado por dirigentes do PT responsáveis pela coordenação da campanha de Lula, flagrados comprando um dossiê contra o candidato do PSDB ao governo de São Paulo, o ex-prefeito José Serra. O fato teve efeito catalisador junto à opinião pública, estabelecendo uma ligação imediata entre o novo episódio e todos os escândalos envolvendo o governo de Lula, que aparentemente estavam neutralizados. A questão é saber até que ponto essa questão vai contaminar a maioria dos eleitores. Até então, a campanha vinha sendo balizada pelo desempenho do governo na economia e nas políticas de compensação social. O presidente Lula confrontou com sucesso os indicadores de sua administração com os do governo de Fernando Henrique Cardoso, que presidiu o país por dois mandatos (oito anos). A retórica petista de um governo dos pobres contra as elites deixou a oposição na defensiva e garantiu uma liderança folgada para o presidente Lula durante quase todo o primeiro turno. O novo escândalo, porém, deslocou o eixo do debate eleitoral. O tema mais desfavorável ao governo, a questão ética, despertou parcelas do eleitorado que pareciam anestesiadas em relação ao desempenho dos petistas nessa área. Como nem só de pão vive o homem – principalmente as parcelas da sociedade que têm onde morar, o que comer e como se vestir –, principalmente nos grandes centros urbanos, a candidatura do presidente Lula acusou o golpe, revelando fraquezas. A campanha tucana parecia condenada à estagnação, ao desânimo e às desavenças internas, mas Alckmin foi beneficiado pela inacreditável trapalhada dos petistas. A competitividade da candidatura tucana renasceu das cinzas. A decisão do ministro do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) Marcelo Ribeiro, que negou pedido de direito de resposta feito pela campanha de Lula contra Alckmin, que havia ligado Lula ao escândalo, abriu uma janela de oportunidade para o tucano. Pela primeira vez, o confronto no plano ético chega ao horário eleitoral e pode decidir a eleição. Alckmin já mudou o eixo de sua campanha em função das circunstâncias; o presidente Lula, ainda não. LUIZ CARLOS AZEDO é jornalista

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