Padre e artista


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<p>Na última Festa da Integração, um padre virou o centro das atenções ao transformar uma missa em um grande evento. Ao final da celebração, ele apresentou o número circense chamado Tábua da Morte, no qual atira facas em volta de uma pessoa. </p> <p><br />Ao mesmo tempo que choca, o número leva muita gente à Igreja. No manuseio das facas estava frei Tadeu Luiz Fernandes, da paróquia Santo Antônio, de Aramina, distante 78 quilômetros de Franca. </p> <p><br />Com ascendência ibérica e já tendo morado em diversos países, como Espanha, Itália, Peru, Chile e Bolívia, frei Tadeu é um apaixonado pela causa cigana e pelos povos nômades, como os artistas circenses e os parquistas (aqueles que viajam com parques de diversões). </p> <p><br />Durante seis anos viveu como nômade também, trabalhando em circos. Foi aí que aprendeu a fazer o número das facas. Hoje, é o responsável pela Pastoral dos Nômades de Aramina. </p> <p>Em entrevista ao Comércio da Franca, ele garante que não quer ser visto como uma pessoa exótica, um “bichinho de circo”, como costuma dizer. Para ele, essa é simplesmente uma forma diferente, e eficiente, de evangelizar. Comércio da Franca - Quando e como o senhor começou a fazer o número Tábua da Morte?<br />Frei Tadeu Luiz Fernandes - Eu gosto de desafios. Quando morava em um circo e viajava por outros, fiquei amigo de um equatoriano que fazia a Tábua da Morte (atirador de facas). Ele me chamou para aprender, me ensinou e eu acabei pegando jeito. Treinei um ano e pouco para poder apresentar o número, porque é perigoso. Aí é como andar de bicicleta, você não esquece mais. Só que é preciso treinar bastante. </p> <p><strong>Comércio - E o senhor treina onde e com que freqüência?<br />Frei Tadeu</strong> - Eu não tenho uma freqüência exata de treinamento. Mas faço isso na paróquia de Aramina mesmo. </p> <p><strong>Comércio - O senhor começou a atirar facas antes ou depois de se tornar padre?<br />Frei Tadeu</strong> - Depois que eu me ordenei como padre é que fui para o circo. Morei quase seis anos no circo internacional Medrano, de Frederico Orfei. Lá, eu trabalhava na bilheteria e, aos domingos, rezava missa no picadeiro. Eu fazia dentro do circo, junto aos nômades, tudo que se faz em uma paróquia comum: missas, batizados, casamentos, crisma, confissão. E foi nessa convivência que aprendi alguns números circenses, como a Tábua da Morte. </p> <p><strong>Comércio - Quais são os outros números que o senhor faz?<br />Frei Tadeu</strong> - Lá eu também entrava na jaula dos tigres. Mas esse era um número cômico e os tigres eram mansinhos. A única coisa que eu tive vontade de fazer, mas nunca tive coragem, foi entrar no Globo da Morte. É muito difícil. </p> <p><strong>Comércio - Por quanto tempo o senhor fez esse trabalho nômade?<br />Frei Tadeu</strong> - Eu vivi com os nômades durante cerca de seis anos. Agora eu sou pároco fixo. Mas continuo com o trabalho por meio da Pastoral dos Nômades, que eu coordeno em Aramina. </p> <p><strong>Comércio - O que faz essa pastoral?<br />Frei Tadeu</strong> - É aquela que vai ao encontro dos povos nômades, como os ciganos, os circenses e os parquistas (pessoas que viajam com parques de diversão). A nossa idéia não é interferir nos pilares culturais desses povos, mas evangelizar de forma fraterna, além de formar Líderes Ciganos Católicos. Tanto que para fazer um casamento cigano, por exemplo, a gente precisa manter algumas tradições desse povo. Hoje, estima-se que no Brasil existam mais de 60 circos e parques de grandes dimensões e mais de 400 menores. Dos ciganos, a população ultrapassa a casa dos 800 mil de oito tribos diferentes.</p> <p><strong>Comércio - Aqui na região há ciganos?<br />Frei Tadeu</strong> - A maior concentração cigana do Brasil é desde Campinas até Goiás. Mas a maior parte não é nômade, vive fixa. Por aqui, eles são mais fortes na região de Uberlândia. </p> <p><strong>Comércio - Como é visto esse trabalho dentro da Igreja Católica? Existe preconceito?<br />Frei Tadeu</strong> - Não. A Pastoral dos Nômades tem cerca de 20 anos no Brasil e é apoiada pela CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). A maior dificuldade que temos é que são poucas as pessoas com disponibilidade para fazer esse trabalho. São cerca de 40 no País todo. </p> <p><strong>Comércio - Qual é a razão de um padre fazer números circenses durante algumas celebrações?<br />Frei Tadeu</strong> - Eu uso a arte circense como um chamariz. Teve um santo na Igreja Católica, chamado São João Bosco, que usou a arte para evangelizar. Ele é o padroeiro dos salesianos. Como eu fui aluno salesiano, me inspirei um pouco em São João Bosco. Qual a graça em eu atirar faca, chegar à imprensa e me ver como um bichinho de circo? É um número difícil, tem de ter garra. Então, eu faço um paralelo entre o número difícil e a vida também difícil que vemos aí fora. Isso é interessante e cativa as pessoas. </p> <p><strong>Comércio - O senhor acha que esse trabalho influencia novas vocações?<br />Frei Tadeu</strong> - Eu acho que desperta muito interesse. Daqui a dois anos, por exemplo, tem um frei que vai se ordenar e provavelmente seguir esse caminho. Ele disse que sentiu essa necessidade depois de assistir a uma celebração minha. Isso é muito gratificante. </p> <p><strong>Comércio - Como foi a recepção do povo de Aramina a primeira vez que o viu atirar facas? <br />Frei Tadeu</strong> - Ninguém sabia que eu fazia número circense até que chegou um circo na cidade. Aí eu convidei: “Gente, vai ter um número belíssimo de circo em Aramina”. Na hora da apresentação, a lona estava lotada. De repente, eu, de hábito, apresentei o número Tábua da Morte. As pessoas ficaram um pouco chocadas. Mas depois, nos dias seguintes, a minha igreja encheu. Como tem padre que é surfista, pula de asa-delta, é caminhoneiro, tem padre que atira facas. </p> <p><strong>Comércio - O senhor pensa em voltar à vida nômade?<br />Frei Tadeu</strong> - Eu tenho um sonho de ganhar um trailler e sair por aí, viajando para evangelizar. Mas para isso eu preciso de algum empresário para me patrocinar.</p>

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