O Brasil vive uma crise praticamente invisível na área da Educação. Infelizmente, todas as conquistas sociais e econômicas dos últimos 50 anos não se refletiram no setor, ao contrário do que ocorreu na indústria e na agricultura. A cada dia, fica mais evidente o despreparo e a falta de interesse dos agentes públicos na hora de criar mecanismos de incentivo para a formação de novos profissionais. Ao mesmo tempo, é incrível a maneira como as pessoas dão de ombros para o que ocorre atualmente no sistema de ensino público. Afinal, como se admite que um aluno deixe o Ensino Fundamental sem ao menos uma avaliação em sua vida escolar?
Infelizmente, hoje o acesso ao ensino de qualidade é restrito a quem tem dinheiro. São esses alunos que no futuro irão abocanhar as melhores vagas e oportunidades de emprego, aumentando a já grandiosa desigualdade que impera no país. O quadro atual só vai mudar quando os governantes priorizarem a formação de pessoal qualificado e oferecerem as mesmas condições de trabalho do setor privado. Isso não é impossível. Na Saúde, temos exemplos significativos de hospitais públicos de qualidade, que funcionam como verdadeiras escolas de medicina. Em uma reforma séria, os profissionais aposentados poderiam contribuir, e muito, com a nova política de valorização e formação dos professores.
É importante destacar que a culpa pela baixa qualidade do ensino em sala de aula não é só do professor. Ele é apenas uma peça dessa engrenagem. Na maioria das vezes, o profissional enfrenta jornada dupla de trabalho e sequer foi preparado adequadamente para lidar com crianças e adolescentes. Sem contar que recebe uma remuneração indigna para a responsabilidade que tem em mãos.
Se você não oferece um bom salário para um profissional, provavelmente vai preencher a vaga, seja ela qual for, com gente de menor qualificação. Não tem segredo. O Brasil possui atualmente mais de 2,5 milhões de professores, dos quais 80% se encontram em escolas públicas. Uma massa que ganha muito mal e não tem o respeito dos próprios alunos dentro da sala de aula.
Quem já passou dos 50 anos lembra bem da época em que estudar em uma escola pública era certeza de boa formação. Mais que isso, permitia que os mais pobres concorressem com os mais abastados em condições de igualdade. Ainda é comum ouvirmos histórias de pessoas que nasceram na roça e fizeram a vida na cidade, com formação em uma faculdade decente. Todos falam com orgulho daquela época, quando estudar em escola particular era até vergonhoso. Os professores eram respeitados, bem remunerados e orgulhavam-se da carreira. Hoje essas pessoas estão em casa e tenho certeza que não se privariam de passar o conhecimento que receberam adiante. Para colocar isso em prática, bastaria criatividade e vontade das autoridades. Sonhar não custa nada. Precisamos retomar a qualidade na escola pública e dos cursos profissionalizantes.
MILTON DALLARI é consultor empresarial, engenheiro, advogado e presidente da Associação dos Aposentados da Fundação Cesp
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.