Aline sorriu. Havia entendido o sentido do conto - o alferes perdera a humanidade e substituíra sua alma pela condição adquirida que lhe dera fama e prestígio. Acabávamos de ler o conto O Espelho de Machado de Assis e os jovens participantes do Círculo de Leitura, todos estudantes, na faixa de 12 a 17 anos, de escolas públicas de São Bernardo, pareciam entusiasmados com a noção recém-adquirida de identidade - que nos faz o que somos.
Lemos então o outro espelho, o que Guimarães Rosa escrevera, inspirado no primeiro, e a discussão se tornou ainda mais intensa, em torno de raízes e de como nos constituímos em seres em transformação. Felizes, levaram seus livros para casa e alguns afirmaram que iriam reler os contos com novos olhos.
Que fascínio o livro exercia sobre eles! Um dos jovens constatou que sua edição de Primeiras Estórias continha desenhos ou símbolos no final, sintetizando cada conto. Outro, diligentemente, acrescentava comentários ao lado das frases que discutíamos. Estavam se tornando leitores - leitores de livros!
Estes jovens têm, em suas escolas, acesso à Internet. A Aline tem mesmo um computador em casa, prêmio recebido em um concurso de redação. Mas os olhos brilham a cada vez que recebem um livro.
Senti a mesma coisa ao inaugurar, no programa São Paulo: Um Estado de Leitores, cada uma das mais de 120 bibliotecas que conseguimos implantar em favelas, hospitais, estações de metrô, conjuntos habitacionais e em municípios que ainda não tinham uma biblioteca pública. As crianças e jovens corriam para as estantes e retiravam com pressa um livro da série do Harry Potter, edições repletas de imagens para a infância ou sisudos livros sobre política.
Poderíamos imaginar que isso se passa apenas com jovens destituídos de recursos e com acesso limitado à Tecnologia da Informação. Não creio. Países com maior inclusão digital que o nosso têm apresentado índices de leitura muito superiores, por contar com famílias leitoras (fenômeno raro no Brasil mesmo nas elites) e programas escolares competentes de fomento à leitura por prazer. Infelizmente, o brasileiro lê, em média 1,8 livro por ano (contra oito na França, onde computadores estão presentes em cada domicílio) e 60% dos professores do Ensino Básico não têm o hábito de ler.
Isso não quer dizer que o livro esteja condenado a não ter adeptos no futuro. A adoção de políticas públicas sérias de fomento à leitura, junto com um processo de comunicação das entidades e empresas que atuam com livros, pode ajudar a mudar hábitos e nos trazer os benefícios de acesso mais universalizado às publicações. Não é importante aqui que as pessoas comprem os livros e assim fomentem o mercado editorial. A freqüência a bibliotecas públicas com bons acervos é um costume que merece ser mais disseminado.
Podemos ter no futuro livros de outros materiais. Afinal, já tivemos rolos de pele de carneiro, tábuas de madeira ou blocos de argila. Mas não creio que telas substituam livros. Obras editoriais são como objetos de arte. Os que os apreciam gostam de tocá-los, sentir-lhes o cheiro, comparar edições, levar para encontros pessoais (e não apenas virtuais) com amigos. Além disso, ler para as crianças à noite na cama, folheando e mostrando ilustrações, ou mesmo carregar um volume para a praia, parecem tarefas difíceis com computadores.
O livro será superado historicamente? Espero que não no meu período de vida. Ainda pretendo aproveitar muito minha biblioteca pessoal, viajar com obras técnicas e literárias, cavoucar sebos atrás de raridades e, sobretudo, compartilhar com outros o prazer da leitura em voz alta dos livros que mais me encantam.
CLAUDIA COSTIN é vice-presidente da Fundação Victor Civita. Foi ministra da Administração Federal e Reforma do Estado e secretária de Cultura de São Paulo
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.