Há cinco anos presenciávamos perplexos ruírem os símbolos mais notórios do império que ainda estava se acostumando à amplitude mundial. Ao horror da destruição e da morte seguiu-se, nem bem assentada a poeira, uma constatação que estremeceu a consciência dos americanos: a maior potência bélica que o mundo já conhecera em toda a História, que nunca sofrera um ataque no seu território, que vencera a corrida nuclear da era bipolar, com um orçamento para a defesa maior que a dos seus principais seguidores somados, era vulnerável à arcaica tecnologia da auto-imolação.
À consciência da vulnerabilidade seguiu-se, de imediato e como conseqüência, o sentimento do desamparo no cidadão norte-americano. De repente, aquela bandeira, que fulgurava como um escudo protetor contra as potências inimigas e em defesa da democracia e da liberdade, agora torcia suas barras em círculos concêntricos como um gigantesco alvo no centro do qual, sozinho e indefenso, se encontrava o cidadão. A identificação nacional que até agora significava sua proteção agora o colocava no grupo de risco da próxima vitima. O pânico bateu no tecido social e afrouxou sua trama.
Bush tinha ante si dois problemas. Por um lado, a manifestação inequívoca de um inimigo impiedoso, implacável, contundente, mas também difuso, invisível e universal, e para o qual não tinha resposta nem preparo; por outro, uma sociedade aterrorizada e desamparada, aturdida ainda entre o orgulho de pertencer à potência mais poderosa da história e o pavoroso perigo que isso significava. Vendo os votos escorrer entre os seus dedos, Bush fechou seu punho e bateu na mesa: “Guerra!” foi o grito. Mas contra quem? Não importa, o império não pode permanecer inerte ante uma agressão semelhante. Sua resposta para os inimigos é a projeção da sua potência e o impacto da sua tecnologia. A bandeira devia novamente tremular orgulhosamente protetora. Quem se mantenha à sua sombra estará protegido, quem estiver fora será considerado inimigo e combatido à morte. O discurso do presidente, também terrorista, teve um efeito imediato: por um lado, a tensão do tecido social foi restabelecida e os votos mantidos; por outro, o mundo alinhou-se e ninguém queria ser considerado o “outro”. Fidel Castro ofereceu seus médicos ao eterno inimigo e o Arafat ofereceu seu próprio sangue palestino para as vítimas do atentado. O mundo foi maniqueizado entre os bons e ou maus, e aquele inimigo invisível, difuso foi condensado no Afeganistão, país que poderiam transformar na tranqüila vitrine onde exibir, a eventuais compradores, as mais modernas tecnologias da morte sem riscos. Logo veio o Iraque, outro integrante do ‘eixo do mal’, e quando de ‘mal’ se trata não institucionalização que freie ao campeão do “bem”. Lá foram sem esperar a aprovação da ONU que permaneceu muda, e não podia ser de outro modo: manifestando-se, não podia menos que condenar a ação da hiperpotência, se o fizesse, assinaria seu certificado de impotência. Preferiu calar, e quem cala consente, mais uma vez a arbitrariedade internacional.
Desde então há uma declarada “Guerra” contra o Terrorismo, um apocalipse que elimina civilizações milenares, desmantela culturas ancestrais, desorganiza administrações regionais, atropela direitos humanos, impõe autoritariamente a democracia, rasga tratados e acordos internacionais, prostra as organizações internacionais e desperta um ódio cada vez mais feroz que engrossa e fortalece as fileiras do terrorismo.
Ainda ecoam arrogantes as bravatas de Rumsfeld quando afirmara que a águia blindada americana poderia aninhar vitoriosa em três cenários bélicos diferentes e simultaneamente. Hoje vemos essa ave sacudir suas empoeiradas asas com dificuldade para fugir espantada do deserto que se transformou em pântano. Por entre os infinitos grãos da areia, o Iraque mostra uma face indignada e uma capacidade de resistência que o invasor não esperava.
Passaram-se cinco anos de uma guerra inútil e inglória. Afeganistão pagou com muitas vidas e com a desordem da sua economia a invasão americana democratizante. Agora o país encontra-se às portas de uma crise humanitária de grandes proporções e os invasores enfrentam uma resistência cada vez mais encarniçada. A sofisticada e étnica divisão do poder no Iraque parece demasiado complexa para a simplificação política com que os americanos pretendem democratizar um país que atribui, não sem razão, a origem de todos os males aos americanos.
Se alguma coisa conseguiu se democratizar com esta guerra, foi a tecnologia terrorista. Os terroristas aumentaram em número e em periculosidade e sua expansão não reconhece fronteira. Hoje o mundo é politicamente mais incerto, existencialmente mais inseguro e institucionalmente mais débil. A hiperpotência, que parecia se erguer solitária na ordenação mundial do pós-Guerra Fria, perdeu-se na arrogância e prepotência e transformou o anarquismo, típico do ambiente internacional, num caos arbitrário e violento. Talvez nunca o vôo da Águia tenha sido tão universal e solitário; sua aproximação ameaça, sua companhia compromete.
A atividade terrorista é condenável, seja ela executada por um grupo, um individuo ou um Estado. O terrorismo é incompatível com a política. Por isso, politicamente ele é condenável, ele pode e deve ser combatido, mas nunca com uma “guerra”, se esta deve significar algo mais que um mero eufemismo.
HÉCTOR LUIS SAINT-PIERRE é chefe do Decspi/FDHSS Unesp-Franca; Coordenador da área “Paz, Defesa e Segurança Internacional” do Programa Interinstitucional Unesp/Unicamp/PUC-SP de Pós-Graduação em Relações Internacionais “San Tiago Dantas”; coordenador do Grupo de Estudos da Defesa e Segurança Internacional (Gedes). Autor do livro: A Política Armada, Editora Unesp, 2001.
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