Vamos contar um pouquinho de uma história e você, cara leitora, reflita em que posição está nessa “odisséia”.
Penélope era uma mulher apaixonada e fiel ao seu marido. Enquanto Ulisses - seu esposo - guerreava em altos mares, seu pai sugeriu que ela se casasse novamente. Ela, portanto, decidiu que o esperaria até a volta do marido. Diante da insistência de seu pai, para não desagradá-lo, Penélope resolveu aceitar com uma condição: casaria somente após terminar de tecer uma colcha.
E assim fez... de manhã aos olhos de todos, Penélope tecia a colcha; de noite, ela a desmanchava, e foi assim até uma de suas servas descobrir a mentira... mas aí já é outra história.
Podemos olhar para este conto de vários lugares; sob vários aspectos. O que escolhemos, porém, para esta analogia é o da mulher contemporânea. A Penélope atual não espera! Ela está também guerreando em altos-mares... Essa discussão se faz importante, pois houve através da evolução dos tempos novas configurações de papéis. A mulher está hoje bem menos sonhadora e muito mais realizadora... Com a revolução industrial e a entrada da mulher no mercado de trabalho, essa “Penélope” deixa de esperar passivamente por aquele que guerreava e desbravava o mundo para, agora, de forma ativa, lutar e descobrir por conta própria seus próprios horizontes, seu próprio mundo e porque não, sua felicidade.
Ainda pensando nesse novo papel que nossa Penélope assumiu, o que se faz imprescindível pensarmos é a nova cobrança que essa “atividade” gerou. Se a mulher hoje está “guerreando” junto com seu “Ulisses”, quem está tecendo a “colcha”? Quem está cuidando da prole? Quem está cuidando do lar?
Eis a grande questão, a mulher 2006 não deixou de lado seu arcaico papel, ela adicionou mais um à sua vida. Há, portanto, um preço a ser pago; os “guerreiros” não estão habituados a esta parceria; portanto seu desempenho (da guerreira) tem que ser “perfeito”... seja no que faça ou seja. A nossa Penélope tem que ter a mesma destreza para manejar a espada e tocar a harpa.
A mulher tem que lutar, mas ao mesmo tempo cuidar-se para não se tornar um soldado; não pode perder sua feminilidade, pois, além de guerrear, cuidar da prole, ainda tem que se manter atraente para seu “Ulisses”.
O papel de cuidadora ainda está intimamente vinculado a ela. Existe o medo e a culpa: “enquanto estou desbravando altos-mares, quem cuidará do meu filho, do meu lar, de mim?”
No livro Vivo Sempre Preocupada: o dilema em conciliar (sem culpa) o trabalho e a maternidade, de Cléria Bueno - psicóloga e escritora francana - há uma extensa pesquisa e discussão sobre o dilema enfrentado pela mulher contemporânea, especificamente na cidade de Franca. Sobre essa mulher ela relata: “Cremos, todavia que, uma mudança de postura em relação à culpa, à ambivalência, em relação aos papéis sociais tradicionais em choque com sua saída para o mercado de trabalho, levará ainda algum tempo.
Quando admitimos a necessidade de uma mudança de postura da sociedade, perante à mulher, não a penalizando quando age como ser de espécie ao ser mãe, não justificando menores ganhos por considerá-la frágil, dando-lhe as mesmas chances de promoção social, falamos principalmente de uma mudança de atitude da própria mulher”.
Desta forma, percebemos que um primeiro passo a ser dado está nas mãos da própria mulher. Aprender a lidar com essa culpa, desbravar seus próprios horizontes e, principalmente, ver-se merecedora sim, de um lugar nesta “odisséia”.
JANAÍNA LEÃO e ANA LÚCIA TAVARES são psicólogas
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