Aposta na educação


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A professora de português Ana Maria Leite passou o mês de julho na Espanha para um curso intensivo de língua e cultura espanholas. Em 2007, ela implantará um projeto de valorização do patrimônio na Escola Esta
A professora de português Ana Maria Leite passou o mês de julho na Espanha para um curso intensivo de língua e cultura espanholas. Em 2007, ela implantará um projeto de valorização do patrimônio na Escola Esta
<p>A professora Ana Maria Paulino Comparini Leite, 42, enfrentou 1.200 concorrentes e conquistou uma vaga para um curso de verão de Língua Espanhola. Ela integrou o grupo de 29 professores da rede pública do Estado de São Paulo contemplados com o programa Ponte Cultural do Santander Banespa neste ano.</p> <p><br />Ana Maria passou o mês de julho na Espanha, onde teve contato com ingleses, italianos, franceses, ingleses, espanhóis e outros povos, durante aulas na renomada Universidade de Salamanca. “Foi uma experiência impagável.”<br />Formada em Tradução pela Unesp (Universidade Estadual Paulista) de São José do Rio Preto, com curso de Pedagogia e mestrado, a professora chegou a vender roupas, produziu um jornal de classificados e trabalhou como tradutora, mas a arte de ensinar falou mais alto. </p> <p><br />Ela leciona há nove anos na rede estadual. Hoje, ensina mais de 400 alunos na Escola Estadual “Mário D’Elia”, Unifran (Universidade de Franca) e Fundação Educacional de Ituverava. “Gosto da profissão, de trabalhar com os alunos, de ensinar. Nesse relacionamento, aprendo também. É uma troca. Os meninos estão na vida, são ativos e muito me ensinam.” </p> <p><br />Ana Maria reconhece as dificuldades do sistema de ensino público, mas acredita na educação. “Sou fruto da escola pública e aposto no ensino. Creio que se as pessoas quiserem, e se comprometerem, fazem acontecer. O professor que domina conteúdo e estiver preparado, domina a sala.”</p> <p><strong> Comércio da Franca - Como foi a experiência na Espanha?<br />Ana Maria Leite</strong> - Foi uma experiência intensa. Estudamos a língua e cultura espanholas, fizemos provas e apresentamos trabalhos, com aulas das 9 horas às 14h20, sem intervalo. Isso nos permitiu aproveitar metodologias e didáticas diferentes. Além de aprendermos como alunos sobre a cultura e a língua, absorvemos mais sobre a relação professor-aluno, pois estávamos lá como educadores. </p> <p><strong>Comércio - Que metodologias poderá aplicar em sala de aula?<br />Ana Maria</strong> - Todos os participantes montaram um projeto. Desenvolvi uma proposta com uma professora de Limeira, com a qual acompanhei o curso inteiro em Salamanca. A proposta é um trabalho interdisciplinar que desenvolverei aqui e ela em sua cidade. Em Franca, alunos da 8ª série ou do 1º colegial poderão, em 2007, integrar o projeto, que incentivará a valorização da língua e cultura do País a partir da integração da geografia, história e matemática, com gráficos, coordenadas, censos, ciências... Tal visão integrada permitirá ao aluno enxergar e valorizar os patrimônios cultural, artístico e turístico da cidade em português, partindo do que aprendi lá ao conviver com ingleses, suecos, franceses, italianos e outros povos e culturas. Quando tudo estiver trabalhado, os meninos se corresponderão por e-mail e postais com os estudantes de Limeira. A partir dessas informações, vamos criar uma página na internet para intercâmbio das informações. Estamos definindo as metodologias e não sei se será um curso à parte. </p> <p><strong>Comércio - Que aspectos do País mais lhe chamaram atenção?<br />Ana Maria</strong> - Educação no trânsito. Foi algo que aprendi e passei a usar na minha vida. Nunca vi um povo tão paciente, disciplinado e respeitador. Ao atravessar a rua, era só colocar o pé na rua que os carros paravam. Ninguém dá ‘jeitinho’. Os guias nos explicaram que as multas são muito pesadas aos motoristas e pedestres que desrespeitam a lei. Os ônibus também são muito bons, seguros, práticos, limpos e funcionam. Outra questão que me deixou muito admirada é a religiosidade no País. A Espanha é católica, mas, nas igrejas, não víamos movimento ou celebrações. A professora de Cultura e os guias nos disseram que não poderíamos misturar as coisas. Eles disseram que são católicos por tradição, é um rótulo, mas não são praticantes. Achei isso muito forte. </p> <p><strong>Comércio - E a jornada de trabalho?<br />Ana Maria</strong> - É verdade. Ao chegarmos, eles comentaram que a gente pensa que eles fazem a sesta o dia inteiro, mas isso é uma questão de jornada. Eles começam às 9 horas e param às 14 horas, depois voltam às 17 horas e vão até 20, 21 horas para o trabalho. Nestas três horas de intervalo, eles não colocam pijama e dormem, mas cuidam dos afazeres da casa, resolvem problemas. Praticamente todas as lojas fecham. Apenas grandes redes, como o Carrefour, ficam abertas. </p> <p><strong>Comércio - Quais as principais diferenças entre o ensino da Europa e o do Brasil?<br />Ana Maria</strong> - A escola regular estava em férias e não pudemos conhecê-la, mas tivemos uma palestra sobre ensino. A palestrante nos colocou que as angústias, postura do professor e comportamento de alunos em sala de aula são iguais em todo lugar. Hoje, os estudantes estão muito dispersos, pois o fluxo de informação é rápido demais. Essa é uma questão mundial, fruto da globalização. No ambiente universitário, a disciplina é alta: não podíamos comer e beber em sala de aula, nem estabelecer conversas paralelas, não era autorizado chegar depois do horário ou sair antes.<br /></p> <p><strong>Comércio - No Brasil, o que muda no ensino na rede privada em relação ao da rede pública?<br />Ana Maria</strong> - A carga horária e currículo são diferenciados. No Estado, como professora de língua portuguesa, trabalho gramática, literatura e tradução de texto; na rede particular, há um professor para cada frente, especializado na área. São oportunidades que a rede estadual ainda não tem condições de oferecer. Acredito que o comprometimento e a disposição do professor contam muito, pois o aluno é igual no ensino particular e no público. O acesso a informações e meios de obtê-la também é diferente, por isso incentivamos os meninos a pesquisarem em bibliotecas e universidades. É buscar meios para atender a deficiências. Na minha posição de professora, não posso me queixar dos meus alunos. Eles me dão resposta. </p> <p><strong>Comércio - Em abril, o jornal publicou reportagem sobre o aluno TJB, de 14 anos, aluno da 7ª série da “Júlio D’Elia”. Ele não sabe ler nem escrever. Qual a opinião da senhora sobre o caso?<br />Ana Maria</strong> - Não conheço o histórico do estudante, mas acho que pode ter havido falhas da família, do sistema e da escola. Às vezes, ele foi tarde para a escola e não é acompanhado pelos pais. A própria estrutura escolar pode ter falhado por não perceber que, ao passar de ano, ele não estava apto. A progressão continuada entende que o aluno dá continuidade ao seu aprendizado, mas se chegar um momento em que precisa ser retido, ele o é. Não sei onde aconteceu. Só acho que não podemos culpar o sistema. Há pessoas boas e outras descompromissadas, como em qualquer profissão. Há advogados bons e uma Adriana Telini que se junta a bandidos. </p> <p><strong>Comércio - O ‘Comércio’ publicou reportagens sobre tráfico de drogas nas escolas. O que a senhora pensa sobre o assunto?<br />Ana Maria</strong> - A droga está em todo lugar. Isso é ponto pacífico. Como na porta da escola, está na porta do clube, do show, dentro de casa. A escola é ponto de encontro de jovens. A droga está no meio dos jovens? Infelizmente está. A situação é de que está tudo muito liberal. Não podemos nos assustar com isso, mas temos de orientar e alertar os jovens para o perigo delas. </p> <p><strong>Comércio - Nesses dez anos, o que mudou na educação?<br />Ana Maria</strong> - Sou fruto da rede pública e acredito nela. Desde 1997, quando comecei a dar aula, o Estado tem investido no ensino. Se o professor for comprometido, ele faz a diferença. Tudo que você passa para o outro pode não modificá-lo naquele momento, mas você sabe que além do que a pessoa sabia, você ensinou mais alguma coisa. Então já modificou. Conseguir modificar o pensamento de uma pessoa é muito sério e esse é o papel do professor. Se estiver comprometido, vai ajudar. Se o trabalho valer a pena para um aluno, já será um fruto. É muito fácil pensar “eu já sou efetivo, vou receber o salário no fim do mês, então deixa os meninos fazerem o que quiserem na aula e fica tudo certo”. Não pode ser assim. Tem que ter compromisso. </p> <p><strong>Comércio - A senhora acha que os professores são mal remunerados?<br />Ana Maria</strong> - Acho que podíamos ganhar mais. Na década de 50, o sálario do professor se equiparava ao do juiz. Hoje, o juiz ganha R$ 20 mil e nós R$ 1 mil. A profissão foi muito desvalorizada. Houve um descaso e parece que, agora, o pensamento está mudando. O professor é a base de tudo, por isso, deveria ser melhor valorizado. Por outro lado, se compararmos com outras profissões de meio período no Brasil, ganhamos dentro da média. Por que não investir na educação, a base e prioridade num País? </p>

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