Enquanto empurra enormes blocos de pedra para a construção de pirâmides pelo deserto, um egípcio vira para o colega e fala “E aí, vamos tomar uma depois do trampo?”. A frase é repetida em diversas línguas em diversos cantos do mundo ao dos longo séculos. Surgida há mais de 6 mil anos, a cerveja só chegou ao Brasil em 1808, quando a família real portuguesa mudou-se para o País, fugindo das tropas napoleônicas. Antes a Coroa proibia a cerveja no Brasil temendo que essa bebida barata e fácil de preparar se tornasse popular demais aqui, prejudicando as vendas de vinho do Porto e os negócios portugueses. Mas Dom João VI não dispensava uma boa “loira” e acabou autorizando seu fabrico quando veio morar aqui.
Mas por que essa bebida à base de cereais (geralmente cevada), fermentada, é tão cultuada a ponto de conquistar o velho rei e o País inteiro? Por que as pessoas gostam tanto de cerveja? De acordo com o toxicologista Élcio Rivelino Rodrigues, coordenador do curso de farmácia da Unifran “O efeito prazeroso para os não-dependentes do álcool se dá principalmente pelo ritual, ou seja, a associação do beber a cerveja com o ambiente, às pessoas e às relações estabelecidas enquanto se bebe. Afinal, beber uma cervejinha é algo associado a outros prazeres como a reunião com amigos, a diversão noturna ou àquela bela churrascada.”
Rodrigues explica que o efeito da cerveja em si no sistema nervoso é semelhante ao de qualquer outra bebida alcoólica. Ele diz que o álcool age em regiões do cérebro responsáveis pelos nossos “freios”comportamentais. A falta desses “freios” pode parecer legal no princípio, quando o sujeito começa a achar graça de tudo, os caras a confessar sua amizade (“Gara, zê zabe ki eu gosto de vozê bra Garamba”) as meninas a dançar em cima do freezer, mas pode se tornar um problema quando o beberrão começa a falar bobagem, ligar para a ex-namorada, arrumar briga, dirigir sem prudência. Em níveis extremos, o cidadão pode sofrer o desgosto de provar na própria carne o significado do ditado: “O de bêbado não tem dono”.
O cientista alerta ainda que, conforme aumenta a concentração do álcool no sangue, pode-se verificar perda na precisão dos movimentos, descoordenação motora e emocional, confusão mental, coma e morte. Ingerida com moderação, no entanto, a cerveja pode ter ação benígna sobre o organismo. O principal beneficiado é sistema cardiovascular. Entre os benefícios estão a regulação dos níveis de colesterol e glicose no sangue.
O cervejeiro gaúcho Gustavo Dal Ri, 36, aprendeu a fazer cerveja ao 12 anos com uma vizinha alemã. Hoje, ele é dono da cervejaria Schmitt (www.schmittbier.com.br), que produz diversos tipos de cervejas especiais. Dal Ri defende a cerveja com unhas e dentes. “Um copo de cerveja tem bem menos calorias que um copo de suco de laranja ou refrigerante. Só ganha barriguinha quem come muito enquanto bebe ou bebe demais”, diz. Ele ainda explica que o lúpulo, um dos principais ingredientes da cerveja, contém uma substância chamada xantohumol que é anti-cancerígeno. Além disso, a ceva é rica em vitaminas do complexo B, e seu efeito diurético ajuda a limpar o organismo de radicais livres.
RESSACA
A efeito diurético (vontade de fazer xixi liberando mais água do que se ingeriu) pode ser bom para limpar o organismo, mas se extrapolado pode causar a terrível ressaca. “A ressaca é o termo popular para um conjunto típico de efeitos após decorridas algumas horas da ingestão do álcool, como dor de cabeça, boca seca e estômago embrulhando ou dolorido. O efeito diurético do álcool promove desidratação do corpo daí a busca pela ingestão de água. Além disso, o álcool tem ação irritante sobre a mucosa gástrica”, explica Rodrigues. A melhor maneira de diminuir a ressaca caso se venha a passar dos limites é beber muita água antes do aparecimento dos sintomas (chegando da balada, beba uns três ou quatro copos de água, de preferência com açúcar) e estar alimentado durante a ingestão da bebida alcoólica.
Cerveja é muito bom. Mas também é bom não abusar.
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