Ao referir-se aos estudantes que moram em repúblicas, e que com freqüência perturbam o sossego dos vizinhos com festas noite adentro, fato comum em cidades que possuem universidades, as pessoas tendem a encarar o problema com alguma benevolência, como um mal menor, uma coisa que faz parte da juventude e que por isso deve ser tolerada. Confesso que em princípio também pensava assim. Mas mudei de idéia. Já há algum tempo, numa audiência do Juizado Especial Criminal, veio-me às mãos um caso do gênero. Os moradores de uma república fizeram uma festa que varou a madrugada, em dia de semana, impedindo os vizinhos de desfrutar do merecido sossego, a ponto de levá-los a registrar o fato no Distrito Policial da área, amparados pelo artigo 42 da Lei das Contravenções Penais. À audiência no fórum compareceu o representante da república, um rapaz de cerca de vinte anos.
Perguntei-lhe de início se ele era de Piracicaba, e ele disse que não e que apenas estudava na Esalq. Indaguei-lhe se a faculdade que cursa é paga ou de graça; É USP, de graça, respondeu. Questionei-lhe se trabalha para arcar com os custos do aluguel da república, comida, etc., e ele disse que não e que seu pai banca as despesas.
Continuando a conversa, indaguei ao rapaz se ele gostou da cidade, e ele disse que sim. Perguntei-lhe se havia sido bem recebido e se era bem tratado; como resposta, novo “sim”. Após tais esclarecimentos, disse-lhe eu: “sendo assim, o senhor e seus colegas de república deviam comportar-se melhor. Os seus vizinhos não têm a vida fácil de vocês, eles não têm o papai para bancar seus gastos, eles necessitam dormir à noite porque no outro dia precisam estar acordados para trabalhar e ganhar o pão; eles possuem o direito ao repouso noturno, e os senhores devem respeitar esse direito. Quando quiserem fazer festa, aluguem uma chácara ou um local mais afastado, onde possam divertir-se sem perturbar o sossego alheio”. Feitas tais considerações, propus o pagamento de uma multa para arquivar o processo, e ele aceitou.
A respeito das repúblicas, cabem algumas ponderações. Seus moradores, em regra, vêm de fora. São visitantes. Estão de passagem, pois terminado o curso retornam às respectivas cidades de origem. Grande parte estuda em universidade pública, que é de graça. Na verdade, é de graça para eles, mas não para nós contribuintes. Os outros, que fazem cursos pagos, têm a retaguarda paterna para pagar a escola e as outras despesas.
Ora, se são visitantes, devem comportar-se como tal, com decência, educação, respeito às normas da casa, sendo gentis com as pessoas, demonstrando gratidão por serem bem recebidos. O que se vê, todavia, é o contrário. Eles estão pouco ligando para os anfitriões. Com aquela coisa boba chamada trote, provocam caos abordando as pessoas nos veículos em semáforos. E fazem isso para pedir dinheiro, que depois usam para fazer festas, as festas que tiram o sossego dos vizinhos. Além disso, desrespeitam regras de trânsito, trafegam em alta velocidade, deixam os carros sobre as calçadas, fazem tumultos; agem, enfim, como se fossem donos da cidade, como se estivessem em terra de ninguém.
A juventude sempre teve a idéia de que pode mudar o mundo. De fato, num país tomado pela corrupção, pela violência, pela incivilidade, pelo individualismo, etc., em que os velhos tortos já não endireitam mais, a esperança precisa recair nos jovens.
Mais ainda nos universitários, que têm o privilégio do ensino superior, depois de adquirir bom ensino básico, e não padecem de problemas que afligem a maior parte do povo. Mas a maioria deles acaba representando um papel que não é o seu. Universitários deveriam ter conduta exemplar, com sua cultura, seu conhecimento. A boa formação não é algo que deva restringir-se ao universo íntimo, à pura satisfação do interesse individual.
Não. A verdadeira cultura, antes de tudo, revela-se nos modos simples, no respeito, na educação, em gestos que fazem melhor o mundo em volta. Sai da órbita individual e reflete no coletivo. Privilegiados não podem simplesmente pisar em cima de regras básicas de convivência e dar as costas para os problemas comuns.
Estudantes fazem parte da comunidade, mesmo que estejam só de passagem, e como tal devem nortear sua conduta. Não podem fugir da sua responsabilidade social. A vontade de mudar o mundo precisa antes ceder à necessidade de mudar a si mesmos. Respeitar o sossego alheio é um bom começo.
PAULO PEREIRA DA COSTA é promotor de Justiça de Piracicaba
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.