Hora de pensar grande


| Tempo de leitura: 7 min
O técnico da equipe sub-20, Jordan de Freitas, durante treino coletivo no Estádio Lanchão. Time foi montado com 25 jogadores e ele disse ter acertado em 60% ou 70% em relação à escolha dos atletas
O técnico da equipe sub-20, Jordan de Freitas, durante treino coletivo no Estádio Lanchão. Time foi montado com 25 jogadores e ele disse ter acertado em 60% ou 70% em relação à escolha dos atletas
<p>Superar dificuldades no futebol é o que o atual treinador do sub-20 da Francana, Jordan de Freitas Viana, 39, parece ter mais feito nos últimos clubes por que passou. Antes de vir para Franca, ele treinou a seleção de Guiné Equatorial em um campeonato envolvendo seis países da África Central, no começo deste ano.</p> <p><br />Essa equipe carregava o peso de não ter vencido nenhum jogo nessa competição. Após três meses de trabalho no Cruzeiro com os jogadores africanos, Jordan foi para Guiné, país sede do torneio, e viu seus comandados vencerem a tradicional seleção de Camarões na final. “Você não imagina como ficou o povo. Só faltou eles carregarem o ônibus. Os atletas deram auto-estima para a população”, comentou.</p> <p><br />Exigente e metódico, viu na Veterana a possibilidade de realizar sua meta: treinar um time profissional no Brasil, após dez anos de trabalho com equipes de base. Indicado por um ex-técnico da esmeraldina, Wantuil Rodrigues, chegou na cidade e montou o elenco do time, com 25 jogadores, em três semanas. <br />Apesar da pressa, disse ter acertado em 60% ou 70% sobre suas escolhas de jogadores e revela que para ver a Francana crescer é preciso saber o que se quer. “Não é só questão de querer. Ambição passa por planejamento, um direcionamento do que o clube quer.” </p> <p><strong>Comércio da Franca - Qual foi sua primeira impressão quando chegou à Francana?<br />Jordan de Freitas</strong> - A gente já tem uma idéia de onde vai começar um trabalho. Há três vertentes: uma comissão técnica competente, atletas de qualidade e o apoio político e administrativo da diretoria. A diretoria queria fazer uma formação sub-20, é a parte política. Dentro desse time, queriam tirar jogadores para o profissional. Onde buscaríamos o talento? Como a diretoria não dispunha de valores financeiros para buscar jogadores fora ou não existia uma parceria com empresários, eles me deram carta branca e eu decidi começar o trabalho com um grupo de jovens que pudessem não só trabalhar neste ano, mas  ter uma seqüência de dois ou três anos. Aproveitei a região e o que já vem sendo feito na cidade pela Liga (Francana Amador de Futebol), pelos campeonatos que já existem e pelas pessoas que já trabalham com futebol. Montei um grupo de 50 atletas e desses, caímos para 25. A gente acertou em 60, 70% com relação aos jogadores. </p> <p><strong>Comércio - Quais as dificuldades enfrentadas?<br />Jordan</strong> - A qualidade dos atletas foi buscada em uma velocidade muito grande. Houve dificuldade na formação da comissão técnica, comecei o trabalho sozinho. Depois o Fernando (Cunha, auxiliar) se agregou, depois o Léo (massagista). Ainda temos dificuldade para encontrar um treinador de goleiro porque a disponibilidade desse profissional é escassa no mercado e, quando se acha, está encaixado e é preciso oferecer uma proposta melhor para sair e, no momento, a Francana não tem condições. </p> <p><strong>Comércio - Você vê um universo rico em jogadores em Franca?<br />Jordan</strong> - Sim. Tem o Projeto Futuro (da LFAF), de onde retirei atletas, e há mais (jogadores), só que dentro da pressa a gente iniciou apenas com alguns. Quando você tem esse universo, você aumenta a capacidade de captação do talento. Agora, é preciso ter uma estrutura para captar esses talentos. </p> <p><strong>Comércio - A Francana já oferece essa estrutura?<br />Jordan</strong> - Ainda não. Foi um início muito rápido e é preciso ter um planejamento com recursos e condições de treinamento.</p> <p><strong>Comércio - É possível manter uma equipe de base e montar um time profissional para subir?<br />Jordan</strong> - É preciso um nível de recursos muito grande. Se a política for de um time de base, os recursos precisam ser destinados para isso. Agora, se a política for montar um time profissional para subir para A-2 e A-1, aí é outra visão. São coisas diferentes. </p> <p><strong>Comércio - Qual é mais caro manter?<br />Jordan</strong> - O time de base. Além de ser mais caro, é um investimento a longo prazo e o retorno é de alto risco porque você não sabe quantos atletas terá. </p> <p><strong>Comércio - Quais jogadores profissionais hoje com quem você trabalhou em categorias de base?<br />Jordan</strong> - O Renato, do Corínthians, que era do Atlético Mineiro. Ramon, hoje no Botafogo, e o Cícero, que está no Figueirense e é um dos artilheiros do Campeonato Brasileiro. Bruno, goleiro do Flamengo. Esse garoto foi tirado da favela de Belo Horizonte e hoje é um atleta vencedor. Acredito até que ele terá chances na Seleção Brasileira. Todos eles não começaram nos juniores (sub-20), e sim no infantil (sub-15). </p> <p><strong>Comércio - O que é preciso para os jovens da Veterana chegarem onde estão esses seus ex-comandados?<br />Jordan</strong> - Há vários aspectos, não só o talento. Algumas coisas são inerentes ao atleta vencedor (são necessárias), e uma delas é a ambição de querer vencer.<br /></p> <p><strong>Comércio - A Francana tem ambição?<br />Jordan</strong> - Essa ambição passa por planejamento, um direcionamento do que o clube quer. Esse foi o primeiro ano de um trabalho que começou com outros, como o Cláudio Oda. Se for um trabalho de base tem de haver um investimento, começando desde o infantil, e uma política no profissional de incorporar ‘os pratas’ da casa. Ali é a vitrine e onde você vai vender os jogadores. Não é só questão de querer. Espero que a Francana tenha condições. </p> <p><strong>Comércio - Como concretizar esse planejamento?<br />Jordan</strong> - É preciso buscar parceiros, que é uma coisa difícil. Hoje, nenhum clube sobrevive sem uma parceria ou empresários. Só de renda (de jogos) não tem como viver. </p> <p><strong>Comércio - Você faz esse trabalho político de buscar apoio?<br />Jordan</strong> - Não gosto de me envolver nessa parte. Não tenho conhecimento. É lógico que posso dar umas dicas, pois já trabalhei em clube de empresários, como o Tombense (da cidade de Tombos, em Minas Gerais), durante dois anos. </p> <p><strong>Comércio - E qual sugestão você já ofe-receu?<br />Jordan</strong> - Uma sugestão de parceria pode ser com um time grande, como o Palmeiras, Corínthians ou o Cruzeiro, que já há uma abertura. Isso não é fácil porque a oferta é muito grande e você tem de ter um algo mais. Tem de ser questionado: o que a Francana tem para oferecer para o Cruzeiro ou o Palmeiras, por exemplo.</p> <p><strong>Comércio - O que você poderia falar sobre a experiência no Tombense?<br />Jordan</strong> - Foi formado um time de juniores em 2000. Em 2001 foi criado o infantil e o juvenil, formado por mim. Foi crescendo e havia uma captação de talentos no Brasil inteiro. Todos esses jogadores eram federados pelo clube. Não tinha centro de treinamento. Às vezes, você treinava em campinhos precários. O Cícero é fruto desse trabalho. Ele foi indicado por uma pessoa ao se destacar na cidade de Cachoeira (sic) (Cachoeiro de Itapemirim), no Espírito Santo. Há outros exemplos, como o Ernani, que está no Vasco. </p> <p><strong>Comércio - A sua passagem por uma seleção africana ajudou no trabalho desenvolvido aqui?<br />Jordan</strong> - O governo apoiava o time e o talento africano é como no Brasil, só que eles não têm uma oportunidade. As condições que Guiné (Equatorial) tinham não eram iguais às de Camarões, que foi a seleção que vencemos na final do campeonato. A auto-estima dos jogadores cresceu muito ao passarem três meses no Brasil e o que me reavivou foi perceber a vontade de vencer, a ambição que eles tinham. Se sobressaíssem, teriam uma maneira de melhorar de vida e conseguir jogar na Europa. O que passei para esse jovem grupo é que se cada um não tiver ambição, eles não podem estar na Francana. </p> <p><strong>Comércio - Você voltou do exterior e veio para a Francana, podendo continuar no Cruzeiro, qual a sua ambição?<br />Jordan</strong> - Tenho um desejo grande de ser um treinador de times profissionais. Se eu fico no Cruzeiro isso é mais difícil. É uma tentativa e eu vi uma possibilidade de acontecer aqui. </p> <p><strong>Comércio - Quais seus projetos para o próximo ano?<br />Jordan</strong> - Há o interesse manifestado da diretoria que eu continue o trabalho no sub-20, mas o meu objetivo é chegar ao profissional. Se não conseguir aqui, provavelmente talvez eu não dê seqüência ao meu trabalho. Talvez eu mude. </p> <p><strong>Comércio - A Francana tem condições de ser campeã do Estadual Sub-20?<br />Jordan</strong> - A gente tem condição de brigar nessa próxima fase. Tudo vai depender do nível dos adversários. Agora, temos de colocar novos objetivos. No futebol, só o resultado interessa.</p>

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários