Tudo que foi criado por Deus pertence a nós seus filhos. A cada tempo da vida descobrimos algumas coisas que nos pertencem. Ao convivermos com elas descobrimos o bem que existe ou o mal que passam a expressar quando não utilizadas de forma correta. É a hora de optar. Quando escolhemos uma coisa e não outra significa que o bem escolhido coincide com nosso jeito de ser.
Todas as pessoas da terra foram criadas à imagem e semelhança de Deus. Ele é pai de todos e ama a cada um com imenso amor.
O coração de Deus tem um carinho especial direcionado a todos que são mutilados pela pobreza, fome, desemprego, doença, miséria. São verdadeiros “pobres de Javé”, sem terra e sem teto, privados de liberdade e vida. Deus optou por eles. A escolha divina não significa rejeição de outros e sim “os pobres de Javé” coincidem com a sua essência.
A palavra de Deus que será proclamada nas missas deste domingo trazem essa idéia para nós. O profeta Isaías no capítulo 35 revela a marcha dos mutilados de Javé voltando do exílio babilônico. É verdadeira peregrinação dos deserdados rumo à vida nova que Deus lhes preparou, como a marcha do povo quando saiu da escravidão no Egito, ou como as peregrinações feitas ao Templo de Jerusalém. O texto se dirige a pessoas privadas de esperança e vida. Isaías chama essas pessoas de “desanimadas”. A eles dirige-se o encorajamento do profeta: “Coragem! Não tenham medo! Aí está o seu Deus!” As pessoas sem esperança e vida eram todos aqueles que tinham problemas físicos ou não: cegos, coxos, mudos, etc. Em Israel havia leis que tentavam diminuir o sofrimento dessas pessoas, mas na realidade continuavam mutiladas, sem esperança de vida nova e de plena integração social.
O cego não pode ver a realidade que o cerca; o surdo não pode ouvir a instrução acerca do projeto de Deus e o coxo não podia participar com tranqüilidade das peregrinações a Jerusalém. Deus é o Deus dos que não têm voz, liberdade, vez e defesa; é o Deus dos que foram manipulados e marginalizados.
O evangelho escrito por São Marcos, capítulo 7, nos apresenta Jesus percorrendo regiões pagãs: Tiro, Sidônia e a região da Decápole. O texto quer mostrar “quem é Jesus” e, de início, é possível perceber a opção carinhosa pelos pagãos, fazendo deles membros da família de Deus. Em território pagão, Jesus se encontra com uma pessoa surda que falava com dificuldade.
Ele o cura, tocando-o. Jesus é aquele que abre os ouvidos e a boca das pessoas para que possam testemunhá-lo. Jesus cura aquele surdo-mudo com a sua palavra.
Só sua palavra liberta e reintegra as pessoas. Jesus vem de Deus e traz a salvação. É aquele que cria o mundo novo, é aquele que devolve vida e liberdade aos oprimidos e mutilados pela sociedade. E a carta de São Tiago no capítulo 2, mostra a sabedoria do discernimento cristão diante das situações. O texto gira em torno da fé. Tiago diz que a fé não discrimina pessoas e mostra que, sem obras, ela não tem sentido. A fé não admite dar privilégios a esta ou àquela pessoa. É impossível ser fiel a Deus e continuar explorando e oprimindo os pobres. A fé torna todos iguais.
A igualdade nos faz pensar: no mundo criado por Deus dependemos uns dos outros. Não temos possibilidade de viver enclausurados na nossa cultura, no nosso dinheiro, nos estudos e diplomas, nisso ou aquilo. De uma forma ou outra, a vida se encarrega de ajudar-nos a estender a nossa mão até alcançar a mão do próximo.
Viver só é triste, viver em “comunhão” com Deus, o próximo é que dá sentido à vida.
PADRE JOSÉ GERALDO SEGANTIN é pároco da Catedral
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