Ser mulher, a grande travessia


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A escritora francesa Simone de Beauvoir, estudiosa da alma, dos sentimentos e da sexualidade feminina, dizia que não se nasce mulher, torna-se mulher. O detalhe, que faz toda a diferença, é que ela chega ao mundo sem um manual de instrução. Faz uma travessia muito solitária nesse imenso e misterioso continente, a vida, em busca de sua sexualidade. Do ser mulher com plenitude. A complexidade desse processo feminino interfere na compreensão das semelhanças e diferenças com o sexo masculino e também na manifestação do desejo e na dificuldade de entrar em contato com as suas fantasias e na descoberta do prazer. É comum a mulher jovem ter uma sensualidade à flor da pele, mas é difícil escutá-la comentar a respeito da sua satisfação sexual. Esse quadro vem mudando nos últimos 20 anos, mas ainda há uma ansiedade grande da mulher quando se trata de experimentar o prazer, fazendo com que ela se retraia e tenha dificuldade em conversar sobre as suas frustrações. Nesse terreno o parceiro tem colaborado pouco. Isso acontece porque, assim como a feminilidade, a sexualidade também não nasce pronta. Ela é conseqüência das primeiras experiências de vida, do relacionamento afetivo e do contato com o pai, a mãe, os irmãos e os amigos, ainda na fase escolar. Existe uma diferenciação muito grande entre a sexualidade masculina e a feminina. O homem descobre muito precocemente o sexo, em decorrência do próprio estímulo que recebe da sociedade. O fato da sua genitália ser exposta também contribui, porque o homem mantém uma relação de intimidade com o seu órgão sexual, às vezes de forma até obsessiva na maioria das vezes, fruto de uma ansiedade não resolvida. O fato da mulher ter pouco ou nenhum contato com sua área genital faz com que ela não tenha intimidade com o seu próprio corpo e até desconheça as suas zonas erógenas. Às vezes, reprime de tal forma essa lembrança que não consegue recordar que na infância ou na puberdade chegou a se masturbar ou mesmo se tocar. A verdade é que a maioria que passou dos 40, nem chegou a entrar em contato com o próprio corpo por causa do medo, da repressão e dessa coisa obscura que é a sua sexualidade. No campo social, a mulher tem demonstrado boa capacidade de enfrentar e superar obstáculos apesar de certas resistências masculinas para evitar essa emancipação. O pedágio pago para essa ascensão em vários setores da vida é elevado. Ser profissional competente, boa mãe, educadora, gerenciadora da casa e amante do marido, não tem sido tarefa fácil desempenhar bem todos esses papéis. A boa conversa e entendimento, tem sido o melhor remédio. Assim, a mulher constrói o seu caminho sexual muito mais carregado de mistério e dúvidas. Muitas apresentam um sentimento de inferioridade e inveja, como se as outras tivessem uma vida sexual feliz. É pura bobagem. A mulher não pode mais abrir mão do prazer e ficar guardando seus segredos em silêncio. Tem de buscar no homem uma parceria que estimule as trocas entre eles e a ajude a se sentir mais segura, contribuindo para o seu crescimento afetivo e amoroso. O direito ao prazer é uma conquista, aliada ao sucesso e realização em outras áreas. MOACIR COSTA é médico psicoterapeuta e autor do livro Sem Drama na Kama (Ed. Prestígio/Ediouro)

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