Não adianta institucionalizar os meios de democratização se estes não estiverem no nível do entendimento da população. É preciso, todavia, democratizar os processos que levam os brasileiros a compreenderem as diversas manifestações culturais de seu país e de sua época. Até mesmo a democracia está sendo oferecida em termos de soluções pecuniárias e paliativas, como se fosse um produto à venda. Não se refere mais a ela tanto quanto uma conquista, sobretudo no âmbito da educação, em que o Brasil vai explicitamente mal.
Com medidas imponderadas, os governantes tentam reverter, em poucos anos de gestão, o quadro de desigualdades que perpassa vários séculos de história nacional. A respeito do consumo cultural, que contém as formas de expressão e interação de um povo, de que vale baixar os preços dos ingressos de apresentações de teatros, concertos, danças e salões de humor, ou supor um subsídio governamental, se a população, em sua maior parte, não terá condições de interagir com o evento e compreender seus significados? Em muitos casos, nem teriam interesse em conhecê-las.
O sistema de acesso às universidades públicas no Brasil é por meio de um concurso em que se presume que alguns candidatos estejam melhor preparados do que outros para preencher as vagas. Para isso, são necessários anos de estudo e preparo de acordo com a carreira a que se aspira, o que implica dedicação e boa formação escolar. Contudo, nem todos têm condições financeiras, tempo disponível, sequer estímulos para isso. Da mesma forma, o governo tenta democratizar o ensino no país através do sistema de cotas, selecionando pela cor da pele e não mais pelo mérito, o que é uma reiteração da discriminação.
Quando candidatos a cargos públicos falam de educação em seus discursos, é preciso investigar se eles se referem a medidas paliativas ou àquelas de longo prazo que têm efeito regenerador. Há medidas que, findado o mandato, levam a crer que os dados de educação melhoraram no estado e na federação, como a que aboliu a reprovação nas escolas públicas. Desse modo, qualquer um “passa de ano” e tem-se a impressão de que melhorou o grau de escolaridade. Porém, melhorou a formação dos que terminam o segundo grau, ou colegial?
O investimento sensato e verdadeiro na educação não oferece resultados tão imediatos, mas reformula o entendimento e os ideais dos brasileiros a longo prazo. É aqui que reside nosso ponto. Na visão do sociólogo Octávio Ianni (A idéia de Brasil moderno), a economia e o aparelho estatal modernizam-se, enquanto os problemas sociais e as conquistas políticas revelam-se defasados. A mesma nação moderna, industrializada e democrática conta com situações sociais, políticas e culturais desencontradas.
É preciso, portanto, rever a maneira como a democratização está sendo discutida neste país e por quem. Se educar é única e simplesmente preparar para o mercado de trabalho, então é indício de que o que se quer no Brasil é um exército de operadores, com mão-de-obra facilmente substituível, em vez de uma coletividade preparada para entender a própria democracia, além de exercer uma função. Em vez de pensarmos “a nível de entendimento”, cuja expressão é vilipendiada pela boa formação em língua portuguesa, ao menos, estaríamos “no nível do entendimento”.
BRUNO PERON LOUREIRO é estudante de Relações Internacionais na Universidade Estadual Paulista.
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