Foi com alguma surpresa que ouvi de um amigo: “Você é muito considerado, mas o pessoal acha o seu trabalho caro!” Bem, para a tranqüilidade da minha consciência, um dos princípios que pautam a minha vida é sempre dar mais do que recebo.
Trabalho há mais de sessenta anos na indústria de calçados, um período em que a imensa maioria dos donos das empresas de calçados nem tinha nascido, e com isso acumulei uma experiência dificilmente igualável. De fato, trabalho na indústria de calçados desde os 14 anos, quando entrei como aluno na escola Bata Shoe Organization (naquela época, em 1941 era Bata a.s.), em que a organização formava os seus futuros executivos.
Passávamos metade do dia trabalhando na fábrica e metade do dia na escola - sempre em uma dupla de alunos. Fiquei cinco anos em outras atividades e, por isso, só tenho 60 anos de atividades na indústria de calçados.
Adquiri a minha experiência no mundo inteiro, onde há indústria de calçados de alguma importância. Por isso, hoje, no meu trabalho, quero elevar o nível de indústrias locais para o nível de competitividade global. Competir só no mercado nacional já não é suficiente, quando o mercado interno está sendo invadido pelos importados.
É fácil competir com indústrias nacionais, em que o nível de competência (e às vezes o nível de incompetência) é praticamente igual. Mas, no momento de competir globalmente, a situação muda. Haja vista a queda nas exportações, atribuída, geralmente, ao câmbio desfavorável. Mas, será que é só isso?
Será que as indústrias locais não são pouco produtivas? Será que o pessoal improdutivo não está em número superior ao das congêneres estrangeiras? Tenho encontrado números 100% maiores do que é considerado normal em outros países! Será que o índice de ociosidade não é grande? Será que a racionalização de produção não é baixa? Será que a tecnologia usada não é ultrapassada?
Tenho de observar todos estes pontos quando quero introduzir as mudanças para melhora. O pior de tudo é que os próprios empresários ou donos de empresas não enxergam ou desconhecem essas realidades dentro das suas próprias indústrias.
Até agora questionei a parte produtiva. Na gestão das empresas a situação, geralmente, é pior. Quem tem a contabilidade de resultados econômicos (lucro ou prejuízo) pelo menos mensal, já que a ideal seria semanal? Quem tem o planejamento de vendas, de compras, de movimentação financeira? Quem acompanha a evolução ou involução do capital de giro? Praticamente ninguém, porque os nossos contadores não foram instruídos para tanto e desconhecem como fazê-lo, embora isso possa ser feito por qualquer pessoa da administração. Quem sabe fazer o cálculo de custo e formação de preço de venda pelo método de Peter Drucker, hoje aplicado por todos os concorrentes globais?
E é desse jeito que queremos competir com o resto do mundo? É só uma pequena amostra daquilo que falta para tornar a nossa indústria mais competitiva. É verdade que temos impostos demais e a nossa legislação trabalhista, excessivamente protetora, deveria ser reformulada. É verdade que o câmbio não ajuda, mas há muitas coisas que deveriam ser feitas dentro das próprias empresas que não são feitas ou por desconhecimento ou por acomodação.
Nestas condições, fica difícil discutir o custo/benefício de uma consultoria. Aliás, nem me apresento mais como consultor, porque a palavra consultor, ultimamente, virou sinônimo de picaretagem. Como existem consultores! Não quero ser mais um. Nos meus cartões de visita novos, consta agora: SAPATEIRO. Com muita honra.
Voltando ao começo: para quem acha que pagando um salário mínimo ou o piso salarial aos seus funcionários já está sendo explorado, pagar algo mais pelos conhecimentos de sessenta anos de experiência para modernizar e atualizar a indústria dele pode parecer uma exploração. Pode deixar, porque com essa mentalidade a indústria dele não tem futuro. E fechará mais cedo do que seria de esperar.
Nem tudo está perdido. Temos empresários que não temem desafios, que se mantêm atualizados e que vibram com qualquer aperfeiçoamento na atuação das empresas deles. Não são muitos, mas a simples existência desses poucos já é animadora. Nem tudo está perdido.
ZDENEK PRACUCH é consultor de empresas calçadistas
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