O operador de injetora Jeverson Rodrigo Hipólito de Faria, 22, residente na Vila Santa Luzia, em Franca, não consegue segurar um objeto com a mão esquerda com a facilidade da maioria das pessoas. Em março, ele perdeu três dedos e passou a integrar as estatísticas de acidentes de trabalho da cidade. Somente no primeiro trimestre de 2006, foram registradas 620 notificações emergenciais no Pronto-Socorro, 43% (266) delas relacionadas a ferimentos em mãos e dedos, que vão desde simples cortes até amputações.
O número assustou o CRST (Centro de Referência em Saúde do Trabalhador) de Franca, que resolveu inverter o quadro em vista da expectativa de aumento de produção com a aproximação do fim de ano. “Se quando a produção é baixa, os casos foram altos, precisamos nos prevenir para que nos próximos meses, quando a demanda de pedidos costuma ser maior, esse índice não cresça”, disse a assistente social do órgão, Edvânia Souza Lourenço.
O primeiro trabalho nesse sentido foi realizado ontem, com o 1º Seminário de Prevenção de Acidentes de Trabalho com Mãos. No evento, foram apresentados os dados referentes aos três primeiros meses do ano e o que pode ser feito para diminuir os índices. Um dos projetos é um curso de capacitação para representantes de 30 empresas da cidade, que ocorrerá nos próximos quatro meses. Serão encontros mensais, com oito horas de duração cada. “Os representantes deverão, de acordo com o decorrer do curso, aplicar a metodologia e fazer o gerenciamento dentro da empresa”.
Segundo levantamento do CRST, as principais vítimas são os homens, entre 21 e 30 anos, que se acidentam dentro da empresa. A maioria das lesões é nas mãos (43%), seguida dos membros inferiores.
Sobre o fato de o trabalho de prevenção ser voltado a acidentes com mãos, Edvânia diz que eles, além de ocorrerem com mais intensidade, trazem problemas posteriores. “Há cortes e esmagamentos. Em alguns casos, no início, o acidente parece pequeno, mas depois afeta os tendões e o movimento da mão.”
VÍTIMA
Pai de família, Jeverson Rodrigo Hipólito de Faria perdeu três dedos da mão esquerda quando fazia a limpeza de uma injetora em março. “Meu chefe pediu para ensinar um novo rapaz, enquanto isso, sem eu perceber ele subiu na máquina e a prensa de 300 toneladas caiu na minha mão. A sorte foi que só bateu e voltou”, disse. Entre as restrições do maquinário, está a proibição de mais de um operante.
Faria recebeu socorro, ficou dez dias internado e passou por duas cirurgias. “Para piorar, perdi o emprego e atualmente só recebo um salário da Previdência”. Além do trauma físico, o dano psicológico também afeta o rapaz. “Tenho que me acostumar, mas sofro para fechar uma torneira, segurar um objeto, na hora de dirigir e até mesmo para trocar de roupa”, diz.
NO BRASIL
Segundo as últimas estatísticas do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), mais de um terço de todos os acidentes ocupacionais notificados no Brasil atinge as mãos. Quase 10% deles são traumáticos. Em 2004, 7.405 trabalhadores tiveram uma ou ambas as mãos amputadas, outros 2.378 sofreram lesões por esmagamento.
Para diminuir os números em Franca, a Delegacia Regional do Ministério do Trabalho mantém um trabalho de fiscalização na cidade. “Realizamos cerca de 60 autos no mês e 30% (18) são relacionados à saúde do trabalhador”, disse o subdelegado Jamil José Leonard.
Segundo ele, a fiscalização não ocorre somente em indústrias calçadistas. No mês passado, 40 autos foram feitos na zona rural. A maioria sobre condições de trabalho.
Com normas regulamentadoras em diferentes áreas, o Ministério ve-rifica denúncias de sindicatos, de trabalhadores em situações de risco, além de fiscalizações indiretas, nas quais as empresas são chamadas a comparecer à delegacia.
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