Deixe em paz meu coração/que ele é um pote até aqui de mágoa”. A música Gota D’Água foi feita em 1975 para um espetáculo homônimo, de Paulo Pontes e Chico Buarque. Mas bem que poderia ser a trilha sonora da personagem Marta, interpretada por Lília Cabral em Páginas da Vida.
Incapaz de acolher a filha grávida em casa e tratá-la com carinho, ela chora assistindo à cena em que Buddy Threadgoode (Chris O’Donnell) morre atropelado por um trem no clássico filme Tomates Verdes Fritos. Mas não chora quando recebe a notícia de que a filha morreu e nem quando decide entregar a neta, com síndrome de Down, para adoção. Essa contradição, exposta visceralmente por Manoel Carlos, pode sintetizar um pouco dessa personagem que, apesar da sua frieza, trabalha fazendo festas infantis para alegrar o aniversário de crianças. É, sem dúvida, uma pessoa cheia de mágoas e que criou uma “casca” para poder suportar as agruras da vida. Como ela mesma diz com freqüência em suas cenas, “a vida continua, não há tempo para parar e ficar chorando”.
Antes mesmo de a novela começar, Lília Cabral foi apontada como a grande vilã de Páginas da Vida. Mas quem esperava mais uma personagem no estilo Bia Falcão (de Fernanda Montenegro em Belíssima), malvada e sem escrúpulos, pode ter se decepcionado.
Marta não se encaixa nesse tipo de vilania. Ela se mostra mais uma pessoa amarga do que ruim. Com freqüência, diz que sofreu muito na vida, que nunca teve a ajuda de ninguém para nada. E é aí que está a chave para a sua personagem. Marta é o resultado de alguém que realmente sofreu muito, que foi rejeitada pelo pai e sempre precisou lutar para ter o que queria. Ao que tudo indica, aos poucos sua história será contada. Seja por meio das lembranças da infância dos filhos, seja nas conversas que tem com a irmã, quando consegue falar um pouco mais de si.
De acordo com a psicóloga Ana Lúcia Tavares, 28, o comportamento de Marta mostra que ela se endureceu sentimentalmente. “A forma que ela tem de agradar às pessoas que estão a sua volta é fazendo algo por elas. Mas somente no aspecto financeiro, já que não consegue se envolver sentimentalmente, emocionalmente”, explica. Por isso, todo o discurso de Marta é recheado de frases com “eu fiz”, “eu consegui”, “eu faço por você e você não faz nada por mim”.
OPINIÕES
Mas será que pessoas como essa realmente existem? A confeiteira Hosana Posteraro Medeiros, 36, garante que sim. “Eu nem gosto muito de ver a novela porque lembro de uma pessoa que conheço e que é igualzinha à Marta”, diz. Para ela, essa personagem não pode ser considerada uma vilã comum. “Para mim, ela mostra a realidade da vida de muita gente. É uma pessoa amarga, que não é feliz e não tem capacidade de investir para melhorar a própria vida”, diz.
Há também quem não pense assim. Para a dona de casa Rosemary Aparecida Martins, 31, Marta é, sim, uma grande vilã. “Não gosto dela de jeito nenhum. Parece que ela não tem coração. É muito ruim e maltrata as crianças”, diz.
De acordo com a psicóloga Cléria Bueno, esse lado dúbio é justamente a essência da personagem de Lília Cabral. “A Marta não é como a Bia Falcão, sem índole, que sente prazer em ser má.
Mas é uma pessoa muito amarga, capaz de despertar ódio ou pena nas pessoas, dependendo da forma como seu comportamento é analisado”, diz. Para ela, a personagem foi muito bem construída por Manoel Carlos e mostra realmente uma pessoa que é um poço de mágoa e ressentimento com a vida. “O interessante é observar como o marido (Alex, personagem de Marcos Caruso) é o oposto.
Ele também é uma pessoa frustrada, fracassada, que vive encostado na mulher. Mas ele desperta a simpatia das pessoas por causa da pose de bom moço. Já a Marta, veste a carapuça da fortaleza para suportar tudo. E ainda precisa dele para poder jogar toda a culpa do que acontece com ela”, diz.
Cléria completa dizendo que pessoas como Marta, que demonstram saber exatamente o que querem, são na verdade muito vulneráveis. “Eu vejo dois caminhos para essa personagem. Ou ela vai se endurecer a ponto de perder totalmente o contato com o outro ou vai explodir em algum momento e ter que entrar em contato com tudo que a fere”, diz. Esse destino, agora, está nas mãos de Manoel Carlos.
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