Suzane não se arrependeu


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O promotor Roberto Tardelli disse que Suzane von Richthofen faz parte de um conjunto de indivíduos que todos devem rezar para não encontrar durante a vida: “Quem cruzou o caminho desta moça teve o fim trágico, como os pais, ass
O promotor Roberto Tardelli disse que Suzane von Richthofen faz parte de um conjunto de indivíduos que todos devem rezar para não encontrar durante a vida: “Quem cruzou o caminho desta moça teve o fim trágico, como os pais, ass
<p>Após ter participado do julgamento da jovem Suzane von Richthofen e dos irmãos Daniel e Christian Cravinhos, a vida do promotor de Justiça Roberto Tardelli mudou. A exposição na mídia o transformou em uma celebridade. </p> <p><br />Até hoje, são pedidos de entrevistas a declarações sobre o caso por onde passa. Na época, teve de aprender a lidar com a imprensa. “Em um dia, recebi 320 recados em meu telefone celular pedindo informações sobre o caso.” Apesar do assédio, Tardelli afirmou que não se acostumou com a fama. “Se eu me acostumasse, enlouqueceria.”</p> <p><br />Por trás de um homem de postura firme e que encarou a menina que planejou a morte dos pais há um homem de hábitos simples e bem-humorado. Na última quarta-feira, quando proferiu palestra na Unifran (Universidade de Franca), Roberto Tardelli concedeu entrevista ao Comércio no hotel em que estava hospedado e revelou detalhes exclusivos sobre o crime que abalou o País. Para ele, Suzane é fria, calculista e não se arrependeu de nada. Criticou a atuação dos advogados ligados ao mundo do crime.</p> <p><strong>Comércio da Franca - O senhor ganhou notoriedade nacional ao atuar como promotor de um crime que parou o País. Já se acostumou com a fama?<br />Roberto Tardelli</strong> - Eu não me acostumei com a notoriedade e nunca vou me acostumar. Se eu me acostumar, enlouquecerei. As pessoas que me abordam na rua são muito desarmadas, se manifestam com o coração aberto, me abraçam. Como posso recusar isso de uma varredora de rua, por exemplo? Todos os dias, chego em casa chorando por causa de algo de bom que me disseram durante o dia. É que eu gosto de andar de metrô, ônibus e a pé. E depois de atuar no caso, invariavelmente me param na rua. É muito legal.<br /> <br /><strong>Comércio - Não tem medo de que façam algo de mal ao senhor na rua?<br />Tardelli</strong> - De jeito nenhum. Esse contato com as pessoas é muito rico e a gente vê coisas interessantes. Por exemplo, um ônibus lotado em São Paulo às dez da noite. De repente você vê um casal apaixonado se abraçando nos bancos. Ou seja, mesmo com aquela paranóia que é São Paulo, a gente pode ver uma coisa dessas. Isso significa que apesar de todos os problemas, como violência, falta de dinheiro, ônibus lotado, as pessoas estão resistindo. Esse é um país abençoado, mas que tem um fosso de desigualdade, que gera a violência com a qual convivemos hoje.<br /><strong> <br />Comércio - Mas o crime dos Richthofen ocorreu por outros motivos...<br />Tardelli</strong> - Do ponto de vista científico, é um fato de uma pessoa planejar tão cuidadosamente da morte dos pais. O parricídio, que significa assassinato do pai e da mãe pelo próprio filho, não é tão raro, mas acontece por ímpeto, e geralmente o filho, depois do parricídio, fica louco. Ela, não. Planejou tudo. No dia do crime, almoçou com a mãe, os assassinos chegaram a projetar a arma, num projeto tridimensional em computador, testaram o revólver... (pausa). Eles fizeram uma máquina de matar, ao criar um porrete leve e forte. Eles colocaram um parafuso numa das pontas e golpearam a ponto de atingir o osso e matar o casal na hora. E nenhuma das famílias percebeu nada. Os criminosos fizeram um pacto e continuaram agindo como se nada estivesse acontecendo... Porque se as vítimas desconfiassem de alguma coisa, certamente teriam trancado a porta na hora de dormir. O mais chocante, o que contribuiu para uma repercussão maior do caso, foi o fato de eles terem sido soltos durante o processo, o que revoltou muita gente.<br /><strong> <br />Comércio - E o senhor chegou a pensar que eles seriam soltos?<br />Tardelli</strong> - Cheguei a temer por isso. Se esse processo terminar com ela condenada aguardando julgamento de recurso em liberdade, será o pior dos exemplos que podemos dar. O meu grande pesadelo é esse. Mas não queríamos criar situações para a Suzane voltar para a cadeia, foi ela mesma que criou, aliás, criou pelo menos três situações para voltar à prisão. A mais grave foi ter colocado o irmão sob ameaça.<br /> <br /><strong>Comércio - O senhor acredita que eles não se arrependeram?<br />Tardelli</strong> - Ela não se arrependeu de nada, e eles se desesperaram. E há uma diferença muito grande entre o arrependimento e o desespero. No futebol, quando o zagueiro põe a mão na bola e o árbitro não vê, ele não se arrepende e continua no jogo como se nada tivesse acontecido. Agora, quando o juiz vê e marca pênalti, ele se desespera, porque ele sabe que poderá causar a derrota do time. Foi o que ocorreu com os irmãos Cravinhos. Eles se desesperaram porque sabem que vão passar os melhores anos da vida deles no pior lugar do mundo, que é a prisão. A cadeia é o inferno na terra.<br /> <br /><strong>Comércio - E como foi encará-la no Tribunal do Júri?<br />Tardelli</strong> - Nestes quatro anos em que estou no processo, aprendi a conhecer a Suzane von Richthofen. Antes do julgamento, eu sabia que ela agiria daquela forma e ficaria surpreso se o fizesse de outra maneira. Ela falou por quatro horas e quinze minutos sem parar, evidentemente treinada. Até aí, tudo bem. Em vários momentos desta fala, me pareceu que nesta marcação teatral, havia ordens para ela chorar, mas não conseguia. Ela não soltou uma lágrima em nenhum momento. E uma coisa que achei muito interessante: ela matou a família fisicamente, e no júri, matou os Cravinhos, contando verdadeiras atrocidades, que não acredito que sejam verdadeiras, mas sim obra de sua própria mente. Nada do que parta dela pode ser encarado com seriedade. Família, para ela, tem prazo de validade, já que esta é a terceira família que a acolhe, já que a primeira foi a dela. A segunda, os Cravinhos. E agora, uma outra família (do tutor, Dermival Barni), que também tem o seu prazo de validade e eles não estão percebendo isso.<br /> <br /><strong>Comércio - O senhor acredita que passou pela cabeça da Suzane matar o irmão?<br />Tardelli</strong> - Efetivamente sim. Ela deu passos nesse sentido. Se nós não tivéssemos tomado conhecimento de situações, todas elas produtos de coincidências, hoje poderíamos estar chorando uma terceira morte, provavelmente a do irmão dela. Ela criou situações no processo cível de inventário que permitem a qualquer leigo perceber a agressividade da Suzane, até o momento em que ela se refere ao irmão como usurpador, dentro dos autos, e pede para assumir o cargo de inventariante, no qual ela poderia mexer com o patrimônio da família como bem entendesse. Mas o pedido foi negado, criando o impasse. Era o que ela precisava para começar a pensar num jeito de matar o irmão.<br /><strong> <br />Comércio - Qual outra característica da Suzane o senhor destacaria?<br />Tardelli -</strong> Ela é parte de um conjunto de indivíduos que nós temos que rezar para não cruzarmos o caminho deles. Quem cruzou o caminho desta moça teve o fim trágico, como os pais, assassinados, o ex-namorado e o ex-cunhado, ambos presos e condenados, e o tutor desmoralizado. Todos perderam, e muito, com ela.<br /> <br /><strong>Comércio - É possível haver alguém do lado dela?<br />Tardelli</strong> - Se alguém tiver curiosidade de acessar o orkut, verá que há inúmeras comunidades de pessoas apoiando a Suzane. Há também duas famílias que a apóiam, mas não são parentes dela. São duas pessoas que entraram na vida dela sem nunca a terem conhecido. Aliás, este tutor (Dermival Barni), de tutor não tem nada porque Suzane von Richtofen é maior de idade. O Dermival se dizia amigo do pai dela, mas ele nunca teve contato com o Manfred... Ele surgiu somente durante as investigações.<br /> <br /><strong>Comércio - O benefício dado a ela e não aos irmãos Cravinhos, para o senhor, se deveu à condição social dela?<br />Tardelli</strong> - Nós nos identificamos com os iguais. É natural. É por isso que defendemos os nossos amigos, mesmo quando eles cometem erros graves. Essa identificação passa também pelas esferas de poder. O raciocínio pode ter sido este: colocar alguém tão jovem num ambiente horrível. Não pode. Pode ter sido este o pensamento de quem autorizou Suzane a ficar solta durante um bom tempo.<br /> <br /><strong>Comércio - É por isso que em muitos julgamentos, pessoas brancas, de renda alta e moradoras de bairros mais nobres têm mais chances de ser absolvidas?<br />Tardelli</strong> - Infelizmente, a gente ainda vive o país do coronel. A própria população sente piedade quando alguém de determinada classe social vai preso. O marido que mata a mulher, por exemplo: ele não é só mau marido, mas também um mau pai... Por exemplo, eu nunca vi um pai que mata a mulher e depois cria os filhos depois de cumprir a pena. Ele entrega os filhos na casa da sogra e vai para a vida que ele pediu a Deus: livre, solto, corajoso e temido.<br /><strong> <br />Comércio - O senhor traça algum paralelo entre Suzane von Richthofen e Marcola?<br />Tardelli</strong> - Ambos são um azar mundial. Há poucas pessoas no mundo com o perfil deles. São profundamente amorais, mas inteligentes, preparados, corajosos, carismáticos e conseguem liderar naturalmente o ambiente em que se encontram. O Marcola é muito semelhante ao (Osama) Bin Laden. Para ele, morrer 10, 15 ou 100 é a mesma coisa. E ele tem uma causa, por mais louca que seja, que são os presos. Ele é o assassino em massa. Já a Suzane voltou todas as suas atuações para grupos menores.<br /><strong> <br />Comércio - Nós tivemos recentemente várias denúncias de advogados envolvidos no mundo do crime, como a francana Adriana Telini Pedro. Qual a opinião do senhor?<br />Tardelli</strong> - Acho que o Brasil deve muito aos advogados porque quando da época da ditadura, quem evitou atrocidades maiores foram os advogados. A profissão é a única da iniciativa privada que é citada na Constituição Federal, no artigo em que fala que a presença do advogado no processo é fundamental para a administração da Justiça. Está lá (na Constituição). Portanto, a advocacia é essencial. No dia que não houver advogado e promotor no Tribunal do Júri, será o fim da democracia. O que acontece é que, em função do aumento do número de advogados, a área de risco aumentou. Alguns deles, talvez sob a pressão em que vivemos, se perderam e se tornaram criminosos com a carteira da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil). O que é um médico que faz aborto? É um criminoso com a carteira do CRM (Conselho Regional de Medicina). Com o advogado que rouba, é assim também.<br /> <br /><strong>Comércio - Mas por que é tão difícil uma categoria punir um mau profissional?<br />Tardelli</strong> - O corporativismo é inevitável... No caso dos advogados, com todo o respeito à OAB, a entidade possui prioridades estranhas. Por que é tão sério não pagar a anuidade? Que infração é tão grave assim? Agora, por que não é tão sério assim o advogado retardar a entrega do dinheiro a um cliente? Quando a OAB abona determinadas condutas de profissionais, ela protege o advogado, mas desprotege a advocacia.</p>

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