Hobbits existiram


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“Num buraco no chão vivia um hobbit. Não uma toca desagradável, suja e úmida, cheia de restos de minhocas e com cheiro de lodo; tampouco uma toca seca, vazia e arenosa, sem nada em que sentar ou o que comer: era a toca de um hobbit, e isso quer dizer conforto”. Assim o sul-africano John Ronald Reuel Tolkien iniciava uma revolução na literatura mundial, com o livro O Hobbit, sobre as aventuras de Bilbo Bagins, que teria como seqüência a trilogia O Senhor dos Anéis. Dentre todos os seres fantásticos da Terra Média, o mundo mágico criado por Tolkien, os Hobbits são, sem dúvida, os mais simpáticos e fascinantes: Pequeninos, ágeis, pezudos, habitantes de cavernas, pacatos, gentis, amantes da natureza, apreciadores de uma boa história, de uma boa comida e de um bom cachimbo. Interessante essa criatura da ficção. Mais interessante ainda é o fato de que hobbits existiram de verdade. Como os da ficção, os verdadeiros hobbits tinham entre 90 centímetros e 1,20 metro de altura e viviam em tocas, mas, ao que parece, não comiam muito, nem fumavam. Na Ilha de Flores, na Indonésia, um lugar de fauna e flora exóticas, antropólogos britânicos, chefiados pelo australiano Peter Brown, da University New England, descobriram em 2004 fósseis de um minúsculo hominídeo que foi logo chamado Homem de Flores, com nome científico de Homo floriensis, e apelidado de Hobbits. Os pequeninos esqueletos não eram de crianças, nem de anões. Eram semelhantes aos de humanos adultos, mas pequeninos, o que veio a responder quem foram os donos das minúsculas ferramentas e armas de pedra que arqueólogos encontraram nos anos 60. Os pesquisadores, que descobriram os ossos dentro de uma caverna, formularam a hipótese de que os Homo floriensis são descendentes dos Homo erectus que teriam chegado à Ilha das Flores há 800 mil anos e a partir daí, teriam sofrido o que evolucionistas chamam de inanição insular. A seleção natural age em espécies isoladas em ilhas sem predadores e com escassez de alimento, selecionando os menores, que precisam de menos energia. Esse fenômeno ocorreu também com os elefantes de Flores, que tinham o tamanho de porcos, os stegodontes. Os homenzinhos, que andavam eretos e encolheram devido às condições ambientais, também dividiam a ilha com outras criaturas estranhas como o dragão de Comodo, que, para azar dos hobbits, não encolheu. Os Homo floriensis viraram as teorias da evolução humana de cabeça para baixo, por terem criado instrumentos mais sofisticados que os feitos por hominídeos, que tinham um crânio bem maior, apesar de terem o cérebro do tamanho de uma laranja. É possível que eles utilizassem mais a capacidade mental, acabando com a teoria de que quanto maior o cérebro, maior a inteligência. Na semana passada, uma outra teoria sobre os hobbits veio desqualificar a descoberta. Segundo o antropólogo australiano Maciej Henneberg e sua equipe da Universidade de Adelaide, os homens de flores nada mais eram que seres humanos que sofriam de algum problema de crescimento e de microcefalia, não sendo portanto uma nova espécie. A questão sobre a natureza dos hobbits, se são realmente homens ou outra espécie, não é a única dúvida ainda não esclarecida. Também não se sabe ao certo como eles foram extintos. Uma corrente de pesquisadores acredita que uma erupção do vulcão Kelimutu tenha acabado com os pequeninos, mas existe também a hipótese de nós, os Homo sapiens, que em determinado momento também chegamos a Flores, tenhamos entrado em competição por alimento com os hobbits e acabado com eles. Ei, grandão! Por que você não pega alguém do seu tamanho? Nós pegamos. Durante mais de 90% do tempo de existência humana sobre a Terra, coexistimos com outras espécies de hominídeos. Fomos nós que acabamos com várias subespécies de Homo erectus e com os homens de Neandertal (Homo neanderthalensis). É triste, mas desde a pré-história temos sido genocidas, nos comportando como orcs, e, literalmente, acabamos com a raça de nossos irmãos. O fim da história dos hobbits de verdade foi bem mais triste que o imaginado por Tolkien.

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