Entre o ser humano e seus objetivos há caminhos e obstáculos a transpor, mas os mais difíceis não são senão os que ele próprio cria em sua mente. O que distancia mais o homem do êxito, da satisfação, da realização, quando não são as pedras imaginárias, é o hábito de tornar as dificuldades maiores do que são e fazer disso um pretexto para não enfrentá-las. Quem acha muito alto o custo do conhecimento (ler, estudar), vai com certeza mudar de idéia quando descobrir o preço da ignorância. Atingir objetivos requer ação, empenho, persistência, etc. Há caminhos que precisam ser trilhados por completo, sem atalhos; degraus que têm de ser galgados um de cada vez. Nada, porém, que exija da pessoa mais do que ela é capaz, desde obviamente que esteja disposta. O problema é que muitas pessoas querem obter certas coisas sem esforço. Querem chegar por um meio mais fácil. E isso geralmente é motivo de frustração.
Cresci num mundo pequeno em que as pessoas sabiam de cor a tabela do jogo do bicho, mas eram analfabetas. A condição de iletradas, todavia, não era decorrente da incapacidade de aprender. Se sabiam que tal número era o porco, que poderiam ganhar tantos cruzeiros jogando determinado valor no milhar, etc., é porque possuíam capacidade de aprender, pois isso ninguém nasceu sabendo. Mas por que eram então analfabetas? Simples: não estavam dispostas a mexer os neurônios para acumular conhecimentos úteis. Exceto o banqueiro, alguém já ficou rico com o jogo do bicho?
Não me lembro de quantos garotos do meu bairro continuaram estudando depois de entrar na adolescência. A maioria saiu da escola porque precisava trabalhar para ajudar no orçamento da casa. Para trabalhar, eu passei a estudar à noite aos 13 anos e não entendi por que os meus colegas também não o fizeram. Não passava pela minha cabeça que trabalhar e estudar estivessem além das forças do ser humano. E continuo sem entender, pois ainda não ouvi falar de ninguém que tenha morrido de fadiga por isso. Só que até hoje ouço dos jovens que são presos com drogas, com armas, com coisas furtadas, que pararam de estudar porque tinham de trabalhar.
A vida é um fardo? Não, não é. Bill Gates disse: “A vida não é fácil; acostume-se com isso”. Ele não quis, entretanto, incutir desânimo em ninguém. Acho que ele quis dizer “se você quer algo, ponha para funcionar o cérebro que Deus lhe deu; corra atrás”. Aquilo que desejamos não gruda em nós como se fôssemos um ímã.
Por maior que seja o poder de atração, sempre há entre nós e nossos desejos algo que é preciso superar. Quem quer ser esbelto tem de ser moderado no comer, tem de fazer exercício físico. Mas uma coisa tão natural parece o purgatório para muitas pessoas. Esteiras elétricas e bicicletas ergométricas viram cabides. Os tênis para a caminhada ficam esquecidos num canto qualquer. Teve uma época em que, depois de uma cirurgia, eu engordei mais de dez quilos, e então vi bem qual é a sensação de ter de comprar uma calça muito maior do que a normal para caber na cintura. Gostei tanto que fiz um esforço tremendo para voltar ao peso ideal.
A lei do menor esforço e a busca pelo caminho mais fácil explicam por que tanta gente compra carteira de habilitação falsificada em vez de submeter-se ao aprendizado e aos exames legais, por que tantos perdem tempo e dinheiro com os pastores que lhes prometem vida melhor, por que há tantas vítimas de estelionato, de charlatanismo, de produtos que não fazem os efeitos anunciados... Explicam até mesmo a falta de civilidade, como o fumante que joga as bitucas no chão e não num recipiente próprio. Livros mofam em prateleiras enquanto pessoas se anulam horas e horas na frente da TV, dominadas pela inércia e pelo inútil, sofrendo lavagem cerebral.
Li o livro da parte geral de Direito Penal do Prof. Damásio mais de trinta vezes nos tempos de concurso. E essa era só uma parte pequena do roteiro de matérias. Quando conto, as pessoas ficam impressionadas, como se fosse uma façanha. Não é. Qualquer pessoa pode fazer isso. No meu caso, bastou não perder tempo com os encantos da viúva Porcina, nem com a garota do Fantástico, não ter curiosidade de saber quem matou Odete Roitman... O meu sentido da vida e a minha realidade estavam fora da tela do televisor.
Tenho ouvido pessoas decentes dizerem que vão abandonar a luta porque não suportam tanta injustiça. Pois eu penso que é por isso que não se deve deixar de lutar. Se não houvesse injustiça, não seria necessário batalhar. Foi no meio da injustiça que surgiram grandes nomes da humanidade, como Jesus Cristo, Nelson Mandela, Ghandi... Lutar, lutar, lutar não é, portanto, o caminho mais fácil para realizar sonhos. É o único.
PAULO PEREIRA DA COSTA é promotor de Justiça
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