Autogestão feminina


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A psicóloga Sira Napolitano realiza um trabalho no Grupo Veredas para repensar a condição feminina: “Não penso que as mulheres sejam só vítimas.(...) Nos fechamos num discurso de vítima com muita propriedad
A psicóloga Sira Napolitano realiza um trabalho no Grupo Veredas para repensar a condição feminina: “Não penso que as mulheres sejam só vítimas.(...) Nos fechamos num discurso de vítima com muita propriedad
<p>Psicóloga de orientação psicanalítica há 20 anos, 15 deles em Franca, atuando em clínica, Sira Napolitano foi professora na Unifran (Universidade de Franca), leciona Filosofia no Instituto Agostiniano de Filosofia. Atualmente é professora-substituta da disciplina Psicologia do Desenvolvimento da Educação, nos cursos de História e de Serviço Social da Unesp (Universidade Estadual Paulista). </p> <p><br />Há quatro anos coordena uma reunião de mulheres no Grupo Educacional Veredas, no que chama de trabalho de gênero.Trata-se de uma ação com vistas à orientação e reflexão com mulheres de baixa renda e que vem ratificar os aspectos positivos das organizações em grupo, a partir da idéia de formação da sociedade em fratrias, discutida em Totem e Tabu, de Freud. </p> <p><br />“Trabalhei os aspectos psíquicos e sociais dentro do grupo para entender e tentar estabelecer a fraternidade. A partir daí desenvolvi minha tese de doutorado na Faculdade de Serviço Social da Unesp, sob o tema “Veredas do feminino: da psicosociologia comunitária à fraternidade”, disse. </p> <p><br />Na avaliação da tese, a banca examinadora aprovou o trabalho, com ressalvas. “A academia julga que este trabalho deve ser desenvolvido pela esfera pública e organizado pela própria comunidade e que é preciso trabalhar a consciência de classe de forma mais enfática. Não tenho o otimismo de esperar pura e simplesmente que as classes percebam o distanciamento entre elas e que ocorra algo entre essas classes para haver transformação. Eu preferi ir e fazer algo. Seja certo ou errado, sendo criticada ou não por isso. O caminho fundamental para a consciência e para o crescimento é a informação.” </p> <p><br />Sira reconhece sua ação como um trabalho de responsabilidade social. “Como eu sempre estudei em escola pública, vejo que tenho por obrigação retornar à sociedade aquilo que recebi. Como pesquisadora e alguém que há tantos anos recebe benefícios do Estado, eu tinha a responsabilidade de oferecer algum retorno, sobretudo à população carente. Também não posso deixar de sublinhar o valor do Grupo Educacional Veredas. É um oásis, algo muito especial”, disse Sira. </p> <p><strong>Comércio da Franca - Qual é exatamente o tipo de trabalho que você desenvolve no Grupo Educacional Veredas?<br />Sira Napolitano -</strong> Eu procurei a Regina Bastianini e o Luiz Cruz, coordenadores do Grupo Veredas, dizendo que gostaria de reunir um grupo de mulheres, um grupo que fosse reflexivo, educativo, não psicoterapêutico tampouco assistencialista. Um grupo para pensar e repensar a condição feminina. <br /> <br /><strong>Comércio - E como surgiu essa idéia?<br />Sira -</strong> Em 2002, terminando minha tese de mestrado, sobre preconceito em relação a gênero, na sala de aula. Quando saí do mestrado, queria desenvolver um trabalho social. A academia é muito particular e singular, em geral as pesquisas permanecem ali mesmo, muito poucas pessoas na realidade têm acesso a essas pesquisas. Eu havia feito um levantamento bibliográfico, havia lido muita coisa sobre gêneros, sobre a mulher especificamente, e pensava que seria muito importante que essas pesquisas saíssem da universidade para chegar de alguma forma às mulheres que mais precisam. </p> <p><strong>Comércio - E essa é a real função da pesquisa, não? Chegar de fato à população... <br />Sira -</strong> Pelo menos em tese é. O ideal seria a veiculação, o trânsito mais efetivo pela sociedade. Mas na realidade, circulam basicamente nos ambientes universitários, nas publicações especializadas. </p> <p><strong>Comércio - O trabalho com essas mulheres no Grupo Veredas se desdobrou em uma tese de doutorado? <br />Sira -</strong> A minha pesquisa de doutorado baseou-se no convívio com as 16 mulheres que pertencem a esse grupo. Depois de ter trabalhado um tempo com essas mulheres, percebi que dentro do grupo havia uma dinâmica muito parecida com aquela que Freud descrevia em sua obra clássica Totem e Tabu, ao falar do nascimento da sociedade, ao estudar a modo como os grupos primitivos se transformaram em sociedades. Freud chamou isso de nascimento da fratria, que são aqueles primeiros grupos entre irmãos, os grupos solidários. Assim, o que estudei foi a fraternidade, não do ponto de vista religioso nem dos laços consangüíneos, mas a fraternidade como uma saída para a sobrevivência. Não significa que seja um grupo sem conflitos e problemas.Um grupo competitivo, com muitos embates, seus membros se digladiam muito e, apesar disso, são mulheres que encontram um campo de diálogo e de solidariedade que é muito significativo e que fortaleceu a cada uma delas, bem como a noção de laços familiares, com o esposo. Isso criou uma rede muito interessante de fortalecimento e crescimento pessoal e grupal a ponto que se beneficiassem e levassem isso para os seus lares. </p> <p><strong>Comércio - O que mais você pôde concluir desse convívio de quase quatro anos?<br />Sira-</strong> Esse tipo de trabalho comunitário é muito importante e necessário. Ele não visa a substituir as políticas públicas e nem tem alcance para isso. O ideal seria que os municípios, que os Estados, adotassem esse tipo de prática. Mas também penso que se simplesmente esperarmos que a sociedade perceba essa necessidade e reivindique isso de modo contundente do Estado; é complicado esperar que a sociedade por si só desenvolva a consciência através das inúmeras contradições que vemos todos os dias, é muito difícil qualquer mudança. Essas práticas deveriam ser mais freqüentes, em organizações, associações de bairro etc. </p> <p><strong>Comércio - O trabalho se encerrou após a apresentação da dissertação de doutorado, no mês de março?<br />Sira -</strong> Não. Esse é um trabalho lento e a longo prazo. Nós nos encontramos a cada 15 dias, aos sábados, das 8 horas às 9h30 da manhã. O que levo de informação a essas mulheres é a partir da demanda. Temos casos diversos ali, como estupro, dificuldades de relacionamento com o marido e com os filhos, problemas financeiros, desemprego, são esses os problemas que chegam. Já levei vários profissionais da saúde para orientá-las, até mesmo advogada. A partir de sua necessidade. Mas hoje há uma boa vinculação entre elas, são amigas, se reúnem para assistir filmes, uma vai tomar cafezinho na casa da outra. A banca que examinou doutorado propôs que elas passassem a se reunir sem o meu referencial. E o ideal é isso mesmo, trabalhar por uma autogestão. Elas estão construindo o caminho para isso, mas ainda é cedo. Vamos continuar. </p> <p><strong>Comércio - E como a universidade vê esse tipo de trabalho que por meio de sua tese de doutorado você propõe?<br />Sira -</strong> Esse não é um projeto que a academia vê com tranqüilidade. Embora o meu projeto tenha sido acolhido e eu tenha sido aprovada, elogiada pelo trabalho que realizo, a universidade entende como se estivéssemos fazendo, grosso modo, um papel que cumpre ao Estado cumprir. Como se desresponsabilizássemos o Estado daquilo que ele deve realizar. </p> <p><strong>Comércio - No final das contas, visto por esse prisma, seria um enorme contra-senso. Em função de suas infinitas discussões e propostas louváveis mas a curto prazo não factíveis, a universidade acabaria como mantenedora do status quo. Exatamente o oposto daquilo a que ela se destina.<br />Sira -</strong> Nós poderíamos pensar assim. Mas por parte de alguns intelectuais da universidade, é muito importante que haja uma consciência de classe oriunda da população excluída. O ideal, em sua visão, seria que essas classes pudessem se organizar a fim de reivindicar esse tipo de serviço do Estado. E que eu talvez estivesse, no meu papel, só colaborando para que o Estado continuasse omisso, cada vez mais se desresponsabilizando das questões sociais. </p> <p><strong>Comércio - O Estado não faz. Mas e se ninguém fizer? <br />Sira -</strong> Era exatamente esse o meu questionamento.Eu sou muito prática e objetiva. O que é para ser feito, temos que fazer. Não adianta ficar aqui simplesmente refletindo, discutindo, desejando, querendo, fazendo projetos e não fazer efetivamente nada para realizar esses projetos. Se posso fazê-lo, por que não? Jamais pensei nesse meu trabalho como caridade. Eu aprendo muito com ele, então recebo muito em troca. Há nesse grupo um interesse mútuo. É um trabalho que adoro fazer.<br /></p> <p><strong>Comércio - Embora pequeno, o universo que você pesquisou parece bastante representativo. A partir de sua pesquisa, que perfil você traçaria da mulher francana, de nível socioeconômico baixo e que habita a periferia?<br />Sira -</strong> São mulheres, no meu grupo, numa faixa etária entre 25 e 47 anos, cujas necessidades mais básicas não são atendidas. São mulheres desassistidas. Em sua maioria, analfabetas. Depois do grupo, duas delas voltaram a estudar. Eu cheguei a um grupo totalmente cru de informações, até mesmo do significado de gênero, porque chamamos de gênero e não simplesmente trabalho feminino. Elas vêm de uma classe pobre, de muita miséria, tinham acesso zero à cultura, informação, lazer, até mesmo de noções elementares de higiene. Também não deixo que partam para o sectarismo, levo profissionais do sexo masculino para que haja a percepção das diferenças. </p> <p><strong>Comércio - E o que você depreende como universal e essencialmente feminino?<br />Sira -</strong> As necessidades afetivas, financeiras. É interessante quando proponho que elas conversem, entre elas, elegendo aquilo que julgam ser o mais importante da vida. A resposta, invariável, é: ter saúde e ser feliz. Se você perguntar isso para qualquer mulher de outro nível social, terá a mesma resposta. Dados recorrentes são as questões da baixa estima, de ser mulher, as dificuldades de se relacionar com outras mulheres. </p> <p><strong>Comércio - Ainda é um estigma de nascer mulher?<br />Sira </strong>- Principalmente nas classes pobres. Não raro ouvimos, como algo pejorativo: ‘é pobre, negra e ainda nasce mulher’. A sociedade é, ainda, apesar de todos os avanços, muito masculina. Ainda pensamos e falamos muito a partir dos referenciais masculinos. </p> <p><strong>Comércio - Por outro lado, não dá para pensar na mulher só como vítima.<br />Sira -</strong> Sim. Deixo claro na minha tese que nem sempre as mulheres são vitimizadas. Como psicóloga, não deixo o olhar que tenho sobre o inconsciente de pensar que lidamos com algo muito subjetivo, que são os nossos desejos, que nós nos fazemos presas muito facilmente, que confiscamos nosso prazer e felicidade com muita facilidade, que até mesmo nos comprazemos com a infelicidade que o outro nos causa e que perpetuamos esse modelo; que nos deixamos apanhar por ciladas que nós mesmas armamos. Não penso que as mulheres sejam só vítimas. Acho que precisamos todas de um trabalho de consciência e que até mesmo isso não fazemos. Nos colocamos em posições de subalternidade, nós nos preconceituamos com muita facilidade e depois nos fechamos num discurso de vítima com muita propriedade. </p>

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