Violência made in Brazil


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O seqüestro de jornalistas suscitou o debate em torno da violência em São Paulo. Mais pela ousadia do grupo do que pela ação propriamente dita da organização criminosa. Em troca da liberação do refém, os bandidos exigiram a divulgação de uma mensagem em cadeia nacional, em que pedem mais respeito e frouxidão das autoridades do Estado. Ou seja, um sinal de que não andam satisfeitos com as mordomias de que já gozam dentro dos presídios, como mulheres, drogas, telefones celulares e dinheiro. Outra vez ficou no ar a sensação de que nada está sendo feito para impedir novos ataques nos próximos meses. O discurso das autoridades é o mesmo de sempre, com bravatas e ataques contra os opositores da política de “insegurança pública” promovida pelo governo estadual. A situação tende a piorar, sobretudo pela utilização política dos fatos. Às vésperas de uma eleição, ninguém quer colocar o pescoço a prêmio. O melhor seria empurrar a sujeira toda para debaixo do tapete. Mas não dá tempo. Sendo assim, o caminho é desqualificar os críticos da gestão de segurança. Em lugar de propostas, as lideranças do governo aparecem na TV para falar de um complô dos criminosos contra o candidato do PSDB. A desculpa é ruim e não se sustenta. Na boca do povo, é o que se costuma chamar de conversa fiada da pior qualidade. Desculpa esfarrapada. Teve gente dizendo que o Brasil virou a Colômbia. Uma coisa, porém, não tem nada a ver com a outra. No vizinho sul-americano, o governo luta contra guerrilheiros que nasceram de um movimento político e que hoje controlam parcelas do território. Movimentam bilhões de dólares anualmente com o tráfico de drogas, a lavagem de dinheiro e o contrabando de mercadorias falsificadas. Sem dúvida, um negócio organizado e bastante lucrativo, com ramificações políticas e sociais. Os narcotraficantes escondem-se na selva com um exército fortemente armado, que sobrevive às pressões dos norte-americanos na luta contra o terror e as drogas. O que acontece no Brasil é exatamente o oposto. Aqui, os bandidos não se escondem. Pelo contrário. Comandam suas ações dentro dos próprios presídios administrados pelo Estado. Não pagam impostos, aluguel e alimentação, mas têm direito a visitas íntimas, telefone celular e qualquer tipo de droga. Desfrutam das benesses conquistadas na Parceria Público-Criminal (PPC) que fizeram durante os 12 anos de mandato dos tucanos em São Paulo. Só se revoltaram agora porque o candidato à presidência engrossou o discurso e deixou de cumprir os acordos com os líderes das facções. Ninguém quer abrir mão das mordomias, principalmente quando elas são oferecidas por quem na prática deveria condená-las. Com o impasse, decidiu-se pelo salve geral. A privatização das cadeias foi feita sem licitação e nenhum empresário do bem pôde participar do processo de concorrência pública. Usou-se apenas o instituto da “Notória Especialização”. A situação da segurança pública, porém, não se resume apenas aos presídios. É reflexo do péssimo ensino público, que aprova crianças sem avaliação, e do salário e das condições de trabalho dos policiais. Sem contar que o último distrito policial da Capital foi inaugurado há quase 15 anos. O pior é que não se criaram políticas que possam reverter o quadro em um futuro próximo. Seqüestra-se no ponto de ônibus, na fila do banco, no semáforo da esquina. Não importa quanto a vítima carregue no bolso. Um cenário bem diferente daquele que começou a ser pintado na propaganda eleitoral, sobretudo pelo cidadão que esteve no poder até três meses atrás. Agora, a culpa é da Colômbia? ROMEU TUMA é delegado de Classe Especial da Polícia Civil, deputado estadual (PMDB), ex-presidente e atual integrante da Comissão de Segurança Pública, presidente da Comissão de Defesa dos Direitos do Consumidor e Corregedor da Assembléia Legislativa de São Paulo

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