“Oi, galera!! Valeu a preocupação de todos vocês. Tô viva, mas não tô a fim de conversar. Se eu me f* por causa da mia? Antes fosse. A mia foi embora e me deixou 5 kg de presente”. O trecho do blog Ana Mia Diva, nome formado pelos apelidos de anorexia (Ana), bulimia (Mia) e o codinome da dona desconhecida do diário da internet (Diva), mostra o triste retrato de quem quer emagrecer infinitamente, baseado em uma imagem que só a pessoa tem dela mesma. Especialistas tratam tais distúrbios alimentares severos como doença. Na contramão, jovens entre 15 e 25 anos (às vezes até mais) trocam experiências na web e aconselham outras pessoas a praticar jejuns suicidas, com o pretexto de estarem cultuando um “estilo de vida”. Um perigo, segundo especialistas, que alertam para ocorrências de até 20% de mortes nos casos onde o tratamento chega tarde demais.
Não se sabe ao certo quantos portadores de bulimia há hoje no País. Calcula-se que 2,4% das mulheres adultas - e uma parcela oito vezes menor de homens, apenas 0,3% - desenvolvam bulimia ao longo da vida, de acordo com o estudo de Laura Andrade, Valentim Gentil e Ruy Laurenti, todos da USP, publicado em 2002 na Social Psychiatry and Psychiatric Epidemiology. Informalmente, profissionais da saúde francanos apontam para um aumento de 20% e 5% por ano dos casos de pacientes com os distúrbios de anorexia e bulimia, respectivamente.
De acordo com a nutricionista Ângela Figueiredo Soares, se descoberto no início e tratado imediatamente, dá para se reverter o processo depressivo das doenças. “Mas é necessário um trabalho multidisciplinar para cuidar dos jovens.
Psicoterapeutas, médicos e nutricionistas têm que trabalhar em conjunto nestes casos”, disse Ângela.
AUTO-IMAGEM
A estonteante perfeição física do deus grego Apolo não lhe garantiu uma vida amorosa feliz: esse galã mitológico era sistematicamente rejeitado por outras divindades ou mesmo pelos mortais comuns. Mesmo sem a garantia implícita de que as formas harmoniosas assegurem a aceitação social, homens e mulheres não aprenderam a reconhecer a própria imagem no espelho e, por isso, perseguem o ideal de beleza física do momento.
Segundo a psicoterapeuta e psicóloga Valéria Vieira Balieiro, é nesta fase que o processo de autoflagelação tem início. “Na adolescência, os jovens se deparam com a imagem dos padrões impostos pela mídia. É uma fase de insegurança, em que os adolescentes ficam suscetíveis às críticas e à questão de grupo: ‘O que os amigos vão pensar e dizer ao seu respeito’”, conta Valéria.
Para piorar, nem sempre os sintomas chamam a atenção dos pais. “A maioria das pessoas que possuem este problema esconde da família ou dos amigos”, disse. Para a psicóloga, os pais têm que assumir a doença e enfrentá-la junto com o filho. “Uma das causas principais das doenças é a falha na estrutura familiar”, afirmou a profissional.
NOVELA
Um caso de bulimia está servindo de gancho para a trama da novela Páginas da Vida, da Rede Globo. A personagem de Raquel de Queiroz vive sendo chamada de gorda pela mãe Anna Maria (Deborah Evelyn). Sem conseguir se afastar dos doces, a pequena bailarina encontra uma forma de comer o que quer sem que sua mãe saiba. Logo depois que ingere os alimentos proibidos por Anna, Giselle procura um banheiro para vomitar. A garota sofre em silêncio.
colaborou Paula Faciroli
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