<p>Desde a Antiguidade, sabe-se que o inverno é uma época propícia ao aparecimento de doenças cardíacas. A baixa temperatura do corpo nesta época do ano obriga o coração a trabalhar mais, pois ocorre a contração ou vasoconstrição das artérias periféricas, o que aumenta a pressão arterial. Se a pessoa tiver obstruções nas artérias coronárias, elas não terão capacidade de transportar mais sangue, o que pode levar a um infarto do miocárdio. </p>
<p>Recentemente, dois casos de infarto fulminante de pessoas públicas chamaram a atenção para o assunto. O humorista Cláudio Besserman Vianna, o Bussunda, teve um ataque cardíaco fulminante durante a cobertura da Copa da Alemanha. Em Franca, o diretor administrativo do Sindicato das Indústrias de Calçados de Franca, Américo Pizzo Jr., também teve um infarto fulminante e morreu no dia 23 de julho deste ano. Mas quais os principais fatores que podem levar uma pessoa a sofrer um infarto fulminante? Há algum sinal prévio de que isso possa acontecer? Como se prevenir de doenças cardíacas? O inverno realmente influencia no aumento desses casos?</p>
<p><br />O médico Edson Alves Margarido, 54, diretor técnico da Santa Casa de Franca e especialista em cirurgia cardíaca, é uma referência na cidade quando o assunto é coração. Atuante no Hospital do Coração desde a sua criação, em 1988, e na Santa Casa desde março de 1984, ele concedeu a seguinte entrevista ao Comércio da Franca: </p>
<p><strong>Comércio da Franca - No inverno, costuma-se dizer que as pessoas estão mais predispostas a ter ataques do coração. Isso é verdade? Quais doenças cardíacas são mais perigosas nessa época?<br />Edson Alves Margarido</strong> - No inverno, com o tempo mais frio, as pessoas tendem a se movimentar mais, elevando o nível do metabolismo para produzir mais energia e, conseqüentemente, mais calor. O frio também provoca vasoconstrição, ou seja, a contração das pequenas artérias da pele e dos músculos, elevando a pressão arterial. Esses dois fatores, o aumento do metabolismo e a elevação da pressão arterial, exigem mais trabalho do coração e aumentam o consumo de oxigênio pelo músculo cardíaco. A necessidade de mais oxigênio é suprida por mais sangue, que vem pelas artérias coronárias. Se a pessoa tiver obstruções nas coronárias, elas não vão ser capazes de transportar mais sangue, o que pode levar a um infarto do miocárdio. As doenças mais perigosas nesta época são a doença coronariana e a hipertensão arterial. </p>
<p><strong>Comércio - No dia 23 de julho, faleceu de infarto fulminante no miocárdio, aos 54 anos, o diretor administrativo do Sindicato das Indústrias de Calçados de Franca, Américo Pizzo Jr. Há algum sinal específicos de que a pessoa possa vir a ter um infarto ou ele é súbito? Quais as formas de prevenção?<br />Margarido</strong> - Na maioria das vezes, as pessoas têm dor no peito no momento em que estão tendo um infarto. Porém, em algumas situações isso não acontece, como, por exemplo, nos diabéticos. Muitas vezes, a sensação é de apenas um mal-estar, às vezes confundido com uma má digestão, porque é comum o infarto instalar-se após uma refeição volumosa. Como prevenção, recomenda-se que homens acima dos 40 anos e mulheres após a menopausa façam exames rotineiros, que consistem em eletrocardiograma, teste ergométrico, dosagem da glicemia e do colesterol, pelo menos anualmente, ou a qualquer momento, se surgirem sintomas de dor no peito, mal-estar súbito, tonturas ou perda da consciência sem explicação aparente. </p>
<p><strong>Comércio - Quais as principais formas de prevenção e indicações para doenças do coração? Qual o momento em que a pessoa deve procurar um cardiologista?<br />Margarido</strong> - O ideal é fazermos o que se chama de prevenção primária, que consiste em se evitar o aparecimento da doença coronariana, que é a forma mais grave e mais freqüente das doenças do coração. São medidas de modificação dos hábitos de vida para se controlar os fatores de risco modificáveis, como situações que comprovadamente contribuem para a doença coronariana, entre eles, o tabagismo, hipertensão arterial, diabete, obesidade, alterações nos níveis de colesterol e triglicerídeos, sedentarismo e estresse. Há um outro fator de risco muito importante, que é a herança familiar, mas este infelizmente não pode ser mudado. Quanto aos modificáveis, as principais medidas são: alimentação saudável, manter atividade física constante e regular, sem exageros; parar de fumar (isto é obrigatório); perder peso; controlar o nível de estresse; controlar a pressão arterial e o diabete. É importante notar que a alimentação saudável, a prática de atividade física regular e a interrupção do fumo vão influenciar em todos os fatores de risco. Desta maneira, pode-se reduzir muito o risco de infarto sem gastar muito dinheiro, apenas tendo uma vida melhor. Deve-se procurar o médico cardiologista para orientações quanto a todas essas atitudes de mudança, acompanhamento de seus resultados e realização de exames periódicos para avaliação das condições do coração. Isto falando-se em prevenção. Sempre que surgirem dores no peito o cardiologista deve ser procurado, lembrando que o infarto leva de 6 a 12 horas para se instalar, portanto não se pode esperar muito tempo para procurar um médico. </p>
<p><strong>Comércio - Por que uma emoção forte pode provocar um enfarte?<br />Margarido</strong> - Um estado de forte emoção libera grande quantidade de adrenalina na corrente sangüínea e esta adrenalina tem três efeitos sobre o coração: aumenta a força das contrações, aumenta o número de batimentos e provoca vasoconstrição (estreitamento das coronárias). Além disso, provoca elevação da pressão arterial. Isto tudo faz com que aumente o trabalho realizado pelo coração, o que requer mais sangue nas coronárias. Se a pessoa tiver alguma obstrução, não vai haver aumento na quantidade de sangue oferecida ao músculo cardíaco. É esta falta de sangue que vai causar a morte das fibras de determinada área do coração, e isto é o infarto. </p>
<p><strong>Comércio - Existe alguma idade específica ou grupo de risco com mais chances de desenvolver doenças cardíacas?<br />Dr. Margarido</strong> - A doença coronariana está atingindo uma população cada vez mais jovem, e isto é decorrente dos hábitos de vida que os jovens têm hoje. Não se vê mais meninos jogando bola nas ruas, andando de bicicleta, praticando esportes. O passatempo mais comum hoje é ficar sentado em frente a um computador. As exigências de educação na formação profissional também são cada vez mais crescentes, o que eleva o nível de estresse e reduz o tempo de lazer. Esta pressão diminui o tempo que os jovens têm para a alimentação, que é cada vez menor, o que leva ao consumo exagerado de fast-food. Tudo isto faz com que os jovens estejam expostos aos fatores de risco cada vez mais cedo, aumentando o depósito de colesterol nas artérias coronárias e os riscos de doença coronariana. A deposição de colesterol nas artérias inicia-se por volta dos 10 anos de idade, portanto nunca é cedo demais para se iniciar a prevenção primária .<br /></p>
<p><strong>Comércio - Histórico de doenças cardíacas na família é um sinal de que os descendentes poderão desenvolver os problemas?<br /> Margarido</strong> - Existe uma tendência familiar na doença coronariana. Isto não quer dizer que quem tem pais ou irmãos com histórico de infarto obrigatoriamente também vai ter problemas. Porém, sua chance é muito maior. Estas pessoas devem ser mais exigentes ainda no controle dos fatores de risco e devem fazer acompanhamento com cardiologistas desde cedo. </p>
<p><strong>Comércio - Há algum tipo de primeiros-socorros quando alguém tem um ataque do coração?<br />Margarido</strong> - A melhor atitude é levar esta pessoa a um serviço de atendimento de urgência, de preferência a um local que tenha cardiologistas sempre presentes. Em alguns países da Europa e na América do Norte, existem treinamentos para leigos poderem tomar medidas que podem ser salvadoras. Isto inclui o uso de desfibriladores portáteis automáticos, que são aparelhos que reconhecem arritmias graves e liberam um choque elétrico ao coração, o que pode salvar a vida de quem esteja tendo uma parada cardíaca. Nesses países, esses equipamentos são obrigatórios em locais de grande concentração de pessoas, como estádios esportivos, teatros e grandes edifícios públicos. No Brasil, não temos nada semelhante. Há apenas projetos de lei, que esbarram no custo da implantação deste sistema.</p>
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