Ser pai não é fácil. Não se resume à concretização da função reprodutiva. Afinal, há pais adotivos que dão mais amor do que os de sangue. Pai de verdade é mais. Penso que o maior pecado dos pais é o extremismo, para baixo ou para cima. É preciso encontrar um meio termo, pois o excesso para cima redunda em tirania; para baixo, é omissão. Um septuagenário compareceu com o filho a uma audiência na vara criminal. O filho havia praticado um ato obsceno; por ser primário e sem antecedentes, recebeu proposta de pagamento de uma multa no prazo de 30 dias para ver arquivado o processo. E aceitou. Observei que o filho quase não falava; era só o pai que o fazia. O juiz alertou que o arquivamento dos autos estava condicionado ao efetivo cumprimento do acordo. O pai, olhando sério para o filho, respondeu: “ele vai pagar”, como se dissesse: “eu o faço pagar”.
Marcação cerrada mesmo. Tudo seria muito bacana se o filho não tivesse... 35 anos, curso superior e capacidade de responder pelos próprios atos. E o oposto? Numa matéria de revista, uma garota revelou que queria um pai, nem que fosse para levar broncas dele. Ela tinha pai, só que ele era indiferente a ela e a tudo que lhe dizia respeito. Ela, é claro, sentia falta dele. Dois extremos.
Sei de dois rapazes nascidos de uma aventura do pai fora do casamento. O pai os levou consigo. Nunca conheceram a mãe, mesmo deixando ver que isso era o que mais poderiam desejar na vida. O pai não permitiu. Um deles, angustiado, enveredou para o álcool e morreu jovem. O outro vive na esperança de realizar o sonho. De vez em quando, corroído pela saudade de alguém que não conhece, o olhar preso no vazio, diz: “eu queria ver como ela é”. Fica claro que, mais do que isso, sonha em vê-la, abraçá-la, rir e chorar com ela. O pai é o obstáculo. Pai?
Há pais que abusam sexualmente das filhas e até, num cúmulo de perversão, dos filhos. Tem pai que só admite ter filho e não esconde a frustração quando descobre que o feto é do sexo feminino. Não é difícil adivinhar que a filha, em muitos casos, acaba ignorada. Pai existe que não gosta do filho ou da filha porque sua mulher morreu no parto. Tá cheio de pai que abandona mulher e filhos por causa de outra mulher, forma nova família e esquece, literalmente, a primeira. Há os que gostam dos filhos se estes se transformam num bom retorno financeiro, como o pai de Julien Sorel, do romance “O Vermelho e o Negro”, de Stendhal.
Filhos há que são só extensão dos pais, pois estes querem
realizar-se pessoalmente à custa daqueles, suprimindo-lhes a infância e jogando-lhes mil coisas para aprender, a fim de que sejam aquilo que eles pais queriam ser e não conseguiram. Também há os pais bem-sucedidos que não admitem que os filhos também não o sejam. Existem ainda pais que têm preferência explícita por certos filhos, em desprezo de outros. Os filhos preferidos serão sempre queridinhos, mesmo que ordinários. Já os outros só recebem alguma atenção enquanto fazem tudo para agradar, e caem em desgraça se cometem o mínimo deslize, mesmo que imaginário. Para quem gosta de filmes, uma dica: “Hora de Voltar”.
Tenho uma teoria: pai de verdade precisa ter data de validade. Dirão: “qual, pai é para sempre”. Eu explico. Pra mim, pai é pai enquanto os filhos não têm discernimento nem capacidade de cuidar de si, e necessitam de uma mão firme para dar-lhes força e direção. No momento em que os filhos adquirem a condição de dar rumo à própria vida, o pai deve passar para a categoria de amigo. O amigo não cobra nada, não se importa com os defeitos, não joga o mundo nas costas do outro. Amigo é uma porta que se abre quando outras se fecham, é a mão que se estende quando as outras se retraem. O amigo ajuda o outro não para salvar a própria imagem; ajuda porque gosta do outro. O pai amigo não se importa se os filhos o acham ridículo, até por saber que, na ordem natural das coisas, eles só pensarão assim até terem seus próprios filhos. A certos pais os filhos fazem de tudo para tolerar; dos amigos, porém, gostam sem precisar se esforçar. O septuagenário a que me referi no início agiria diferente se fosse só amigo do filho, não faria de tudo para mostrar que o domina com rédeas curtas. Afinal, no ciclo normal da vida, os pais um dia se vão e os filhos ficam. Um pai amigo impediria os filhos de conhecer a mãe? Quantos jovens não estariam fora do mundo das drogas, do crime, se tivessem pais amigos? Em suma: o pai que está achando difícil lidar com os filhos deveria, a meu ver, experimentar ser só amigo. Um abraço a todos os pais.
Especialmente aos amigos.
PAULO PEREIRA DA COSTA é promotor de Justiça
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.