Nos Estados Unidos a FDA, Food and Drug Administration, (o equivalente à Agência Nacional de Vigilância Sanitária) liberou para uso restrito um medicamento produzido a partir de uma substância capaz de deixar o paciente acordado por até 96 horas.
Reportagens publicadas no Brasil em revistas de grande circulação alardeiam que em terras tupiniquins o medicamento ainda não possui registro e, portanto, não está disponível no mercado oficial.
Sim, porque no câmbio negro provavelmente já seja possível encontrá-lo.
Ao ler as reportagens fiquei intrigado com algumas informações e gostaria de compartilhar com você leitor minha inquietação:
1º. “Conhecida pelo nome genérico de modafinil, a substância é capaz de manter desperta uma pessoa por até quatro dias, sem provocar cansaço ou falta de atenção”. Como assim, quatro dias acordado sem se sentir cansado? Sem perder a capacidade de atenção?
2º. “Desde 1998, com a denominação comercial de Provigil, está à venda em mais de vinte países. Mas exclusivamente para o tratamento de narcolepsia, distúrbio neurológico raro que faz o doente adormecer inesperadamente no decorrer do dia”. Quantos milhões de pacientes sofrem de narcolepsia no planeta? E esse exclusivamente?
3º. “Há dois meses, a FDA, a agência americana de controle de remédios e alimentos, liberou a venda do medicamento também para quem sofre com a sonolência diurna causada pela apnéia (paradas repetidas e temporárias da respiração durante o sono) e para aqueles que trabalham em turnos prolongados”. E para aqueles que trabalham em turno prolongado? Meu Deus do céu. Agora o bicho pegou mesmo. Como assim? Vamos legalizamos o “rebite”?
4º. “O mecanismo de ação do medicamento no cérebro é pouco conhecido...”. Isso mesmo. O mecanismo de ação é pouco conhecido.
5º. “A maior pesquisa com o remédio foi feita pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos, que gastou 100 milhões de dólares para testar o medicamento em soldados”. Veja bem, uma arma de guerra com capacidade de fazer do ser humano um verdadeiro “zumbi”. Isso deve reduzir em pelo menos quatro vezes o número de soldados necessários em uma guerra, afinal de contas os turnos serão de quatro em quatro dias. Ou, o que seria melhor, ampliaria em quatro vezes o poder de guerrear de um exército.
6º. “A expectativa em torno do modafinil é compreensível num mundo em que o tempo nunca parece ser suficiente”. Como assim? Não Entendi! Vamos ficar acordados por mais tempo, logo teremos mais tempo para fazermos nossas tarefas. Certo? Também para ir às compras, gastar mais dinheiro e, portanto, termo que ficar mais tempo acordado, para trabalhar e pagar mais contas.
7º. “Nos Estados Unidos, a droga tem sido consumida por motoristas de ônibus, executivos sobrecarregados de trabalho ou pessoas que simplesmente querem ficar acordadas por mais tempo”. Ah bom! Nos Estados Unidos.
8º. “Um risco adicional é ficar muito tempo sem dormir. É durante o sono que o organismo libera o hormônio do crescimento e que ocorre o processo de cicatrização de ferimentos. Acredita-se que a organização da memória ocorra quando estamos adormecidos. Ninguém sabe o que pode acontecer se não for mais necessário dormir”. Isso, agora tudo faz sentido. A nova substância age de maneira não muito bem conhecida, e sobre o que pode ocorrer com quem pare de dormir ainda é um mistério.
9º. “O remédio se tornou uma febre. As vendas passaram o patamar dos US$ 150 milhões só neste ano”. Mas, e o exclusivamente? Precisa falar mais alguma coisa.
É ou não é de tirar o sono.
ALEXANDRE LEONEL é farmacêutico, mestre em Promoção da Saúde e membro do Conselho de Leitores do Comércio da Franca.
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