Há 6 mil anos já havia vida humana em Franca. Não se sabe muito bem que homem era esse e em que cultura vivia, mas a informação está aí, comprovada com objetos que datam dessa época, para quem quiser pesquisar.
Embora poucas pessoas saibam, a região de Franca é considerada riquíssima em vestígios arqueológicos. Por isso ela entrou na rota do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) para educar a população com relação à proteção do patrimônio cultural e arqueológico da cidade. O primeiro curso sobre o assunto acontece nesta segunda-feira, no teatro municipal, e será ministrado pelo professor Marcelo Pini, pesquisador do MAE (Museu da Arqueologia e Etnologia da USP), mestre em arqueologia, doutor em ciências da cultura material e pós-doutor em ordenamento territorial e patrimônio cultural sustentável. Tem o apoio do MAE, da Secretaria Municipal de Educação, do Arquivo Histórico Municipal “Capitão Hipólito Antônio Pinheiro” e do Condephat (Conselho de Desfesa do Patrimônio Histórico, Artístico e Turístico de Franca).
Ao todo, o curso será dividido em três partes. A primeira, que acontece na segunda-feira, será uma palestra sobre educação patrimonial, na qual se falará sobre o patrimônio cultural brasileiro, a legislação de proteção desse patrimônio, métodos e técnicas da arqueologia e os vestígios da presença humana na região de Franca. A segunda parte serão oficinas para um grupo reduzido de pessoas, nas quais será usado um kit pedagógico composto por material audiovisual, apostila, cartazes, réplicas científicas de artefatos da Roma Antiga, Grécia e Egito, além de peças originais da arqueologia brasileira pertencentes ao MAE. A terceira parte é uma exposição desse material, ainda sem data marcada, que será aberta a qualquer pessoa que quiser conhecer.
Mais de 200 pessoas se inscreveram para o curso de segunda-feira. “É um assunto pouco conhecido e explorado, por isso desperta tanto interesse”, diz Marcelo. Segundo ele, essa é a primeira vez que esse curso e essa exposição saem da Grande São Paulo e viajam para uma cidade do interior. “Esse é um primeiro passo de um projeto maior, que prevê um centro de estudos sediado na cidade”, diz.
Comércio da Franca - Por que trazer esse curso para Franca?
Marcelo Pini Prestes - O objetivo é sensibilizar a região, porque nós temos um patrimônio cultural e arqueológico muito rico e que nunca foi estudado. O único pesquisador que estudou essa região foi José Anthero Júnior, em 1957. Ele fez uma coleta de superfície, sem um trabalho muito sistemático, e com isso formou um dos maiores acervos do Estado de São Paulo, que hoje está guardado na reserva técnica do Museu Paulista, mais conhecido como Museu do Ipiranga. É um dos maiores acervos de cultura ceramista, de povos que a gente ainda não conhece, e foi recolhido na nossa região, nos limites entre o Rio Grande e o Rio Sapucaí.
Comércio - O que é que tem nesse acervo?
Marcelo - São Urnas funerárias, artefatos como machados muito frágeis, que devem estar ligados ao imaginário religioso, além de colares de contas, cristal, pontas de flecha de quartzo rosa, branco e fumê. Tem algo muito curioso, que são urnas de 1,20 metro de altura feitas na tradição Sapucaí, ou seja, com um tipo de barro que só era encontrado nessa região.
Comércio - Qual o registro mais antigo de vida em Franca?
Marcelo - O que a gente sabe com datação de artefato é que há presença de vida humana na nossa região em torno de 6 mil anos atrás.
Comércio - E o que isso significa?
Marcelo - A partir desse dado, várias questões podem ser levantadas. Como é que durante 6 mil anos o ser humano viveu aqui e conseguiu interagir com o meio ambiente sem deteriorá-lo, ou seja, de uma forma sustentável? A gente também pode perguntar até quanto a região de Franca suporta uma expansão urbana e habitacional de qualidade a partir de análise de vestígios arqueológicos.
Comércio - Esse curso, que começa na segunda-feira, é o primeiro passo para um projeto maior. Que projeto é esse?
Marcelo - O objetivo é estudar a presença humana na região e montar um centro de pesquisa sobre o homem do nordeste paulista, tendo a Universidade de São Paulo como parte do projeto. Hoje em dia, trabalhar com patrimônio não é somente preservar algo do passado. O patrimônio deve ser visto de uma forma sustentável, já que tem um potencial de desenvolvimento econômico para região muito grande. Veja o exemplo da Europa, que vive de turismo patrimonial, de turismo cultural. A receita anual da França por conta da visita ao seu patrimônio cultural pode ser equiparada à de países industrializados da Europa.
Comércio - Mas para que esse tipo de projeto tenha um bom resultado é preciso fazer um bom trabalho de educação da população.
Marcelo - Exatamente. A base de tudo é a educação patrimonial. Se não houver uma capacitação com os moradores, não adianta nada todo esse trabalho. Por isso resolvemos começar com esse curso.
Comércio - Há alguma chance de o acervo da região que está em São Paulo vir para a cidade?
Comércio - Ao criar o centro, imaginamos que poderemos trazer o acervo que está no Museu do Ipiranga para cá. Essa, aliás, é uma tendência dessa área de pesquisa: fazer com que o conhecimento fique no local onde foi gerado. Com isso, ainda esperamos gerar desenvolvimento econômico para a cidade na área de turismo cultural.
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