A menos de duas semanas do horário obrigatório de propaganda no rádio e na televisão, já é possível dizer que a campanha presidencial terá duas características: a) será morna nas ruas, com poucos comícios e sem grandes demonstrações de massa; b) será agressiva na mídia eletrônica, e dominada pelo debate sobre a ética e a honestidade dos políticos.
A descoberta do escândalo das sanguessugas e a abertura de uma CPI mista no Congresso para investigá-lo aumentaram a probabilidade de que esse cenário se confirme. Nem é preciso dizer que, nesse caso, o prejuízo maior deverá ser do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Se é verdade que a fraude das ambulâncias envolve mais de 100 parlamentares, também é verdade que ela não seria possível sem a participação de intermediários no governo central. E isso atinge a imagem presidencial.
O fenômeno da desmobilização popular não será novidade. Seu primeiro registro ocorreu nas eleições municipais de 2004, como conseqüência da chegada do PT ao poder. Além da decepção com os primeiros escândalos do governo Lula, o militante petista se desiludira diante do conservadorismo da política econômica, já então avaliada como um clone ortodoxo da economia de FHC.
Esse quadro deve se agravar agora. Em primeiro lugar, porque o PT não terá o volume de dinheiro que o então tesoureiro Delúbio Soares gastou em 2004 para mandar militantes pagos às ruas. Aquele dinheiro, hoje se sabe, provinha de recursos públicos desviados no esquema corrupto do Mensalão.
Em segundo lugar, a justiça eleitoral proibiu os showmícios animados por artistas populares, que eram pagos a peso de ouro. As massas que corriam para ver seus ídolos dificilmente se animarão a fazer o mesmo para ouvir discursos. A não ser que seja de alguma forma paga. Mas também essa prática tornou-se arriscada, pois foi proibida pela lei eleitoral.
Sem o entusiasmo das ruas, restará o espaço virtual. Em relação à internet, pode-se afirmar que a rede mundial de computadores substituiu as demonstrações de rua. Foi nas suas avenidas e praças que se travaram, no ano passado, as grandes batalhas de opinião na campanha do referendo das armas. A propaganda no rádio e na TV acabou se tornando o instrumento de difusão dos resultados desse luta virtual pública.
É por isso que o site do PT na rede encoraja os internautas petistas ao proselitismo da reeleição. Foi por entender a relevância da campanha virtual que o ex-blog do prefeito do Rio, César Maia, foi invadido por hackers, clonado e remetido aos mais de 10 mil assinantes do serviço com textos que destratavam o prefeito. Maia domina como poucos a arte da guerrilha política virtual, que pôs a serviço das campanhas do tucano Geraldo Alckmin e da ex-petista Heloísa Helena.
A campanha do referendo das armas deixou os maiores ensinamentos sobre eleições em tempo real. Começou na internet a reação ao “sim” à proibição da venda de armas, que tinha apoio nas pesquisas de 75% dos eleitores. Grupos de guerrilheiros virtuais disparavam suas armas dia e noite a favor do “não”, na forma de piadas, artigos, charges, fotos e vídeos. Organizou-se uma passeata virtual pelo “não”, que partiu com uma pessoa de São Paulo e chegou a Brasília no dia do referendo com mais de três milhões de adeptos.
Em resumo: o presidenciável que se sair melhor na internet terá meio caminho andado, desde que consiga transmitir pela TV o peso da opinião que formar entre os ativistas virtuais.
Ariosto Teixeira é mestre em Ciência Política pela Universidade de Brasília (UnB) e analista político.
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