Com um sorriso no rosto e olhar atento a suas obras, Claricinda Maciel, 63, aluna da Apae (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais) de Batatais, está curtindo a popularização de seus quadros. Ela começou a pintar há apenas cinco anos, mas já está chamando a atenção de muita gente. No ano passado, um de seus quadros foi leiloado pela entidade no seu tradicional leilão beneficente anual por R$ 10 mil.
A extrema delicadeza de Claricinda, portadora de deficiência mental, é visível em suas pinceladas. Suas obras parecem brotar da alma, são uma verdadeira expressão de sentimentos. Basta observar um de seus quadros para concluir que se trata de uma artista muito especial - reúne o talento de pintar aquilo que deseja, no estilo que achar mais apropriado, surpreendendo pela versatilidade no manejo das mais variadas técnicas e na abordagem de diversos temas.
Concentrada na pintura de um de seus quadros, mas atenta a tudo que acontece a sua volta, Claricinda, apesar de ter pouca expressão oral, conversa a seu modo e faz questão de mostrar detalhes da nova obra, como os sapatos dos personagens que pinta. Segundo a coordenadora de eventos da Apae de Batatais, Mércia Lança Lopes, Claricinda nunca se esquece de “calçar” seus personagens.
Na mesma obra, assim como na maioria das outras, é possível observar uma das características mais marcantes da aluna: ela reproduz nos personagens os olhos de seu irmão, João Batista Figueiredo, 60, com quem mora, também deficiente mental e aluno da Apae. “A ligação dela com o irmão é muito forte. Eles vivem sozinhos e é ela quem cuida dele. Já observamos que em todas as obras ela retrata os seus olhos”. Quanto aos temas, Claricinda mostra uma preferência em retratar cenas rurais, um dos pontos fortes da produção da artista. Destacam-se, por exemplo, cenas de casas em fazendas, animais e paisagens naturais.
Mércia conta que Claricinda é uma aluna muito criativa e não espera orientação para começar seus trabalhos. Sempre muito prestativa, ajuda os colegas que porventura estejam com alguma dificuldade.
Outro fator que desperta a atenção é o processo de criação de Claricinda. Ela adota o estilo fascinante de olhar uma realidade e recriá-la com o livre uso da imaginação. É o caso de um quadro em que retratou a visita do padre Antônio Maria à Apae de Batatais, há cerca de cinco anos, quando seu talento passou a ser reconhecido por um número maior de pessoas. “O padre faria uma visita em todas as salas da Apae. Como não haveria tempo suficiente para isso, ele ficou parado em um dos corredores, conversando com as pessoas e havia muita gente ao seu redor”, lembra Mércia. Algum tempo depois, Claricinda, que, segundo a coordenadora, observou toda a cena paralisada, conseguiu reproduzi-la fielmente em um quadro.
Mais que belas obras, da aluna sobressai a capacidade de redescobrir a arte, exibindo sentimentos, explorando emoções e cativando sempre mais gente. Além dos trabalhos que desenvolve na oficina de artes da Apae, Claricinda participa de outras diferentes atividades da entidade, busca a convivência social, a troca de experiências e companhia.
Mércia explicou que a aluna e o irmão dela são assistidos integralmente por profissionais da Apae. “Não há registro sobre a infância dos irmãos, mas há indícios de que sofreram maus-tratos quando crianças. Sabemos apenas que eles vieram de São Paulo. Hoje, vivem sozinhos, mas passam o dia todo aqui. Fazem todas as refeições, participam das atividades e, no final do dia, tomam banho e vão para casa dormir”, afirmou.
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