Correm pela casa sete crianças, entre 2 e 12 anos, brincando juntas, ignorando as diferenças religiosas, tentando apagar as recentes cenas de horror que foram obrigadas a presenciar nas últimas semanas.
Bombas caindo, a casa destruída, a fuga em busca de refúgio, dias sem ver comida, sem ver o pai, os alarmes que as acordavam de madrugada. Imagens de guerra que para sempre estarão na memória desses pequenos libaneses das famílias Najem e Kamary. Mas, também, se lembrarão eternamente da casa dos Issa, que os resgataram e abriram a casa para suas famílias, impedindo que esses quatro meninos e três meninas se somassem às mais de 200 crianças mortas em 16 dias de conflito.
Youssef Fahim Issa, 67, nasceu libanês, veio para Franca na adolescência, escolheu ser brasileiro há cerca de 40 anos. Brasileiro sim, mas nunca deixou de ser libanês, nunca se esqueceu os imponentes cedros sobre as montanhas de sua terra natal, nem o azul sereno do Mediterrâneo. Por certo, Fahim nunca se esqueceu de sua família. Alguns parentes, mortos em outra guerra nos anos 70, ele jamais poderia voltar a ver. Mas, aos 67 anos, viajou para o Líbano para visitar seus familiares que ainda residem na cidade de Bakarzala, em especial a mãe, de 91 anos.
Os olhos da mãe de Youssef já viram mais de seis guerras, a grande maioria depois de 1948, quando foi fundado o Estado de Israel. Os novos moradores da região, de tempos em tempos, buscam abocanhar um pedaço do território dos vizinhos sem se importar com quantas pessoas tenham que matar.
Umas “colinazinhas” da Síria, um vale fértil da Jordânia, uma península do Egito, um porto do Líbano, e toda a terra dos palestinos, que hoje nem têm um Estado. Essa senhora jamais esqueceu, as crianças jamais esquecerão.
O comerciante francano Youssef não esperava ser surpreendido por uma nova incursão israelense em sua terra natal, bem durante a visita. E ao invés de voltar para o Brasil gratuitamente nos vôos da FAB (Força Aérea Brasileira), que traz de volta aqueles que querem deixar o país em conflito, Youssef preferiu ficar, cuidar da mãe e ajudar seus amigos. A cidade de Bakarzala, onde vivem os Issa, fica no norte do país, onde os bombardeios foram bem menos intensos; já a região sul, onde os Najem (muçulmanos) e Kamary (católicos) residiam, foi arrasada por Israel.
Hussein Najem estava no Vale do Bekaa, quando sua casa foi destruída e sua mulher, Haichee, teve que sair a pé, deixando tudo para trás com suas crianças em busca de refúgio.
Permaneceram dias na grande mesquita da cidade de Saida, também ao sul do país. Najem, isolado no Bekaa, apelidado recentemente de “O Vale da Morte”, venceu a pé e com algumas caronas mais de 150 quilômetros das áridas e constantemente bombardeadas montanhas para se encontrar com as crianças e a mulher. Ele ligava sempre que podia a Youssef, que também se mantinha em contato com o restante da família. O francano organizou o resgate dos Najem. A Cruz Vermelha levou Haichee e seus filhos até a mesquita de Sinesil, na Grande Beirute, onde se encontraram com o exausto Hussein, sendo resgatado de van pelo sobrinho de Youssef e todos levados a Bakarzala, uma cidade segura. Lá dividem a casa com os Issa e a família de Tony Kamary (Tony, a mulher e seus filhos de 2, 5 e 7 anos), outra família que contou com a generosidade de Youssef.
O comerciante se recupera de uma cirurgia no olho esquerdo realizada no meio da semana, o que o impediu de ir pessoalmente buscar os amigos. “Mas segunda-feira eu vou ao médico; espero que ele me deixe sair de casa. Porque estou tendo que ficar só em casa, repousando”, contou à reportagem do Comércio no sábado.
Youssef contou que todo mundo ajuda nas tarefas de casa, cozinha, cuidados com as crianças. Fazem tudo juntos. “Virou uma família”. “E na hora de rezar?”, ousou perguntar este editor. “Cada um reza do seu jeito. Aqui em casa não tem problema. Todos são filhos de um Deus só”, respondeu o cristão Youssef.
Youssef está bem, mandou falar para a família no Brasil. Ele está falando bem mais e mais animado do que no meio da semana, quando esteve em Nakash (na Grande Beirute) para fazer a cirurgia, onde seu olho direito viu tantas crianças no Hospital e os subúrbios da metrópole transformados em escombros. Ele fala com saudade dos filhos, do jogo de truco no bar do Piloto e do café na Praça Barão; fala com revolta de Israel e dos Estados Unidos, que os apóiam. Fala com orgulho do povo libanês, que nunca esteve tão unido. Fala com alegria e satisfação do cotidiano na casa lotada.
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