Dizem que o bicho mais ignorante é a galinha, pois ela só sabe contar até três; colocados dois grãos de milho no chão, o primeiro preso e o segundo solto, ela passa para o segundo depois de bicar o primeiro, mas se o grão solto for o quarto ela fica confusa. Mesmo assim a galinha não faz mal nenhum. Pelo contrário, doa a carne e os ovos para matar nossa fome. O bicho homem, que é inteligente e se diz criado à imagem e semelhança de Deus, é porém o mais nocivo à vida na Terra, e não é necessário mencionar aqui nenhum exemplo disso.
No Juizado Especial Criminal é comum ouvir dos autores de agressões, ameaças, etc. que praticaram os crimes porque estavam descontrolados, irritados. Isso explica o ato criminoso, mas não o justifica. Cá entre nós, só faltava dizerem que o crime foi cometido quando estavam calmos, relaxados. Ora, é evidente que praticaram o crime porque não tiveram disposição de lutar contra o próprio sentimento que os impulsionou. Qualquer pessoa sabe que é possível evitar atos insensatos se houver autocontrole. O problema é que há uma distância enorme entre o desejo e a ação.
Há em nós um desejo ardente de paz, mas esse desejo é na realidade mera veleidade, pois acaba cedendo a dificuldades normais da vida, e então praticamos atos insanos porque achamos mais fácil nos deixar levar pelo impulso do que tentar dominá-lo. Tiramos a paz dos outros e a nossa própria, pois depois bate o arrependimento, pesa a consciência, e mesmo assim a gente teima em não reparar o erro. Isso é a causa de grande parte das nossas doenças.
Ter serenidade, equilíbrio é fácil quando não há nada a nos perturbar. Assim como um objeto não se move sem um estímulo externo, um ser humano não age ofensivamente quando tudo está do seu agrado. Ficar tranqüilo quando tudo está bem é fácil e não deve ser motivo de júbilo. Não há mérito em ser pacífico quando tudo é paz. Só existe grandeza quando se mantém o equilíbrio e a calma diante de problemas. A paz com o meio só pode ser atingida após implantada na esfera pessoal. Cada um deve estar em paz consigo mesmo para agir pacificamente com os outros. Para isso é necessário sair do primitivismo espiritual e buscar um estágio mais avançado de compreensão das coisas e de controle dos maus sentimentos. A maturidade emocional é o que transforma para melhor o ser humano, eleva-o, fá-lo agir movido por um imperativo moral, buscando ser agradável e útil aos que o rodeiam.
As pessoas normalmente sabem do que é preciso para uma melhor qualidade de vida no âmbito das relações humanas. Há milhares de livros de auto-ajuda que mostram o óbvio. Entretanto, não há uma disposição firme em vencer nossos próprios impulsos. É mais fácil culpar os outros por nossos infortúnios do que reconhecer nossos erros, ceder à raiva, à inveja. Há pessoas que preferem morrer a submeter-se a um pedido de desculpas, como se isso fosse diminuir o seu valor. Amizades, relações familiares são desfeitas por causa dessa falta de humildade e dessa resistência a primeiro corrigir os próprios defeitos e erros. Sabemos muito bem julgar mal os outros; consideramo-los indignos por defeitos que em nós vemos como virtudes. Muita gente diz seguir uma religião e como se deve agir em nome de Deus. Diz. Só que na prática, quando é necessário converter palavras em gestos, a doutrina é esquecida.
A vida seria infinitamente melhor se cada um efetivamente buscasse sedimentar uma forte base espiritual e agisse guiado por ela. Não é o Estado que vai resolver questões do foro íntimo das pessoas, como irmão que não fala com irmão, cônjuge que mata cônjuge, amigo que se indispõe com amigo. E não são pessoas sem estudo ou família. Cadê o amor? Fala-se tanto em amor, em Deus.
Precisamos (eu, mais do que ninguém) sair da retórica, ultrapassar o mundo metafísico e abstrato das palavras e convertê-las em ações; criar e cultivar o hábito do autocontrole, da paciência, da compreensão, da boa educação, da humildade. Bem menos do que isso, seguir o sábio conselho de contar até dez antes das más ações; é o tempo necessário para que se dissipem do espírito as nuvens negras que o encobrem. Deu vontade de ofender alguém? Contemos até dez. Estamos prestes a cair numa tentação? Idem. Sejamos mais inteligentes do que a galinha.
PAULO PEREIRA DA COSTA é promotor de Justiça de Piracicaba
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