Dizem que cachorro mordido de cobra tem medo até de lingüiça. Deve ser verdade. Quem já foi mordido pela medida eleitoreira do governo tucano ao lançar os medicamentos genéricos deve estar esperto com a iniciativa do governo “paz e amor” de criar o medicamento fracionado.
Na época os genéricos representavam a salvação do povo brasileiro, que teria acesso fácil e barato a medicamentos com qualidade inquestionável.
O que aconteceu?
Todo mundo já sabe. Os genéricos tiveram o maior aumento proporcional de preços.
Regra básica de mercado. Afinal, ninguém acreditou que os medicamentos de marca iriam diminuir seus preços. Sem precisar fazer concorrência e com publicidade estatal, foi fácil como tomar o doce de uma criança, na medida em que os medicamentos referência aumentavam seus preços, os genéricos foram se valorizando também.
Conclusão?
Continuamos vendendo “BOs”, o governo continua distribuindo “BOs” na rede pública e os genéricos viraram artigo de luxo.
Agora mais uma vez o assunto medicamento é usado como parte da plataforma mesquinha de se ganhar a qualquer custo uma eleição.
O Brasil está entre os cinco maiores consumidores de medicamentos do mundo, e nem por isso somos os mais saudáveis e felizes habitantes do planeta.
Consumimos medicamentos ultrapassados, condenados e proibidos em muitos lugares do mundo. Privilegiamos a cultura da medicalização em detrimento de programas efetivos de medicina preventiva.
Temos um número de farmácias 100 vezes maior do que o preconizado pela ONU.
Somos um verdadeiro tubo de ensaio de medicamentos inovadores. E se não bastasse tudo isso. Agora teremos medicamentos fracionados.Ainda que pese a admiração e amizade que tenho pelo atual presidente da ANVISA.
Obrigado a considerar que a indústria farmacêutica cria verdadeiras armadilhas para que o paciente tenha que comprar 43 cápsulas de um medicamento que só precisaria de 21, o fracionamento, diante da realidade farmacêutica e de saúde pública brasileiras, é uma bela jogada de marketing político.
No Brasil já existe medicamento fracionado há mais de 20 anos. E melhor, fracionado e personalizado. Isso mesmo.
Produzido sob encomenda, mediante receita médica ou odontológica, na quantidade ideal para o tratamento do paciente e com dosagem adaptada às suas necessidades fisiológicas.
São mais de 5 mil farmácias de manipulação espalhadas pelo país e que já cumprem o papel de produzir “medicamento na medida certa” (podiam ter usado como slogan), do tratamento e muitas vezes do bolso do paciente.
Teria sido mais fácil, mais prudente e até mais inteligente criar meios para que o segmento magistral se desenvolvesse ainda mais.
Incentivos a um setor que merece destaque não só pelos serviços prestados à comunidade, mas principalmente por significar um reduto intocável do farmacêutico.
É evidente que isso poderia contrariar interesses outros que não os da saúde pública.
Mas que mal há em ser justo.
Um amigo me disse que o melhor governo não é o bom. Mas sim o justo. O modelo de fracionamento apresentado, e que tem o apoio de diversas entidades farmacêuticas, legaliza o ilegal, regulamenta práticas já conhecidas dos consumidores e coloca em segundo plano um grupo importante de empresas e de profissionais ligados ao medicamento.
Se não, vejamos.
Quem nunca precisou de dois comprimidinhos de um laxante na noite anterior a um exame de Raio-X? E então o que aconteceu? Na farmácia a caixa com 20 comprimidos do tal medicamento era aberta e o balconista (às vezes até o farmacêutico) recortava do ‘blister’ a quantidade solicitada.
Fracionamento ilegal. Mas socialmente e politicamente correto. É claro que a lei de fracionamento atual não prevê nem autoriza essa prática, muito pelo contrário, estabelece que só podem ser fracionados aqueles medicamentos industrializados, entendeu, industrializados, especificamente para serem fracionados. Um novo filão do mercado para a indústria que mais cresce no mundo. Será cobra ou será lingüiça?
ALEXANDRE LEONEL é farmacêutico, professor de Legislação Farmacêutica e Sanitária, Mestre em Promoção da Saúde e membro de Conselho de Leitores do Comércio da Franca.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.