Francano no Líbano vai resgatar família de refugiados


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Um sexto dos libaneses se tornou refugiado em seu próprio país. No sul do Líbano, aqueles que não tiveram suas casas destruídas pela Força Aérea de Israel foram expulsos delas pelo Exército invasor. Essas pessoas fogem para o norte, onde a situação é um pouco melhor. O comerciante Youssef Fahim Issa, 67, libanês naturalizado brasileiro, morador de Franca há mais de 40 anos, viajou para o Líbano para visitar seus familiares e nesses dias de guerra não pode voltar para o Brasil, pois tem que cuidar da mãe de 91. Não bastasse isso, Youssef, francano por opção, decidiu ajudar os libaneses do sul, a quem chama de “irmãos”. Ontem, ele contou, direto da cidade de Bakarzala, em sua segunda entrevista por telefone ao Comércio, como vai resgatar uma família de amigos da zona de perigo, como é o cotidiano do país devastado e denunciou o uso de armas químicas pelas Forças Armadas israelenses. Comércio da Franca - Como têm sido os últimos dias no Líbano? Youssef Fahim Issa - Os últimos dias têm sido como os primeiros (dias de bombardeio); até um pouco piores. As coisas não andam muito bem. A gente nem está podendo circular muito. Na minha região (Norte), não está havendo tanto ataque. Agora, na parte do sul... O sul está muito feio. Está muito ruim, ruim mesmo. Agora por exemplo, nem pescar se pode, está tudo contaminado. Estão jogando bomba de gás e o “Diabo a quatro”. Estão usando armas químicas. Eles reclamam que o Saddam (Hussein, ex-presidente do Iraque) usou armas químicas e agora... E agora desse jeito Israel está conquistando as cidades fronteiriças, onde eles entraram. Comércio - E para onde estão indo as pessoas das cidades e vilas do sul? Youssef - Estão vindo para o norte. Inclusive, muitas famílias estão vindo para a minha cidade e para outras cidades vizinhas; outros estão indo para a Síria. O povo libanês abriu as portas para os que estão migrando do sul. Comércio - Quantos refugiados têm chegado a Bakarzala nos últimos dias? Youssef - Tem dia que chegam até 40 famílias. E o povo está dando tudo. Em outras cidades chegam 50, 70 ou 80 por dia. E tem a possibilidade de vir mais gente ainda. Comércio - Onde elas ficam abrigadas? Youssef - Nas casas. Quem tem uma casa vazia está dando. Quem não tem, põe junto. Mas um problema que está atrapalhando é que tem gente querendo vir mas não pode, porque não tem ponte. Israel bombardeou as pontes e ligações que havia. Muitos fogem de lá a pé até chegar um socorro. Inclusive, agora não estão deixando os caminhões sair com nada, porque eles (os israelenses) acham que estão levando armas. Mas isso aí tudo é uma palhaçada dos Estados Unidos. É um acerto de contas dos Estados Unidos com o Irã, Síria e Palestina, às custas do Líbano, um país fraco, que não guerreia, um povo de paz. Comércio - Então não há como chegar ajuda? Youssef - Agora estão dizendo que vão liberar uma ou duas pistas do aeroporto internacional (de Beirute, que está fechado desde que foi bombardeado no início da ofensiva, há duas semanas) para que venha ajuda de fora. Por aqui não tem mais como ajudar. Não tem como buscar mantimento, não tem mão-de-obra. Até as crianças já estão trabalhando para tirar o fruto do chão ou apanhar das árvores. Comércio - E chegam alimento, remédio, água, medicamentos, já que os caminhões não podem circular e nem há pontes? Youssef - No sul está até pior. Muita gente está passando até fome. Falta medicamento, falta comida, falta água, falta tudo. Mas aqui, por causa do frio, sempre tem reserva. Por exemplo, tem gente que tem um pouco de trigo a mais guardado para fazer pão. Assim, muitos têm (o que comer). Os que podem buscar no lombo de burro estão buscando. Lamentável! Calamidade! Comércio - O preço das coisas subiu por conta da guerra? Youssef - O governo não está deixando. Aquele que sobe o preço um centavo vai preso. O governo não aceita abuso nos preços em uma época dessas. Temos que ajudar nossos irmãos. Comércio - Ainda a respeito dos refugiados: o senhor está recebendo alguém? Youssef - Estou. Devem chegar nos próximos três dias um amigo meu, Hussein Najem, e a família (a mulher e quatro filhos) dele. Ele está no Centro-sul. A família dele está em Saida, à beira-mar, refugiada em uma mesquita. Ele está tentando buscá-los para vir para a minha cidade, ou então mandá-los. Quando eles conseguirem chegar a Beirute (capital do país) vão me ligar e eu vou buscá-los. Comércio - Como o senhor fará para buscá-los? Youssef - Vou buscar. Dependendo do tanto de gente, vamos em mais carros ou van. O pessoal aqui está todo dando apoio. Comércio - A casa do seu amigo foi destruída? Youssef - Foi. Ele morava no sul. E lá, há cidades onde não sobrou mais nada, prédio nenhum, casa nenhuma. Virou uma cratera. Comércio - Eles ficarão na sua casa? Youssef - Sim. Eles estão em seis. Na minha casa cabe, tem dois andares. Além disso, tem a casa de outras pessoas da minha família onde cabe mais gente. Até pedi para ele trazer mais gente, mais famílias, se puder. Nossa família é grande. Se não couber na casa de um, cabe na de outro. Na casa vizinha, já tem uma família de oito pessoas. Comércio - Quando o senhor vai resgatar essas pessoas em Beirute? Youssef - Acho que até no fim da semana. Só estou esperando notícias, uma “luz verde” de que eles chegarem lá (em Beirute). Mas não sou só eu que estou fazendo isso. Tem gente que está fazendo muito mais. O pessoal fala: “Vamos buscar Fulano”, “Vamos buscar Sicrano”. A gente vai junto. Ninguém tem medo da morte na turma aqui. A gente vai buscar nossos amigos mesmo. Não sou só eu, não. Comércio - No Líbano, há muitos grupos diferentes: muçulmanos xiitas, sunitas, cristãos maronitas e ortodoxos, drusos. Muitos brigam entre si e ficam divididos. A guerra está mudando alguma coisa nesse sentido? Youssef - Hoje não existe mais briga. Hoje o que existe é: “O Líbano está em perigo”. A maioria do povo esqueceu isso. Nós temos xiitas, sunitas, drusos, curdos, maronitas e ortodoxos. Mas não há mais rivais. As diferenças estão acabando. Essa família que eu estou recebendo é muçulmana, por exemplo (Youssef Issa é cristão maronita). Comércio - E quanto ao trabalho, às aulas, ao cotidiano. O que foi alterado no dia-a-dia das pessoas? Youssef - Foram alterados os horários de trabalho. E quando os aviões passam vai todo mundo para os abrigos. Aqui na região norte está um pouco mais normal. Setenta porcento das pessoas estão trabalhando. Há muitos que foram chamados pelo Exército, e estão em alerta. As escolas estão de férias. Muita gente que está migrando da parte sul fica nas escolas. Quando as escolas enchem, eles vão para casas de pessoas que oferecem abrigo. Vão também para mesquitas e igrejas. Comércio - Então, as escolas e templos estão virando campos de refugiados? Youssef - Isso mesmo, campos de refugiados. Principalmente porque eles (os israelenses) estão bombardeando até a Cruz Vermelha. Comércio - O senhor quer mandar algum recado para o pessoal de Franca e para a sua família? Youssef - Obrigado a você, à rádio (Difusora), ao Comércio da Franca, aos brasileiros, francanos, povo do qual eu faço parte há tantos anos. Um abraço aos meus amigos, meus filhos, minha família.... Estou com saudades. Mas logo eu vou jogar um truco aí no bar do Piloto, lá na Rua General Telles. Um abraço para o Piloto e para os amigos que jogam truco lá. Comércio - E quando o senhor vai estar nessa roda de truco novamente? Youssef - (risos) Vamos ver... Eu não quero ir para a Síria, nem para a Jordânia, nem para lugar nenhum. Só saio daqui para ir direto para o Brasil. Vamos ver quando é que vai estar tudo normal e o aeroporto funcionando para eu voltar para o Brasil.

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