Um francano sob as bombas do Líbano


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O comerciante Youssef Fahim Issa, 67, libanês naturalizado brasileiro, em Franca há mais de 40 anos, viajou para o Líbano para visitar seus familiares e assiste com tristeza à destruição de sua terra natal pelo Exército israelense. O comerciante, que está na na cidade de Bakarzala, que ainda não foi bombardeada, mas está a apenas seis quilômetros da importante cidade de Trípoli, que teve o porto atacado pelos caças do Estado Hebreu, conversou no sábado com a reportagem do Comércio. Youssef Issa é pai de Fahim Youssef, do CDL (Clube de Diretores Lojistas) da cidade de Franca, que assim como centenas de outros membros da comunidade árabe da cidade (como as famílias Riad, Facuri, Haddad, Saloum), tem primos, avós, irmãos e pais na zona de guerra. O Itamaraty estima que cerca de 70 mil brasileiros vivem no Líbano atualmente. Sete já morreram nos bombardeios. Três deles eram crianças. Comércio da Franca - Como é a situação na região onde você se encontra nesse momento de conflito? Há muitas pessoas querendo fugir por Trípoli? (o porto de Trípoli é um dos mais importantes do Líbano) Youssef Fahim Issa - Não. O porto de Trípoli foi bombardeado, assim como o de Juni, de Batroun. Todos os portos foram bombardeados pelo inimigo israelense sem piedade alguma. Estão atacando casas, civis, crianças, senhoras, velhos, sem nenhuma piedade. Os brasileiros que querem deixar o país estão indo para a Síria, para a Jordânia, Turquia, ou outros países, e lá estão pegando aviões. O governo brasileiro mandou alguns aviões para pegar algumas famílias brasileiras nesses países e elas voltaram. Os que ficaram ainda estão esperando a ajuda de Deus para que ele liberte o Líbano da situação, porque pelos portos não tem jeito de os brasileiros saírem. Comércio - E durante essa viagem por terra, para esses países onde os brasileiros estão sendo resgatados, existe o medo de ser bombardeado por algum caça israelense? Youssef - O Brasil pediu para que Israel não bombardeasse esses comboios de brasileiros. Avisa que os brasileiros vão passar e pede para não atacar. De fato, até agora não aconteceu. Mas pode acontecer de um ônibus ou um caminhão estar passando e eles (os israelenses), se desconfiam de alguma coisa, bombardeiam. Eles não estão perdoando ninguém. Comércio - A região onde o senhor se encontra está um pouco mais tranqüila por ficar mais ao norte? Youssef - Não. O local onde estou (Bakarzala) não foi atacado, mas a seis quilômetros daqui, sim. Não chegou aqui, mas está bem perto. A gente escuta as explosões. A telefonia celular não existe mais, bombardearam tudo, as televisões, todos os canais. E hoje (sábado) atacaram também a central de telefone fixo, mas o telefone fixo voltou a funcionar. Mas o que mais me impressiona é o porquê disso tudo. O que os judeus querem com o Líbano? Se um partido (o Hezbollah) fez a sujeira, por que todo mundo tem que pagar? Por que o mundo não vê isso? Até quando o Líbano vai pagar esse custo? Eu acho o absurdo dos absurdos que os americanos, os judeus e até o mundo árabe sejam tão covardes. Covardes! Os que não estão atacando estão cruzando os braços covardemente. Deixando os filhos, as mulheres, as crianças, os adultos morrendo sem socorro nenhum. Israel está bombardeando as casas civis, não está bombardeando o Exército, nem esse Hezbollah. Porque esse Hezbollah ninguém sabe onde está, eles estão em qualquer canto. Então, ataque esse povo. Por que vai atacar o libanês? O libanês nunca fez mal a ninguém, minha gente! Comércio - O senhor acha que os governos dos outros países deveriam intervir? Youssef - Eu acho que é obrigação do mundo intervir quando há um massacre. Tem que ver a causa. Os Estados Unidos (que fornecem apoio político e financeiro a Israel e impedem que o Conselho de Segurança da ONU condene a ação) dizem que Israel tem direito à sua defesa. E os libaneses, que são amigos de todo mundo, quem os defende? Cadê a ONU? O Brasil, que é meu segundo país, que eu amo, foi o primeiro a condenar o que Israel está fazendo. Se o mundo todo fosse igual ao brasileiro não teria guerra. O Brasil fez o que pôde para impedir, mas não consegue, porque a “luz verde” para Israel bombardear o Líbano veio dos Estados Unidos. Isso aí é uma guerra dos Estados Unidos, de Israel com a Síria, o Hezbollah e o Irã. Mas para eles acertarem as contas usam o Líbano, um território pequeno, sem armas nucleares, sem armas de bombardeio. Comércio - O senhor viu a destruição desses dias de bombardeio? Conhecia alguém que tenha sido morto nos ataques? Youssef - Oh... Tem muitos amigos meus, muitos conhecidos meus. Eu estive em Beirute, estive na região... É uma calamidade, uma calamidade... Não dá para expressar, só vendo. Ao Sul foi tudo destruído pelo inimigo. Comércio - E o Brasil? Sente vontade de voltar para cá? Youssef - O Brasil é meu segundo país, tenho vontade, meu filhos estão no Brasil. Mas estou aqui com minha mãe, que é libanesa e tem 91 anos e eu tenho um problema de vista e preciso fazer uma operação, então estou demorando. Mas se Deus quiser até agosto estarei por aí. Comércio - Quer mandar algum recado, alguma mensagem para os libaneses e descendentes de libaneses que estão aqui em Franca? Youssef - Eu quero dizer para os libaneses que lutem pelo Líbano, lutem pelo Brasil. Não podemos ser “deserdados” em uma terra maravilhosa como Líbano e o Brasil. Rezem com força. Peçam para Deus, para Cristo, para Maomé, para qualquer santidade, para que o Líbano seja libertado dessa calamidade. Comércio - Pode ter certeza de que há muita gente aqui torcendo e rezando pela paz. Youssef - Acredito que tem mesmo, por isso que ainda tem uma parte do Líbano em pé. Mas, infelizmente, os Estados Unidos, principalmente George Bush, não rezam (George Walker Bush, presidente americano, é protestante, como a maioria da população dos EUA, e profundamente religioso). Eu gostaria que ele estivesse aqui e visse um filho morto nos braços do pai, ou da mãe ou da avó, para ver se é isso mesmo que ele quer. Para ele ver isso que ele, ele, ele mesmo, faz com outros países árabes, só para defender a situação dele e de seu aliado Israel. Mas infelizmente ele tem a força total. Os americanos mandam no mundo hoje. Comércio - Se pudesse dizer alguma coisa para Ehud Olmert (primeiro-ministro de Israel) ou para Bush, o que você diria para eles? Youssef - Eu pediria a eles que tenham um pouquinho de amor no coração. Tenham piedade porque nós somos humanos, não somos animais. Até ao matar um animal, para não pecar, a gente tem que comer, não pode só matar à tôa e deixar apodrecer. E está apodrecendo a humanidade, sem socorro no sul do Líbano. Tenham piedade. Tenham piedade. Tenham piedade.

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