Respeito e verdade


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Fico chocada com o escapismo e as frases de efeito ditas pelas autoridades constituídas do País e do Estado de São Paulo em relação aos ataques do PCC (Primeiro Comando da Capital), quando, pela segunda vez, essa facção criminosa espalha terror e medo por todo o Estado, atingindo várias cidades, em episódios nos quais seis pessoas perderam a vida, ônibus foram incendiados, inclusive na nossa cidade, lojas apedrejadas, shopping bombardeado e supermercados alvejados, sem contar os estragos que aprontaram no primeiro ataque no mês de maio. Achei um absurdo que, quando da oferta do ministro Bastos, por telefone, ao governador Lembo, de ajuda através dos serviços da Força Nacional e um eventual apoio das Forças Armadas, e diante da recusa do governador, Lula, em resposta, disse: ‘Se São Paulo continua achando que pode tomar conta da situação sozinho, o governo federal nada pode fazer’, como se o caso fosse apenas uma briga de comadres, entre o PT, PL e PSDB. Não é não, Sr. presidente, os governos federal, estadual e municipal têm como principal função ‘garantir a segurança’. Sem isso, vira o caos, o que vem acontecendo nesse momento.. José Serra, então, que não cumpriu sua palavra escrita e deixou os paulistanos à deriva, quando abandonou a prefeitura sem cumprir as promessas feitas, em campanha, como candidato do PSDB, ao governo de Estado, afirmou que há indícios de ligação entre o PT e PCC, isso de olho no resultado das eleições. Os paulistanos? Que se danem. O candidato à Presidência da República, Geraldo Alckmin, também em campanha, disse que a polícia deveria investigar ‘qual a origem e quem está por trás de tudo isso’, como se ele, como ex-governador de Estado, e os outros que o antecederam, não soubesse que são, hoje, os culpados pela facção muito bem organizada pelos bandidos. É realmente triste e atemorizante a incapacidade das autoridades para lidar com a situação. Será que eles não percebem que a maneira como agem os bandidos, que trazem medo e terror à população indefesa e ameaçada ante a imprevisão dos ataques, advém da falta de visão administrativa de vários governos estaduais, por sinal, todos nas mãos deles, do PSDB? Apesar do empurra-empurra, todos têm culpa. Essa situação angustiante que hoje vivem os paulistanos e paulistas nunca poderia estar acontecendo se os mandatários deste Estado fossem mais capacitados, fizessem menos discursos, pensassem um pouco menos neles e mais na população a quem prometeram proteger e tratassem nossos problemas com seriedade, verdade e respeito. O Estado de São Paulo, o mais rico da União, detentor de todas as possibilidades de oferecer uma educação de primeiríssima qualidade e de uma segurança de primeiro mundo, está aí, à mercê de ataques de uma facção criminosa, isto porque (o governante atual e os que o antecederam) fecharam os olhos para um problema crucial, que é o aumento da criminalidade e da cada vez mais crescente população carcerária. Em uma matéria publicada em 11 de maio, comentei sobre a preocupação que tinha em relação ao estado de superlotação do presídio da nossa cidade. Mas não é só aqui. Como ando constantemente pelos fóruns e penitenciárias de várias cidades (todas superlotadas), em razão de termos francanos presos e recolhidos em várias prisões do Estado, cujos processos de cumprimento de pena correm pela Vara de Execução da comarca à qual pertence a penitenciária, tenho condições de dizer que a situação vem se agravando há muito tempo, não só pela superlotação, mas também pela morosidade no andamento dos processos de progressão prisional de indivíduos que já cumpriram o tempo que a Justiça lhes cobra e continuam presos por vários meses, para que seu pedido seja deferido pelo juiz e ganhe a liberdade. Isso é Justiça? Essa gente (o PCC) está se formando não é de agora. Quando demoliram o Carandiru, onde estavam concentrados os condenados de grande periculosidade, e os esparramaram indiscriminadamente pelas penitenciárias do interior, incentivaram o aumento dos membros da tal facção criminosa. Por isso, não é o bastante o governo federal, através de concessão de verbas, tentar fortalecer a segurança; deve sim oferecer à população uma polícia bem estruturada, não corrupta e fiel à proteção da sociedade, que respeite o cidadão comum; urgem também providências do governo estadual, no sentido de remunerar bem os agentes penitenciários, para que não se deixem corromper pelos bandidos; advogados que sejam fiéis ao juramento feito, e juízes que levem em conta a individualização da pena, como propôs o Supremo Tribunal, numa decisão que poderá diminuir em muito a exacerbada população carcerária. O PCC não tem propósitos políticos, por isso, não acredito em balelas, segundo as quais estaria tentando desestabilizar candidatos às eleições próximas. Já deram seu recado, querem ‘um tratamento humano e digno e os direitos dos excluídos da sociedade mantidos’. Outro dia um repórter deste jornal, através de um telefonema, perguntou-me como eu via essa situação como advogada criminalista. Respondi-lhe que não tenho e nunca tive problemas nos vinte e três anos que lido com os meus clientes, sejam eles condenados com mais ou menos penas. Trato-os com respeito e exijo respeito. Falo com a família, exponho a situação real, quanto tempo ficarão reclusos, não recebo dinheiro, nem deles ou da família, para fazer pedidos que não serão deferidos. Não engano. Trato-os como seres humanos que são, com respeito e verdade. Dou o meu recado sem medo. THEREZA RICI é advogada

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