A linha de produção da Calçados Samello, com cerca de 400 trabalhadores, parou ontem. Com salários atrasados desde o dia 5, cerca de 30% dos funcionários do setor decidiram cruzar os braços. Como não seria possível manter a fabricação, a empresa decidiu dispensar os demais. Mais de quatro mil pares de calçados deixaram de ser produzidos. Os trabalhadores estão irredutíveis em não retomar as atividades enquanto não receberem. No final da tarde de ontem, a direção da empresa disse que conseguiu viabilizar recursos e garantiu que fará os pagamentos na manhã de hoje.
Ao que tudo indica, a paciência dos empregados terminou após uma promessa da diretoria de que os salários seriam pagos na sexta-feira, o que não aconteceu. Com apoio do Sindicato dos Sapateiros, ficou acertado que parariam ontem e só retornariam após a realização do pagamento. “Há seis meses os atrasos acontecem. São sempre 15 a 20 dias. Mas, agora, chegamos ao limite; assim não dá para continuar”, disse a revisora de pesponto Maria Aparecida de Oliveira Martins, na Samello há 17 anos. “Sei da boa vontade da empresa, mas os diretores têm de olhar para nós. Nossas contas não esperam e, ao contrário deles, que possuem um vasto patrimônio, não temos de onde tirar dinheiro”.
O presidente da Samello, Miguel Sábio de Mello Neto, disse que os funcionários têm razão em cobrar. O empresário explicou que a burocracia dos bancos emperrou a liberação dos recursos. “Preparamos todos os documentos para acertar na sexta, mas o banco não liberou o crédito e ficamos nessa situação. Mas quero tranqüilizar os funcionários e dizer que amanhã (hoje) pela manhã o dinheiro estará depositado em suas contas”, disse Mello Neto.
Quanto à greve de ontem, para o presidente a atitude dos funcionários é legítima. “Eles têm razão. Reconhecemos e agradecemos a tolerância e a boa vontade. Tem os baderneiros também mas a maioria é de gente responsável e digna. Por isso fazemos das tripas o coração para acertar com eles”. Mello Neto negou que haverá represálias ao movimento por parte da empresa. “Não estamos preocupados com isso. Nossa preocupação é acertar os pagamentos e trabalhar”.
REUNIÃO
O presidente do Sindicato dos Sapateiros, Odair Bonifácio Carrijo, disse que a entidade solicitou uma reunião no Sindicato da Indústria com a direção da Samello para saber a real situação da empresa. O encontro, segundo Carrijo, acontecerá na quarta-feira. “O objetivo é acabar com os boatos. Contamos com a participação dos diretores, pois cada um fala uma coisa e os trabalhadores precisam da palavra oficial da Samello”, disse Carrijo, que antecipou a continuidade da greve caso o pagamento referente ao dia cinco não seja feito hoje. “É o que os funcionários deixaram claro: não dá para trabalhar com essa preocupação na cabeça”.
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