Paulo Salim Maluf (PP) está novamente em campanha. Ex-presidente da Caixa Econômica Federal, ex-prefeito da capital paulista (nomeado e eleito), ex-governador do Estado por eleição indireta e ex-deputado federal, ele poderia se candidatar outra vez a governador ou a presidente da República, mas optou por tentar voltar à Câmara Federal. Em campanha, Maluf passou por Franca recentemente e esteve no Café do Comércio, onde conversou com os jornalistas Sônia Machiavelli Corrêa Neves, Joelma Ospedal e Cláudio Amaral. Falou dos 39 anos de vida pública, de política, de lei eleitoral, de educação, de violência e segurança pública, dos candidatos a governador de São Paulo e a presidente da República. Elogiou Orestes Quércia, candidato a governador pelo PMDB, mas não garantiu que votará nele. Elogiou e aconselhou Geraldo Alckmin, candidato do PSDB à Presidência, e deixou escapar que poderá votar nele. Mas, fez uma ressalva: “Desde que ele se comprometa a lutar contra o câmbio reprimido”. Maluf também falou sobre o jornalista Corrêa Neves, diretor responsável do jornal de 1973 a 2005: “Corrêa Neves tinha caráter e coragem. Foi e sempre será um exemplo para todos os jornalistas do Brasil”.<br /><br /><strong>Comércio da Franca - Por que o sr. é candidato a deputado federal e não a governador, nem a presidente da República?<br />Paulo Salim Maluf -</strong> Se eu disser que não gostei de ser governador, estarei faltando com a verdade. Os momentos mais gostosos da minha vida foram, por exemplo, as inaugurações. Tanto que um dia, em Ribeirão Preto, me disseram que o Colégio Champagnat, em Franca, estava em ruínas. E eu me lembro que vim para Franca para reconstruir, porque haviam destruído o Champagnat. Tenho aqui nesta pasta 13 páginas de obras que fiz em Franca. Mais de uma centena de obras. Eu gostei de ser governador e gostaria de ser novamente.<br /><br /><strong>Comércio - Então, se o sr. pudesse, seria candidato a presidente?<br />Maluf -</strong> Se eu pudesse, seria candidato a presidente. Mas como eu posso competir com o Lula se ele viaja no avião presidencial, se tem uma comitiva com ele, se tem o Banco Central, a Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil liberando verba por ele? Ele tem todos os instrumentos do poder nas mãos, porque foi uma excrescência o que o Fernando Henrique Cardoso fez: aprovar a reeleição sem desincompatibilização. Então, é muito simples fazer a campanha no cargo, com dinheiro público. Eu gosto da vida pública, meus filhos tocam as empresas privadas e eu voltarei à Câmara Federal, onde vou lutar com os instrumentos que posso voltar a ter: a tribuna da Câmara, a competência para fazer projetos de leis bons, a TV Câmara. Portanto, o instrumento que vou usar para continuar minha vida pública é a Câmara dos Deputados.<br /><br /><strong>Comércio - Quem serão os seus parceiros de campanha?<br />Maluf -</strong> Na falta de uma fidelidade partidária, o que é lamentável, porque estou no mesmo partido há 39 anos... Aliás, eu sou um animal em extinção, porque estou casado com a mesma mulher (Silvia Lutfala Maluf) há 51 anos, no mesmo partido há 39 anos e moro na mesma casa há 42 anos. Nunca mudei de casa, de partido, nem de mulher. Pois bem: eu sou a favor de uma reforma política partidária. Por sorte, eu e o Maurilinho (Maurílio Romano Machado, 25, candidato a deputado estadual) podemos ter votos com deputados de outros partidos. Com quem eu quero ser votado? Com muita franqueza eu digo que, se for votado com Maurílio Romano Machado, vou me sentir muito feliz porque ele representa uma renovação estupenda na vida pública brasileira.<br /><br /><strong>Comércio - E para os outros cargos?<br />Maluf</strong> - O meu partido se coligou, na majoritária, com o PMDB. Na proporcional, não. Então, estou liberado para votar em quem quiser para senador, governador e presidente da República, porque nós não fizemos coligação por causa da verticalização.<br /><br /><strong>Comércio - E em quem o sr. vai votar?<br />Maluf -</strong> Eu confesso que estou numa suprema dúvida porque não vejo o Lula fazer campanha. Nem o Alckmin (Geraldo Alckmin, PSDB, ex-governador de São Paulo), porque ele só defende o Fernando Henrique (Cardoso, PSDB, ex-presidente da República), que não é candidato. Está havendo uma esperteza do PT e do Lula, que ficam colocando na pauta das discussões alguém que não é candidato. A gente abre os jornais de São Paulo e lê que o Lula pede aos bancos para melhorar o crédito. Mas será possível que o presidente da República, que tem sob suas ordens o Banco Central, tem que pedir alguma coisa?<br /><br /><strong>Comércio - E o que o sr. gostaria que se discutisse nesta campanha?<br />Maluf - </strong>Eu gostaria, como homem de realizações, que se discutisse programas de governo. Estamos numa campanha em que ninguém assume compromisso do que vai fazer. Acho que estamos com o direcionamento errado. Aqui no governo do Estado de São Paulo temos três candidatos com possibilidade: Serra (José Serra, PSDB), Mercadante (Aloisio Mercadante, PT) e Quércia (Orestes Quércia, PMDB). O Serra precisa explicar porque fez uma carta e assinou que ficaria quatro anos na Prefeitura de São Paulo e não ficou. As pessoas precisam aprender a honrar seus compromissos e a palavra empenhada. O Serra não honrou e tem que dar uma explicação. Em relação ao Mercadante não tenho nada contra a vida pessoal dele, mas ele também deve explicações sobre tudo o que aconteceu no Congresso Nacional envolvendo o PT. O Quércia é um candidato com muitas realizações. Foi um bom governador e pode até acontecer que eu decida votar nele, mas até hoje não tenho nenhuma decisão. <br /><br /><strong>Comércio - E quem, na sua opinião, tem mais chances? O Serra?<br />Maluf -</strong> Não. Eu poderia escrever um livro a respeito das eleições perdidas que ganhei e as eleições ganhas que perdi. Eleição é no dia. Veja o que acabou de acontecer no México, o que me faz ficar com dúvida em relação à honestidade da apuração dos votos naquele país.<br /><br /><strong>Comércio - Mas aqui nós não temos mais esse problema?<br />Maluf -</strong> Não ponho em dúvida, nunca, as apurações do Tribunal Regional Eleitoral. Mas, como engenheiro que sou e de uma boa escola, a Politécnica, e conheço bem os sistemas eletrônicos, é evidente que não estou colocando em dúvida, mas você pode tranqüilamente colocar um desvio na somatória. Você pega a apuração de uma urna e ela está perfeita. Agora, quando se soma tudo lá na frente, como você fica sabendo que a soma daquilo corresponde à soma das partes? Mesmo no sistema eletrônico pode ter fraude, infelizmente. Pode colocar no Comércio da Franca com a minha assinatura: pode ter fraude (na soma dos votos apurados).<br /><br /><strong>Comércio - E para presidente: o Lula já levou essa, considerando tudo o que o sr. falou?<br />Maluf -</strong> Acho que não porque o Lula, de maneira esperta, está trazendo o Alckmin para um debate em que não compete a ele se envolver, mas está se envolvendo de uma maneira infantil. Se eu posso dar ao Alckmin um conselho através do nosso Comércio da Franca, eu digo: não se envolva, não se deixe pautar pelas declarações do Lula. Paute você, Alckmin, a campanha eleitoral com propostas de governo. Temos um bom candidato com uma má campanha.<br /><br /><strong>Comércio - O fato de o sr. dizer que o Alckmin é um bom candidato e dar um conselho a ele significa que o sr. está torcendo por ele?<br />Maluf -</strong> Estou dizendo que posso votar nele, mas eu preciso saber qual é o compromisso dele. Por exemplo: qual é o compromisso dele com Franca? Ele vai assumir o compromisso de ter um câmbio realista ou vai continuar com um câmbio deprimido, impedindo a exportação de calçados como nós gostaríamos que fosse? Ele vai continuar com um câmbio reprimido, prejudicando a soja, o milho e outros grãos ou vai ter um câmbio realista? Eu sou exportador desde 1955, um dos 20 mais antigos exportadores de bens manufaturados, exporto para mais de 50 países e sei o que está me custando manter o cliente. Estou pagando para manter o cliente e isto não é política que possa durar muito. Então, esse cambio barato nós já vimos. Eu tinha 15 anos quando o Governo Dutra fixou um câmbio absolutamente irreal e queimou nossas divisas. O câmbio desvalorizado facilita as importações. As de automóveis, por exemplo, dobrou. Eu quero saber do Alckmin o seguinte: qual vai ser o compromisso público dele com o câmbio e com a reforma fiscal?<br /><br /><strong>Comércio - O que o sr., como deputado federal, poderia fazer neste sentido, além de cobrar o presidente da República?<br />Maluf -</strong> Um deputado federal tem menos poderes do que um executivo. Mas, o deputado ativo tem a tribuna, a televisão e a possibilidade de fazer projetos de lei. Pode, portanto, chamar a atenção para esses problemas: geração de empregos, violência (agora não é mais a Polícia quem caça o bandido, é o bandido quem caça a Polícia), habitação, previdência social e educação. Pretendo levar para o Brasil todo, através de projetos de lei, a idéia do Singapura e dos remédios grátis para quem tem mais de 65 anos. E com relação ao problema da exportação, o deputado pode bloquear as medidas do governo, no Congresso, até que o presidente da República resolva a questão. É preciso que o deputado tenha coragem de enfrentar o governo.<br /><br /><strong>Comércio - O sr. falou que dotou as escolas municipais de São Paulo de computadores. O sr. acompanhou a evolução disso? Houve melhoria? O magistério está habilitado a lidar com as novas tecnologias?<br />Maluf -</strong> A tal progressão continuada é um crime que foi instituído pelos tucanos nas escolas estaduais, ou seja, o aluno não faz mais exames e provas todos os anos. Ele faz a cada três anos. Então, depois de três anos é que a sra. vai verificar se ele é analfabeto ou não e aí não dá para voltar atrás. Tem que acabar com a progressão continuada, porque tem aluno de dez anos que mal saber ler e escrever. Esse é um crime que estão praticando contra o Brasil, porque como é que um aluno desses vai competir com outros candidatos nas principais universidades do Exterior?<br /><br /><strong>Comércio - Quais serão as prioridades do sr. na Câmara Federal?<br />Maluf -</strong> Em primeiro lugar, a reforma da educação. Segundo: saúde pública. Terceiro: habitação. Quarto: geração de empregos. Quinto: combate à violência. No que se refere à geração de empregos, saibam que lutarei da maneira mais virulenta possível contra esta política de desemprego, principalmente no que se refere às empresas exportadoras, que geram empregos melhor remunerados, porque têm valor agregado, uma vez que é muito melhor exportar calçado do que couro, couro do que boi. O valor agregado que as empresas têm dá aos seus empregados melhor poder de compra. Em relação ao combate à violência, acho que temos que botar de novo a Rota na rua e bloquear os celulares nos presídios. Se o preso tiver casa, comida e roupa lavada, mulher e comunicação com o mundo exterior, ele está num motel, não numa prisão, aguardando o seu companheiro lá fora roubar e dar sua contribuição ao PCC (Primeiro Comando da Capital). Vou brigar também pela diminuição da maioridade penal, porque o assassino de 17 anos continua sendo assassino, pela prisão perpétua para autores de crimes hediondos e para que autores de crimes menores tenham penas alternativas.<br /><br /><strong>Comércio - O que o sr. achou da previsão de gastos dos candidatos à Presidência da República?<br />Maluf - </strong>Pornográfica. Num País pobre, o Lula diz que vai gastar R$ 87 milhões? Ele faz a campanha morando no Palácio da Alvorada, comendo e bebendo às nossas custas. É uma coisa horrorosa. Eu nunca vi isso.<br /><br /><strong>Comércio - Como o sr. avalia o fato de o patrimônio do Lula ter dobrado nos últimos anos?<br />Maluf -</strong> Isso eu não avalio como verdadeiro porque ele tinha R$ 400 mil e hoje tem R$ 800 mil. É só colocar o salário dele como presidente, que deve ser de R$ 10 mil por mês, sobre o patrimônio anterior que dá R$ 800 mil. Acho que foi uma exploração indigna. Ele é super pobre. Ele e o PT têm muitos erros, mas eu pessoalmente não acredito que ele enriqueceu.<br /><br /><strong>Comércio - O fato de a previsão de gastos ter saído da casa dos R$ 30 milhões para a de R$ 87 milhões significa a oficialização do caixa 2?<br />Maluf - </strong>Pode ser. Não podendo gastar por fora, vão tentar gastar por dentro. Pode ser.<br /><br /><strong>Comércio - Isso significa que não haverá mais caixa 2?<br />Maluf - </strong>Não. Vai haver. Isso é uma hipocrisia da legislação brasileira. Vai haver e não é por culpa dos políticos porque tem muita empresa que não quer se comprometer publicamente e então dá dinheiro para três candidatos e não quer aparecer, pensando em enganar os outros dois.<br />
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