“Tudo que vem ocorrendo é apenas um aviso”, disse ontem de manhã por celular, muito provavelmente de dentro da cadeia do Jardim Guanabara, um homem que se identificou como porta-voz do PCC (Primeiro Comando da Capital) em ligação à Redação da rádio Difusora AM. Um contato anterior havia sido feito com um repórter do Comércio.
A voz aparentemente lia a mensagem escrita por outra pessoa, devagar, com dificuldade e “tropeçando” na pontuação do texto. O “Salve” (comunicado na gíria dos presos) intitulado “Comunicado e aviso à imprensa” pedia que os meios de comunicação social, “antes de julgar o que está acontecendo (sic)”, se informassem da “verdade”. Tal verdade seria que “esse governo incompetente, mentiroso é o culpado de tudo”. Segundo o suposto porta-voz, a onda de violência que aterrorizou o Estado na última semana era apenas uma maneira de chamar a atenção para a “opressão, abusos e maus-tratos” existentes dentro das unidades do sistema carcerário paulista. O interlocutor não fez ameaças nem mencionou novos ataques específicos.
O preso fez questão de destacar que as ações dessa semana eram apenas um aviso e que, se nenhuma autoridade der atenção à população carcerária, o PCC irá “atingir a Economia do Estado de São Paulo”, mas não esclareceu quais seriam as ações ou alvos de tal estratégia.
Além do recado à imprensa, o suposto porta-voz do PCC deixou uma mensagem à população de Franca: “Nossa guerra não é com a sociedade e sim com os nossos governantes”. Apesar de garantir que a sociedade não era o alvo dos ataques, a onda de violência da semana passada deixou diversos feridos e mortos civis, pessoas que não tinham nenhum vínculo com as forças de segurança pública ou com o governo.
Não foi possível confirmar a origem da ligação. Pelo número registrado na central telefônica da Difusora, a única certeza que se tem é que o telefonema partiu de um celular com código de área 16, região de Franca. Durante a conversa, sons externos e conversas paralelas parecem remeter ao ambiente de uma prisão.
O Comércio entrou em contato com outros quatro jornais do Estado para saber se receberam a ligação. Apenas o jornal Tribuna Impressa, de Araraquara, confirmou o recebimento de mensagem semelhante. A Penitenciária de Araraquara é a que vive a situação mais caótica de todo o Estado. Lá, 1400 presos, muitos deles feridos e doentes, permaneceram dias confinados em um dos pátios da Penitenciária com capacidade para 300 homens. A cadeia do Jardim Guanabara, em Franca, também está superlotada, abrigando 400 presos num prédio projetado para receber 168.
O delegado Luiz Carlos de Almeira, responsável pelo Plantão Policial ontem, não confirmou se a ligação foi realmente feita por um membro do PCC, mas disse que vai apurar. “Outros meios de comunicação da cidade também receberam uma ligação semelhante, mas não afastamos a hipótese de se tratar de um oportunista”.
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