Inevitável analogia


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Para os brasileiros, a eliminação nas quartas de final da Copa teve um peso acentuado. Aliás, nossos torcedores não admitem sequer uma performance brilhante da seleção, em qualquer torneio, sem que o título seja conquistado. Entretanto, antes de apenar nossos 190 milhões de torcedores por atitude antiesportiva, seria prudente tentar entender as razões do inconformismo. Diagnostico dois bons motivos. O primeiro é que já temos perdido de goleada para a história. Tomamos “chocolates” em 2005 no jogo da expansão dos PIB’s. Perdemos para Estados Unidos, Europa, Ásia, combinado das nações emergentes, latino-americanos e caribenhos. Ah, sim, vencemos o Haiti, pelo modesto placar de 2,3% de crescimento econômico contra algo em torno de 1,5%. Temos marcado gols contra a prosperidade, como o câmbio sobrevalorizado, um dos responsáveis pela dificuldade dos setores produtivos “canarinhos” de vencer as retrancas protecionistas dos mercados “adversários”. O poder de investimento de nossas empresas está sempre impedido. Não conseguimos superar uma defesa que, como nenhuma, sabe fazer a “linha burra” (literalmente...), composta pelos truculentos zagueiros dos juros superlativos, dos impostos exagerados e da escassez de linhas de crédito adequadas. Nossos “cartolas”, a despeito de administrarem fabulosa receita tributária, não conseguem estruturar equipe capaz de vencer no campo socioeconômico. Cerca de 10% do time da PEA (População Economicamente Ativa) estão sentados no banco de reservas do desemprego. E sete a cada 10 novas empresas das categorias de base (as pequenas e micro) “param de jogar” precocemente. É por isto que estamos na segunda divisão da economia global. Somos emergentes, mas, se não reagirmos, corremos risco de cair para a “terceirona”. Também pecamos num fundamento essencial do desenvolvimento: a distribuição da bola da renda. De acordo com relatório do Banco Mundial (Bird), o País ocupa, dentre 129 nações, a 125ª posição na tabela da desigualdade. Estamos à frente apenas de Suazilândia, República Centro-Africana, Botsuana e Namíbia. Como se não bastasse, os brasileiros são vítimas do jogo violento da criminalidade. Ora, como é possível não ganhar uma copa do mundo, promovendo nossa redenção por meio do futebol, orgulho da Pátria? Porém, no início deste comentário, eu disse que identificava dois motivos pelo nosso inconformismo diante da não conquista do título. Pois bem, o segundo é a consciência da qualidade de nosso time, sem qualquer favor o que tem melhor elenco! É mais difícil perder quando temos tudo para ganhar. E por que a nossa seleção ocupa, há tanto tempo, o primeiro lugar no ranking da Fifa e na bolsa de apostas de Londres? Além dos valores individuais, sua caminhada vitoriosa, com tropeços como o deste ano, deve-se à capacidade dos técnicos de aproveitar as potencialidades dos jogadores, tornando-as parâmetros para os esquemas táticos. Na Alemanha, talvez tenha faltado espírito de equipe, motivação, preparo físico, capacidade de reação e estratégia ao Brasil. Diante destes problemas, é inevitável uma instigante analogia, pois também nas áreas econômica e geopolítica temos a melhor seleção: mercado potencial de 190 milhões de habitantes, clima propício, recursos naturais abundantes, a maior biodiversidade do Planeta, infinitas terras agricultáveis, a mais moderna e maior indústria da América Latina, agronegócio avançado, sociedade na qual convivem em paz todas as etnias e credos e povo talentoso e com imensa capacidade de trabalho. Porém, como a seleção desta copa de 2006, também estamos sendo derrotados por nossos próprios problemas. O que nos falta? Simples: não temos estratégia de jogo capaz de fazer com que nosso imenso potencial nos transforme numa nação vencedora. Entretanto, assim como conquistamos cinco títulos mundiais em antológicas performances da seleção em copas do mundo, nossa terra pode ser campeã na economia global. Basta que tenhamos a firmeza cívica de dar cartão vermelho à mesmice! PAULO SKAF é empresário e presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo).

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