Em junho, um grupo de 99 pernambucanos, do município de Abreu e Lima, embarcou para a Venezuela com todas as despesas pagas pelo governo Hugo Chávez. Quem não conhece a história talvez venha imaginar, prematuramente, que a excursão era formada por ganhadores de algum concurso turístico do simpático país vizinho.
A história, porém, não é tão simples nem tem o final feliz que gostaríamos de ver em todas as relações diplomáticas do Brasil.
O fato é que, dos 99 passageiros, quatro eram da Prefeitura de Abreu e Lima e 16 acompanhantes. Os outros 79 viajavam na condição de pacientes; foram à Venezuela para se submeter a cirurgias oftalmológicas, pois sofriam de catarata.
Uma notícia, no mínimo estranha, como esta torna certas reflexões inevitáveis. Traz à lembrança, por exemplo, que há pouco mais de três meses, o Ministério da Saúde simplesmente extinguiu o programa de mutirões de cirurgias, entre os quais o de catarata, um dos mais efetivos para a população. Substituiu-o por um sistema que, teoricamente, ofereceria 64 procedimentos cirúrgicos.
Duras críticas surgiram quando do anúncio da medida, especialmente por parte dos oftalmologistas. O sentimento quase geral foi de que a decisão do governo era política, pois o projeto nascera na administração anterior, época em que José Serra dirigia o Ministério da Saúde. Sem juízo de valores, o certo é que, de 1999 ao início de 2006, os mutirões realizaram 3 milhões de cirurgias a maior parte de catarata.
No fim de fevereiro, quando a nova metodologia do Ministério da Saúde passou a vigorar, diversos especialistas alertaram que demoraria a trazer resultados. Falavam que a espera por uma cirurgia poderia chegar a um ano ou mais. Será que tinham razão? Será que o governo trocou o certo pelo duvidoso? Será que trocou resultados por uma simples aposta?
As respostas a tais indagações serão dadas pelo tempo e os cidadãos saberão interpretá-las e julgá-las, se necessário for. Porém, outras devem ser dadas imediatamente, como quem cuidará do pré-operatório dos pacientes de Abreu e Lima? E quem responderá por possíveis complicações? Nesta história, aliás, circula a versão de que a “excursão” à Venezuela teria sido realizada sem conhecimento dos governos de Pernambuco e Federal. Cabe, então, mais uma pergunta: estariam cegas as nossas autoridades?
ELEUSES VIEIRA DE PAIVA é ex-presidente da Associação Médica Brasileira
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