Fingindo de morto


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Vitor Antônio Bijos sempre participa das reconstituições de crimes como a vítima. O arquiteto diz que fará isso “enquanto estiver vivo e a Justiça precisar”
Vitor Antônio Bijos sempre participa das reconstituições de crimes como a vítima. O arquiteto diz que fará isso “enquanto estiver vivo e a Justiça precisar”
Vitor Antônio Bijos, que prefere não revelar sua idade, é de Itirapuã, mas foi em Franca que já morreu por 34 vezes. Na hora de fazer o papel das vítimas nas reconstituições de crimes, ele é o titular. Formado em arquitetura, ele costuma ficar na delegacia e fez amizades com delegados e policiais. Convidado para se colocar no lugar de pessoas mortas com tiros, pauladas, machadadas ou enforcadas, aceitou. “Ganhei a confiança deles e faço as simulações há quatro anos.” Ao entrar em cena, a adrenalina vai a mil quando os autores do crime se aproximam. Medo? “Não tenho receio, mas a gente nunca sabe o que passa na cabeça do bandido na hora que ele revive o momento do crime. Procuro ficar tranqüilo e concentrado. Também confio na equipe de policiais, peritos e delegados que está perto”, disse, minimizando qualquer sensação de insegurança que possa lhe ocorrer. Para lidar com a revolta e agressividade dos criminosos, Vitor diz que tem de ser mais ágil que eles. “Se eu vacilar, posso levar uma ‘revolvada’ na cabeça, uma paulada. Fico concentrado e olho direto nos olhos deles para saber se farão algo ruim. Dá para notar se a raiva aumenta, se ele fica trêmulo”, disse. Nas reconstituições, não apenas os bandidos representam ameaça ou já colocaram Vitinho em apuros. “Muitos crimes revoltam a população e não é raro os bandidos serem ameaçados de morte. Isso aconteceu com a ‘viúva-negra’, aquela mulher que matou os maridos. As pessoas ameaçaram linchá-la, e como eu estava no meio, poderia acabar envolvido.” Mas ele gosta ‘de morrer’ e, se a decisão estiver em suas mãos, morrerá muitas vezes mais. “Faço enquanto eu estiver vivo e a Justiça precisar”. O principal motivo é o benefício para a sociedade. “Minha participação serve para auxiliar o Judiciário a decidir a sentença para quem matou outra pessoa. Uma correção severa é um conforto a mais para os familiares das vítimas.” Revolta é um sentimento que ele tem ao encenar as tragédias. “Às vezes, na hora que estou frente a frente com o bandido, vem uma revolta pelo que ele fez. Respiro fundo e penso que tenho de fazer meu papel. Me controlo.” Questionado se ganha dinheiro para participar das reconstituições, Vitor não respondeu. “Prefiro manter isso sob sigilo”. As reconstituições não são agendadas. Vitor já foi avisado poucas horas antes de “morrer”. “É de repente. Nem pergunto. Vou.” Para representar o mais próximo do real, Vitor conversa com os bandidos minutos antes de entrar em ação como um pequeno ensaio. Ao demonstrarem os crimes cometidos, os autores dos homicídios utilizam armas (descarregadas, é claro), pedaços de madeira, facas (às vezes de papelão) ou vassouras. “A ‘viúva-negra’ é a pessoa mais fria que já vi. Quando lhe deram uma vassoura no lugar do machado para mostrar como matou o marido, ela começou a rir. Sorte minha que era uma vassoura...”, brincou. Vitinho não tem medo de morrer - de verdade.

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