O tempo e a vida


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Depois de certa idade a gente descobre quão fugaz é o tempo que separa o germinar do terminar. O tempo pode laborar contra ou a nosso favor, e isso depende somente de nós, pois o labor do tempo consiste em simplesmente passar. Diz Zeca Baleiro: “Eu não tenho tempo, eu não sei voar/ Dias passam como nuvens/ Em brancas nuvens eu não vou passar”. E em outra música: “...nem vou passar agosto esperando setembro...”. A maior dificuldade em relação ao tempo, eu creio, é ter com ele uma sincronia, pelo menos uma sintonia, que é o melhor meio de determinar se nossa vida é proveitosa ou vazia. Até certa altura da vida achamos que temos o tempo todo pela frente, e então deixamos para depois coisas que devíamos fazer já. Porém, bem antes do que se imagina, vem a constatação de que o nosso tempo corre em sentido contrário e que a maior parte já ficou para trás, e aí não tem volta, pois a vida o que é? Um carro só com acelerador, sem marcha-ré. Então bate aquela pressa de viver, de tentar recuperar o tempo perdido. Belchior diz: “...quando você me amar, me abrace e me beije bem devagar/ Que é para eu ter tempo, tempo de me apaixonar/ Tempo para ouvir o rádio no carro/ tempo para a turma do outro bairro ver e saber que eu te amo/ Meu bem, o mundo inteiro está naquela estrada ali em frente/ tome um refrigerante, coma um cachorro-quente/ sim, já é outra viagem, e o meu coração selvagem tem essa pressa de viver/ Meu bem, quando a vida nos violentar/ pediremos ao bom Deus que nos ajude/ Falaremos para a vida: vida, pisa devagar...” (Coração Selvagem). Um amigo do peito me contou que quando seu pai morreu os dois estavam brigados e não se falavam havia mais de um ano, embora morassem na mesma casa. No dia do falecimento, ele ocupou-se com o funeral, em avisar parentes e amigos, etc. e só caiu em si, viu o que ocorrera, quando o corpo estava sendo baixado à sepultura. Então percebeu que não poderia mais dizer ao pai o que gostaria. Este é um exemplo de como o tempo às vezes parece inimigo. Eu sei que os dois se amavam mais do que pai e filho e tinham vontade de romper o silêncio, voltar às boas. Todavia, foram adiando. Talvez no íntimo pensassem que tudo se resolveria por si mesmo, que era só questão de tempo. Não perceberam que cada dia perdido era precioso, nem imaginaram que um evento imprevisto pudesse tirar-lhes a oportunidade da reconciliação. O problema é que o tempo não resolve nada se não houver ação. Cabia a eles tomar a iniciativa de puxar conversa, pedir desculpas, abraçarem-se. Ficou demonstrado no caso que às vezes a vida não oferece uma segunda chance. Um outro fato também interessante: no carnaval de 1982 encontrei o Biraca, meu amigo de futebol, à beira do choro em frente da Associação Atlética Ituveravense. O baile corria solto no salão e ele não podia entrar porque tinha tomado uma suspensão. Eu, que nunca liguei para carnaval, fiquei imaginando como podia uma pessoa ficar em tamanho desespero por não poder entrar no clube e participar da folia. Tentei consolá-lo. Disse-lhe que deixasse para lá, que outros carnavais viriam. Mas ele estava inconsolável. Hoje, depois de todos esses anos, eu entendo a razão. O Biraca não estava pensando nos carnavais dos próximos anos. Ele estava querendo o aqui-agora-antes-que-tudo-vá-embora. Era uma pessoa que gostava de viver intensamente. Amava a vida e o carnaval e queria os dois. Já, não depois. Haveria depois? Dias atrás, por volta das dez da noite, eu deitei-me no sofá para ficar alguns minutos, pois estava com o sono atrasado e precisava dormir cedo. Liguei a TV e estava começando um filme com o Denzell Washington. Comecei a assistir e fiquei até o fim. Fantástico! Acabou por volta da 00:30 hora. Perdi duas horas e meia de sono, mas ganhei o mesmo tempo em prazer. Uma coisa é certa: não adianta lutar contra o tempo. A gente sempre perde. Melhor aliar-se a ele, aproveitá-lo. É um erro querer trilhar antigas estradas, tentando encontrar as próprias pegadas. O tempo passa e leva a cor do nosso cabelo, a nossa saúde, nosso viço, nossa juventude. Avançam os anos, gira a Terra e, seja paz seja guerra, o tempo é uma engrenagem que nunca emperra. Deve-se fazer todo o possível para viver intensa e verdadeiramente. Um dia tudo não passará de recordação. Mais para frente, nem isso. pois o tempo se encarrega de apagar tudo da mente, trazer a escuridão. As horas felizes, por mais longevas, passam como vento e no fim acabam tragadas pelas trevas do esquecimento. PAULO PEREIRA DA COSTA é promotor de Justiça. Email: paulopereiracosta@uol.com.br

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